Resumo objetivo:
O Brasil já possui mais idosos (32,1 milhões, 15,8% da população) do que crianças até nove anos (26,4 milhões, 13%), segundo o Censo 2022, invertendo a pirâmide etária registrada em 2000. O demógrafo Paul Morland alerta que a queda global da natalidade, exemplificada pela rápida transição na Coreia do Sul e pela taxa de 1,55 filho por mulher no Brasil, gerará uma escassez futura de trabalhadores, pressionando a previdência e a inovação. Ele defende que a solução requer incentivos sociais e governamentais, como subsídios e flexibilidade no trabalho, para apoiar os casais que desejam ter filhos.
Principais tópicos abordados:
1. Transição demográfica no Brasil: inversão da pirâmide etária com o envelhecimento da população.
2. Queda global da natalidade: tendência mundial e seus impactos econômicos de longo prazo (falta de mão de obra, pressão sobre sistemas de saúde e previdência).
3. Fatores e soluções: discussão sobre causas culturais e a necessidade de políticas de apoio às famílias para estimular a natalidade.
O número de idosos no Brasil já supera o de crianças: são 32,1 milhões de pessoas com mais de 60 anos, ante 26,4 milhões de crianças de até nove anos, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica). Os grupos representam, respectivamente, 15,8% e 13% da população nacional, de acordo com o último Censo demográfico, de 2022. Trata-se de uma mudança profunda em relação ao Censo de 2000, quando os idosos somavam 8,6% e, as crianças, 19,4% da população.
"PaÃses da América do Sul estão reproduzindo as baixas taxas de natalidade que já eram comuns na Europa e no Japão, o que gera um grande problema para a economia global daqui a 20 anos", disse à Folha o demógrafo britânico Paul Morland, 61, pesquisador associado da BirkBeck, Universidade de Londres, e um dos principais estudiosos dos efeitos da combinação entre aumento da longevidade e queda da natalidade sobre a economia.
Morland chama a atenção para a rapidez deste processo na Coreia do Sul, que enfrenta um declÃnio populacional de mais de 85% em apenas duas gerações. No paÃs asiático, a cada 100 casais nascem entre 33 e 35 filhos, que dão origem de 11 a 12 netos. à uma taxa de fecundidade de 0,72 a 0,75 por mulher. No Brasil, é de 1,55 por mulher, com empresas se moldando para atender famÃlias cada vez menores. Seriam necessários 2,1 filhos por mulher no mundo para manter a população estável.
"Se não temos crianças, economizamos dinheiro com educação. Ao mesmo tempo, vamos viver cada vez mais. Tudo isso é maravilhoso. Mas não teremos trabalhadores suficientes daqui a 20 anos para nos apoiar na velhice, nem filhos", diz Morland, que participou no inÃcio de fevereiro da Cúpula Mundial de Governos, em Dubai, com a proposta de reunir lideranças globais para discutir economia, inovação e polÃticas públicas.
De acordo com o especialista, os paÃses desenvolvidos podem adiar temporariamente os piores efeitos deste cenário com a imigração. Mas muitas nações, inclusive aquelas de onde os imigrantes vêm, deverão envelhecer antes de enriquecerem, afirma. Para ele, o colapso da fertilidade é um problema macro global, não uma questão social isolada.
"à o trabalho que faz girar a economia e haverá cada vez menos gente jovem trabalhando. Ao mesmo tempo, os mais velhos tendem a não arriscar seu capital, a não empreender, o que gera cada vez menos inovação", diz. "Pessoas mais velhas, por sua vez, precisam de alguém para cuidar delas e não haverá mais gente nova disponÃvel. E os governos não terão orçamento para cuidar da saúde dos cidadãos à medida que eles envelhecem, porque menos gente contribuiu com impostos", afirma o especialista, que trata do assunto em "No One Left: Why the World Needs More Children" (Ninguém Sobrou: Por Que o Mundo Precisa de Mais Crianças, em tradução livre), editora Swift Press (2024).
O pesquisador acredita que questões culturais afetam diretamente o baixo Ãndice de natalidade. Mas não considera que o "trabalho invisÃvel" que recai sobre as mulheres âresponsáveis pelos cuidados com a casa e a famÃlia, além do trabalho remuneradoâ seja determinante para os baixos Ãndices de natalidade. No Brasil, o trabalho invisÃvel representa cerca de 8,5% do PIB (Produto Interno Bruto) e aumenta a sobrecarga das mulheres o que, segundo alguns estudiosos, contribui para a disposição delas de terem menos filhos ou não tê-los.
"Somos um tanto obsessivos em relação ao PIB: se alguém trabalha fora, faz parte do PIB. Se alguém trabalha nos cuidados domésticos e com filhos, não é considerado PIB. Temos que mudar um pouco isso", diz. "Mas acho que a decisão de ter ou não filhos pertence ao casal, não é uma decisão da mulher. Eles precisam ser encorajados e apoiados para isso, pela sociedade e pelo governo âcom subsÃdios a moradia, educação, oferta de cuidados, flexibilidade no trabalho etc.", afirma.
O especialista não apoia, porém, polÃticas públicas e benefÃcios corporativos para congelamento de óvulos, a fim de que as mulheres engravidem mais tarde. "Acho que isso só encorajaria as pessoas a terem seus filhos mais e mais tarde. à muito melhor tê-los quando você tem energia e entusiasmo, entre os 20 e 30 anos", defende.
Morland também não considera que as novas gerações são mais "egoÃstas" em relação à s anteriores. "à claro que mulheres e homens querem ter uma vida fora de casa, construir suas carreiras. Mas precisam ser encorajados a fazerem isso e terem filhos", diz. "Eu fiz isso, meus filhos estão fazendo isso, nós podemos fazer isso acontecer", afirma o demógrafo, pai de três filhos e avô de quatro netos. "Me tornar pai foi a melhor decisão que tomei."