Resumo dos pontos principais:
Após o ataque de 7 de outubro de 2023, Israel mobilizou-se militarmente, mas sua economia sofreu um forte impacto, com queda drástica do PIB, aumento do déficit e da dívida pública, além de significativa fuga de capitais. Apesar da crise económica grave e do desgaste da sua imagem internacional devido à guerra em Gaza, a situação foi considerada administrável pelos líderes israelenses, com alguns indicadores mostrando recuperação parcial até o final de 2025, refletida em revisões das agências de classificação de risco.
Principais tópicos abordados: 1. Impacto económico da guerra: Queda do PIB, aumento do déficit orçamentário e da dívida pública, falências e fuga de capitais. 2. Consequências políticas e internacionais: Deterioração da imagem global de Israel e desinvestimentos estrangeiros. 3. Resposta e recuperação: Ações do governo para gerir a crise e a posterior recuperação parcial, refletida nas avaliações das agências de risco.
No último trimestre de 2023, Israel ainda se recuperava do choque e do trauma do ataque do Hamas de 7 de outubro às cidades e kibutzim da Faixa de Gaza e se mobilizava para uma campanha de vingança e retaliação. Mais de 200 mil israelenses foram evacuados de comunidades na fronteira com a Faixa de Gaza e o Líbano, e cerca de 300 mil reservistas foram mobilizados. Nos meses seguintes, a economia israelense foi abalada. O consumo, as importações e as exportações caíram drasticamente. Por fim, quase 50.000 empresas faliram. Entretanto, a imagem global de Israel está em frangalhos. Sua campanha genocida em Gaza a colocou em maus lençóis entre os círculos progressistas do mundo todo e em grande parte do Sul Global. Mas a crise econômica que Israel enfrentou até o momento tem sido administrável para seus líderes. Rebaixamentos e fluxos de capital O Produto Interno Bruto (PIB), o valor monetário total de bens e serviços, é um indicador rudimentar comum de saúde econômica. Segundo esse critério, a economia israelense estava em dificuldades no final de 2023. No último trimestre do ano, o PIB encolheu 19,4%. O crescimento anual do PIB em 2023 foi de apenas 1,8%, abaixo dos 6,5% registrados em 2022. A crise econômica que Israel enfrentou até o momento foi administrável por seus líderes. Para efeito de comparação, a economia dos EUA cresceu 2,9% em 2023 e 2,5% em 2022. Esses são considerados números “bons” para uma economia capitalista desenvolvida. A taxa de crescimento do PIB de Israel superou a dos Estados Unidos em todos os anos de 2015 a 2023. Os custos relacionados à guerra, estimados pelo Banco de Israel em US$ 80 bilhões entre 2023 e 2025, elevaram o déficit orçamentário do governo israelense em 2024 para quase 7% do PIB — mais que o dobro da diretriz da UE de 3% do PIB para os países da zona do euro. Com o aumento de impostos, o governo reduziu seu déficit orçamentário em 2025 para 4,7% do PIB, ainda bem acima da meta da UE. Para efeito de comparação, o Escritório de Orçamento do Congresso estima que o déficit orçamentário dos EUA em 2025 seja de 5,9% do PIB. Outra medida comum da saúde econômica é a dívida pública como percentual do PIB. Em 2024, a dívida de Israel disparou para 69% do PIB, ante 61,3% em 2023, e bem acima dos 60% exigidos para os membros da zona do euro. A dívida pública atual dos EUA é de cerca de 120% do PIB. Mas nenhum outro país tem o privilégio especial de imprimir dólares para pagar suas dívidas. Baseando-se em parte nesses indicadores macroeconômicos, as principais agências de classificação de risco internacionais rebaixaram a nota de crédito de Israel, aumentando a taxa de juros que o país precisava pagar para tomar empréstimos e cobrir seu déficit orçamentário. No entanto, apesar de um déficit orçamentário e uma dívida em relação ao PIB acima do desejável, a economia israelense se recuperou o suficiente para que, no final de 2025, a S&P elevasse a nota de Israel para A, com perspectiva estável. Essa classificação é de grau de investimento, indicando risco mínimo de inadimplência, embora ainda inferior a AA ou AAA. A Moody’s, de forma mais pessimista, manteve seu rebaixamento de setembro de 2024 para Baa1, com perspectiva negativa, embora tenha recentemente elevado sua perspectiva para “estável”. A fuga de capitais foi significativa em 2023 e 2024. Impulsionados pelos protestos semanais em massa contra o ataque do governo de Benjamin Netanyahu à independência do judiciário, investidores institucionais transferiram mais de US$ 8 bilhões para fora de Israel até junho de 2023. No ano seguinte ao 7 de outubro de 2023, eles retiraram outros US$ 40 bilhões do país. O Fundo Soberano da Noruega desinvestiu completamente na ocupação, e o Fundo de Pensões Dinamarquês retirou todos os investimentos de bancos israelenses. O Fundo de Investimento Estratégico da Irlanda desinvestiu aproximadamente € 3 milhões de cinco bancos israelenses e da empresa Rami Levy, que opera diversos supermercados na Cisjordânia. No entanto, esses valores foram compensados por substanciais entradas de capital em 2024 e 2025. Aquisições recordes de startups israelenses por empresas estadunidenses e preços recordes na bolsa de valores de Tel Aviv em 2025 sugerem que, embora os capitalistas internacionais e locais possam ter dúvidas sobre a estabilidade econômica de Israel, estão longe de abandoná-lo. Motor de crescimento O setor de alta tecnologia é o motor da economia israelense. Ele emprega cerca de 11% da força de trabalho, que paga aproximadamente 25% de todos os impostos de renda. Seus produtos e serviços representam cerca de 64% das exportações e 20% do PIB. “As indústrias de alta tecnologia de Israel, e o complexo industrial-militar de vigilância intimamente relacionado, estão totalmente integradas aos circuitos globais de capital.” As indústrias de alta tecnologia de Israel, e o complexo industrial-militar de vigilância intimamente relacionado, estão totalmente integradas aos circuitos globais de capital. Empresas de alta tecnologia empregam cerca de 409.000 pessoas localmente e outras 440.000 fora do país. Mais de cem empresas israelenses negociam ações na NASDAQ, a bolsa de valores de Nova York, conhecida por sua forte presença no setor de tecnologia, o maior número entre todos os países estrangeiros, depois da China e do Canadá. Profissionais gerenciais e técnicos transitam entre Israel e o Vale do Silício e outros polos de alta tecnologia dos EUA; alguns permanecem no exterior por anos a fio. Uma análise de duas empresas, Intel e Nvidia, ilustra simultaneamente elementos de incerteza e resiliência no setor de alta tecnologia de Israel. A Intel investiu US$ 27 bilhões em Israel, mais do que qualquer outra empresa estrangeira. Ela emprega cerca de 9.000 pessoas, número inferior aos 12.000 de 2021. Em 2017, a Intel comprou a Mobileye, fabricante de sensores e câmeras para veículos autônomos, por US$ 15,3 bilhões. Na época, essa foi a maior aquisição estrangeira da história de Israel. No início de 2024, com um subsídio de US$ 3,2 bilhões do governo israelense, a Intel anunciou uma expansão de US$ 25 bilhões em suas operações de fabricação de chips na cidade de Kiryat Gat, no sul de Israel, chamada Fab 38. Em junho daquele ano, após várias rodadas de cortes de custos e demissões em todo o mundo, a Intel anunciou que adiaria o início das operações na Fab 38 para 2028 ou posteriormente. Com uma parte da fábrica quase concluída, especialistas preveem que a Intel a colocará em operação ou a venderá para outra empresa. A campanha palestina de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) reivindicou a responsabilidade pelo adiamento do início das operações da Fab 38 e atribuiu isso à perda de confiança da Intel na economia israelense. No entanto, a Intel foi mais fortemente motivada por seu fracasso global em competir com a Advanced Micro Devices (AMD) e a Nvidia na fabricação de chips de IA e pelas consequentes quedas em sua participação de mercado, lucros e preço das ações. A menos que a situação financeira global da Intel entre em colapso, ela não abandonará Israel, onde seu investimento de capital representa quase 10% de sua presença global, em um futuro próximo. A Nvidia é a empresa que mais cresce em Israel, com 5.000 funcionários. Em dezembro, declarou Israel como sua “segunda casa” e anunciou que investirá US$ 1,5 bilhão na construção de um novo campus de pesquisa e desenvolvimento (P&D) no subúrbio de Kiryat Tiv’on, em Haifa, e em um data center nas proximidades. Sua presença física no local terá o mesmo tamanho de sua sede no Vale do Silício. As instalações, projetadas para acomodar 10.000 funcionários, posicionam a Nvidia para ultrapassar a Intel como a maior empregadora privada de Israel. A ascensão e queda de empresas concorrentes é como o capitalismo deveria funcionar, embora o subsídio governamental de US$ 3,2 bilhões recebido pela Intel e o grande desconto da Nvidia, no valor de cerca de US$ 21,7 milhões, no arrendamento de terras em Kiryat Tiv’on, evidenciem a realidade de que nunca existe um “mercado livre”. Impulsionado pela cibersegurança e inteligência artificial, o setor de alta tecnologia israelense manteve-se forte no geral. Em 2024, as startups captaram cerca de US$ 11 bilhões, um aumento de 13% em relação a 2023. O setor de cibersegurança foi o que mais recebeu investimentos, representando 39% do total, enquanto os setores aeroespacial e militar apresentaram o maior crescimento anual, com um aumento de 143% nos investimentos. Em 2025, as startups israelenses captaram US$ 15,6 bilhões em capital privado, um aumento de 68% em relação a 2023. Houve dezoito IPOs (ofertas públicas iniciais) durante o ano. Empresas de cibersegurança e inteligência artificial lideraram o caminho, fazendo de 2025 um ano recorde de US$ 60 bilhões em fusões e aquisições. Duas aquisições gigantescas dominaram o cenário: o Google comprou a plataforma de segurança em nuvem Wiz por US$ 32 bilhões e a Palo Alto Networks adquiriu a CyberArk Software por US$ 25 bilhões. Esses negócios fortalecem a relação entre o Vale do Silício e o aparato de inteligência militar de Israel. Os quatro cofundadores da Wiz, os fundadores da CyberArk e da Palo Alto Networks, e muitos outros que trabalham no setor de alta tecnologia são veteranos da Unidade de Inteligência Militar 8200. Israel se consolidou na vanguarda da inovação conhecida como deep tech, com tecnologias revolucionárias baseadas em novas descobertas científicas e engenharia avançada. Mas, como sugerem as aquisições da Wiz e da CyberArk, o setor pode estar entrando em um período de consolidação, dominado por gigantes da indústria, e não por startups. A indústria de armamentos Como era de se esperar, o complexo industrial militar-vigilante de Israel manteve-se forte. Israel é líder mundial no “novo urbanismo militar” — controle de multidões, vigilância de fronteiras e contraterrorismo — que se expandiu consideravelmente desde o 11 de setembro. O setor de segurança interna de Israel é composto por seiscentas empresas, das quais trezentas exportam treinamento, serviços e bens, principalmente tecnologias de vigilância, com um valor anual superior a US$ 3 bilhões. Em 2024, as exportações de armas israelenses bateram recorde pelo quarto ano consecutivo, atingindo US$ 14,8 bilhões, um aumento em relação aos US$ 13 bilhões de 2023 e comparado aos US$ 7,5 a US$ 8,5 bilhões em vendas anuais entre 2018 e 2020. “Israel é líder mundial no ‘novo urbanismo militar’ — controle de multidões, vigilância de fronteiras e contraterrorismo — que se intensificou desde o 11 de setembro.” A Lockheed Martin (LMT) ilustra a integração de Israel na indústria global de armamentos. A LMT é a maior fabricante de armas do mundo em volume de vendas. A Lockheed Martin Israel foi fundada em 2014 e possui escritórios em Tel Aviv e Beersheba, cidade que está se desenvolvendo como um polo de alta tecnologia voltada para o setor militar. A LMT fornece armamento para Israel desde 1971, e seus caças F-16 são a espinha dorsal da força aérea israelense desde 1980. A LMT é a principal contratada, com a Northrop Grumman e a britânica BAE como parceiras secundárias, para fornecer o notoriamente caro e com desempenho abaixo do esperado caça furtivo F-35. Israel contribuiu significativamente para o projeto e, eventualmente, adquirirá pelo menos setenta e cinco F-35I Adirs, com aviônicos personalizados pelos israelenses. Os acordos de coprodução da LMT com empresas israelenses para componentes do F-35 têm um valor estimado em mais de US$ 4 bilhões, podendo chegar a US$ 6 bilhões. Em 2014, a Israel Aircraft Industries, que era estatal, mas está em processo de privatização, inaugurou uma nova linha de produção para fabricar mais de 800 pares de revestimentos de asas do F-35, avaliados em US$ 2,5 bilhões. A Cyclone, subsidiária da Elbit, a maior fabricante militar privada de Israel, produz as aeroestruturas do F-35, enquanto a Elisra fornece seu sistema de guerra eletrônica e a estatal Rafael fabrica as armas e sensores avançados do F-35. O F-35 e muitas outras aeronaves militares estadunidenses utilizam o Sistema Conjunto de Mira Montado no Capacete (Joint Helmet Mounted Cueing System), um visor digital desenvolvido pela Elbit e pela Rockwell-Collins. O vice-presidente de requisitos do cliente da LMT, o general aposentado da Força Aérea dos EUA, Gary North, declarou: “Há uma parte de Israel em cada F-35 já construído”. Em dezembro de 2017, Israel tornou-se o primeiro país fora dos Estados Unidos a implantar F-35s operacionais. Atualmente, opera mais de quarenta dessas aeronaves. O Merkava (carro de guerra), o principal tanque de batalha de Israel, foi projetado e é construído em grande parte no próprio país. Mas também está integrado às cadeias de suprimentos globais de produção militar. A MTU, subsidiária alemã da Rolls-Royce, fabrica o motor MT-883 para o Merkava e para o veículo blindado de transporte de pessoal Namer (tigre) de Israel. Embora a maioria dos componentes do motor seja fabricada na Alemanha, a montagem é feita em Muskegon, Michigan, pela Rolls-Royce Solutions America. Isso possibilita que a ajuda militar dos EUA financie a compra dos motores por Israel e vincula centenas de empregos estadunidenses a essa cadeia de suprimentos, tornando politicamente difícil interrompê-la. “Em dezembro de 2017, Israel tornou-se o primeiro país fora dos Estados Unidos a implantar caças F-35 operacionais. Atualmente, opera mais de quarenta dessas aeronaves.” O sistema de transmissão do Merkava é projetado pela empresa alemã Renk e fabricado sob licença em Israel. Quando a Alemanha suspendeu brevemente as vendas de armas para Israel em 2025, o CEO da Renk, Alexander Sagel, descreveu a provável resposta da empresa a um congelamento mais prolongado: “Se não pudermos produzir [transmissões] na Alemanha, realocaremos esses volumes para outra fábrica, por exemplo, nos EUA… Isso pode levar de 8 a 10 meses, mas se não houver avanços, faremos isso porque temos esse negócio.” Ou seja, a Renk precisa dos negócios com Israel tanto quanto Israel precisa das transmissões para tanques da Renk. Mercados de exportação Houve alguns sinais preocupantes para o futuro do setor de exportação militar de Israel, embora, com exceção da Espanha, os principais compradores europeus de armas israelenses tenham se limitado até agora a ações simbólicas. A França proibiu a participação de empresas militares israelenses na Eurosatory de junho de 2024, uma importante feira global de armas. Em 2025, a Espanha cancelou um contrato assinado pouco antes de 7 de outubro de 2023, para a compra de 168 lançadores e 1.680 mísseis antitanque, avaliados em US$ 325 milhões, de uma subsidiária da empresa Rafael. Isso ocorreu após o cancelamento de um pedido de munição no valor de US$ 7,53 milhões. Em julho de 2025, a Eslovênia tornou-se o primeiro país da UE a impor um embargo de armas a Israel, anunciando que havia interrompido as compras de armas israelenses logo após 7 de outubro. No mês seguinte, no entanto, o jornal Haaretz noticiou que a Eslovênia havia usado mecanismos da UE para continuar comprando equipamentos militares no valor aproximado de US$ 970.000 de Israel em 2024, excluindo mísseis antitanque e a manutenção de material adquirido anteriormente. “Após o falso ‘cessar-fogo’ anunciado por Donald Trump, a Alemanha retomou as exportações de armas para Israel.” Em agosto de 2025, a Alemanha, segundo maior fornecedor de armas de Israel depois dos Estados Unidos, anunciou a suspensão da venda de algumas armas que poderiam ser usadas na Faixa de Gaza. Mas, em novembro, após o falso “cessar-fogo” anunciado por Donald Trump, a Alemanha retomou as exportações de armas para Israel. Em dezembro de 2025, semanas após a Alemanha receber o primeiro de seus sistemas de defesa aérea Arrow 3 de Israel, anunciou um acordo ampliado para o Arrow no valor de US$ 6,5 bilhões, tornando-se o maior negócio de exportação militar israelense da história. A Israel Aerospace Industries desenvolveu o Arrow em conjunto com a Boeing e a Agência de Defesa de Mísseis dos EUA. O governo estadunidense destinou cerca de US$ 1 bilhão em fundos de pesquisa e desenvolvimento para o Arrow a Israel entre 1988 e 2002. Apesar das objeções da Espanha e da Eslovênia (e da Irlanda, que não compra armas de Israel), a Europa foi a maior compradora das exportações militares israelenses em 2024, com 54% do total, um aumento em relação aos 35% de 2023, seguida pela região Ásia-Pacífico, com 23%. Os signatários dos Acordos de Abraão — Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Marrocos — representaram 12% das exportações de armas de Israel, um aumento em relação aos 3% de 2023. Esse número não inclui compras não declaradas de equipamentos de vigilância e outros itens pela Arábia Saudita e outros países árabes do Golfo. O genocídio não impediu as autocracias árabes de fazerem negócios relacionados à segurança com Israel. Outros setores da economia israelense prosperaram apesar (ou, em alguns casos, por causa) da dizimação da sociedade palestina na Faixa de Gaza. Em dezembro de 2025, Israel concluiu um acordo de US$ 35 bilhões para fornecer gás natural ao Egito a partir do campo de Leviatã, no Mediterrâneo, no qual a Chevron Mediterranean Limited detém uma participação de 40%. O Egito proclamou veementemente que se tratava de um acordo comercial sem implicações políticas. No entanto, é difícil acreditar que a dependência egípcia de Israel no fornecimento de gás natural não influenciará sua política pós-genocídio em Gaza. Cerca de metade da receita do acordo irá para os cofres do Estado israelense, uma contribuição significativa para a redução do déficit orçamentário nos próximos anos. “É difícil acreditar que a dependência egípcia de Israel no fornecimento de gás natural não influenciará sua política pós-genocídio em Gaza.” A guerra também gerou lucros extraordinários em alguns setores. Em 2024, quando a El Al detinha o monopólio dos voos de Israel para a América do Norte, seus lucros foram superiores à soma dos lucros anuais dos quinze anos anteriores. O respeitado Instituto Internacional da Paz de Estocolmo relatou que a Elbit, a Israel Aerospace Industries e a Rafael, as maiores empresas do setor militar israelense, registraram receitas combinadas de US$ 16,2 bilhões em 2025. Os bancos se beneficiaram da compensação governamental para empresas e indivíduos evacuados de zonas de guerra e do programa de reposição salarial de US$ 8.000 por mês para reservistas, totalizando cerca de US$ 18 bilhões em meados de 2025. Devido à estrutura econômica interna de Israel, baseada no consumo, essas transferências alimentaram a atividade econômica sem aumentar as dívidas não pagas nos balanços dos bancos, a inflação ou causar uma crise na balança de pagamentos. Emigração O aumento da taxa de emigração é o desdobramento mais importante da economia política de Israel após 7 de outubro que, se não for controlado, sinalizará que judeus instruídos, seculares, cosmopolitas e, desproporcionalmente, asquenazes não vislumbram um futuro para Israel no qual desejem viver. A emigração para os Estados Unidos e a Europa não é um fenômeno exclusivamente pós-7 de outubro. O censo de 2020 registrou 191.000 israelenses vivendo nos Estados Unidos. Algumas estimativas chegam a 500.000. Cerca de 20.000 israelenses, talvez mais, vivem na Alemanha, mais da metade deles em Berlim. De 2009 a 2021, cerca de 36.000 israelenses deixaram o país anualmente. Talvez motivados pela escalada da violência que acompanhou a Intifada da Unidade de 2021, 43.400 pessoas partiram em 2021 e 59.000 em 2022. Um relatório do Knesset de outubro de 2025 constatou que 82.800 cidadãos israelenses deixaram o país em 2023 e um número semelhante em 2024 — uma perda histórica de capital humano. Essa fuga populacional foi compensada pelo retorno de 24.200 pessoas em 2023 e de 23.800 no ano seguinte. Previa-se que cerca de 75.000 pessoas deixariam o país em 2025. Subtraindo os que retornaram dos que partiram, o saldo líquido anual de saídas em 2023 e 2024 é de aproximadamente 58.000. Em dezembro de 2025, a Associação Israelense de Indústrias de Tecnologia Avançada relatou que 53% das empresas receberam um número crescente de pedidos de transferência para o exterior por parte de funcionários israelenses — “uma tendência que pode, com o tempo, prejudicar o motor de inovação local e a liderança tecnológica de Israel”. A tendência de acadêmicos deixarem o país é mais acentuada nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). A maioria dos graduados que vivem no exterior provém de localidades abastadas, desproporcionalmente asquenazes, na região metropolitana de Tel Aviv e Haifa, e em Omer, um subúrbio de Beersheba. O Conselho de Presidentes das Universidades de Pesquisa de Israel alertou: “Quando cerca de um quarto dos doutores em matemática e ciência da computação opta por construir seu futuro no exterior, o Estado de Israel está perdendo progressivamente sua vantagem comparativa”. “Além da saída de pessoal do país, há indícios de que a indústria de alta tecnologia israelense possa estar perdendo parte de seu vigor.” Além da saída de pessoal do país, há sinais de que a indústria de alta tecnologia israelense possa estar perdendo parte de seu vigor. De acordo com um relatório da Autoridade de Inovação de Israel (IIA), o emprego em alta tecnologia está estagnado desde 2022 e diminuiu em 2024, com a saída de parte da força de trabalho do país. O CEO da IIA, Dror Bin, descreveu isso como “um momento decisivo” para o setor: Por um lado, Israel está consolidando sua posição como um centro global de tecnologia de ponta, ficando atrás apenas dos EUA. Por outro lado, a produção está estagnada, os cargos em P&D estão diminuindo e o empreendedorismo está em declínio. Esses não são dados marginais, mas indicadores de risco que levamos muito a sério. Problemas de longo prazo Será que as consequências a longo prazo do genocídio transformarão os “indicadores de risco” em “indicadores de colapso”? Ainda não. As raízes das atuais tensões na economia política de Israel são muito anteriores ao genocídio em Gaza. Israel estava em grave recessão em 2003, quando Benjamin Netanyahu se tornou ministro das Finanças no governo do Likud de Ariel Sharon. Sua solução foi fortalecer o poder do capital sobre o trabalho, reduzindo a alíquota máxima do imposto de renda individual de 64% para 44% e a alíquota do imposto corporativo de 36% para 18%, privatizando empresas estatais, limitando os gastos do governo, aumentando a idade de aposentadoria e cortando o apoio governamental à educação, assistência social e saúde. Os governos liderados pelo Likud, sob a presidência de Netanyahu, desde seu retorno ao poder em 2009, aceleraram e ampliaram esse processo. Em Israel, a tendência estrutural do capitalismo — especialmente em sua forma neoliberal, de alta tecnologia e vigilância militar — de exacerbar a desigualdade, mesmo enquanto gera grande riqueza, assume a forma geográfica de concentrar o investimento de capital na região metropolitana de Tel Aviv, enquanto as periferias geográficas, desproporcionalmente habitadas por mizrahi, etíopes e russos, permanecem empobrecidas. Tanto as cidades de Sderot, Ofakim e Netivot, na Faixa de Gaza, que foram atacadas em 7 de outubro, quanto as cidades libanesas da região fronteiriça, como Kiryat Shmona, Metula e outras evacuadas em resposta aos disparos esporádicos de foguetes do Hezbollah, estão em zonas periféricas. “No final de 2025, dados da Autoridade Tributária de Israel revelaram que os 10% mais ricos da população israelense recebem 83% de todos os ganhos de capital e 45% de toda a renda.” Quando a transformação econômica neoliberal de Israel começou em 1985, o país era um dos mais economicamente igualitários do mundo. Nos últimos anos, tem figurado tipicamente como o quinto país mais desigual entre os países da OCDE. Os Estados Unidos são o país mais desigual da OCDE. No final de 2025, dados da Autoridade Tributária de Israel revelaram que os 10% mais ricos da população israelense recebem 83% de todos os ganhos de capital e 45% de toda a renda. Outro relatório recente do Instituto Nacional de Seguros de Israel mostrou que 27,1% das famílias israelenses tiveram dificuldades para comprar comida suficiente em 2024. Como ocorre com todos os indicadores socioeconômicos, os cidadãos palestinos de Israel foram os mais afetados, com 58% dos domicílios em situação de insegurança alimentar. Entre os Haredim (judeus ultraortodoxos), a outra grande comunidade que enfrenta altos índices de pobreza, 25% dos domicílios sofrem de insegurança alimentar. Essas são consequências da política neoliberal de Netanyahu, e não da guerra em Gaza. A disparidade entre os 10% mais ricos e o restante da população é a principal fratura interna na economia política de Israel. Em uma sociedade colonial de povoamento como Israel, a desigualdade econômica coincide, em linhas gerais, com a desigualdade entre colonizadores e colonizados. Até 7 de outubro, essa tensão era administrada por meio da apropriação de terras palestinas e da redistribuição dos benefícios da expansão colonial de povoamento pós-1967 para membros judeus da coalizão pró-Netanyahu, liderada pelo Likud, composta principalmente pelas classes trabalhadoras e médias-baixas de origem mizrahi, colonos, judeus ultraortodoxos (Haredim) e elementos dos setores de alta tecnologia e vigilância militar. “Em uma sociedade colonial de povoamento como Israel, a desigualdade econômica coincide, em linhas gerais, com a desigualdade entre colonizadores e colonizados.” O apoio dos Haredim para a coligação de Netanyahu foi assegurado pela manutenção da isenção do serviço militar obrigatório para estudantes de seminários religiosos (yeshiva) e pelo fornecimento de moradia para eles na Cisjordânia (mais de 140.000 Haredim vivem nos assentamentos de Modi’in Illit e Beitar Illit). Nos últimos anos, o governo destinou mais de US$ 1 bilhão anualmente para instituições educacionais Haredi, bolsas de estudo para homens casados que optam por estudar em vez de trabalhar e apoio a programas de assistência social e culturais/religiosos. A proposta orçamentária para 2026, de US$ 205 bilhões, inclui cerca de US$ 1,6 bilhão para instituições e projetos Haredi. A guerra exacerbou as tensões estruturais entre os Haredim e o restante da sociedade judaica, visto que a maioria dos Haredim não serve nas forças armadas, enquanto a maioria dos judeus não-Haredi serve. Em junho de 2024, a Suprema Corte de Israel decidiu por unanimidade que o governo deveria convocar os Haredim para o serviço militar obrigatório. O Banco de Israel alertou que a lei de recrutamento obrigatório, atualmente em discussão na Comissão de Relações Exteriores e Defesa do Knesset, era inadequada para reduzir de maneira significativa a sobrecarga dos soldados da reserva ou o custo de mantê-los em serviço. As recriminações sobre essa questão levaram o partido Judaísmo Unido da Torá Haredi Ashkenazi a se retirar do governo, ficando com apenas 60 das 120 cadeiras do Knesset. O gabinete aprovou o orçamento para 2026, que precisa ser ratificado pelo Knesset. O debate certamente será marcado por discursos inflamados e acessos de raiva. O partido Shas, de maioria mizrahi-haredi, já ameaçou não apoiar o orçamento caso ele não inclua os 86 milhões de dólares destinados a vales-alimentação para “seus” filhos, verba que, segundo eles, estava prometida no acordo de coalizão. Se o Knesset não aprovar o orçamento até o final de março, o governo será legalmente obrigado a renunciar. Nenhum membro da coligação deseja esse desfecho. Todos preferem manter-se na coligação até às eleições para o Knesset, agendadas para outubro, que dificilmente alterarão a política israelense em relação à Palestina, independentemente do destino pessoal de Netanyahu. Perspectivas Embora judeus seculares e cosmopolitas estejam emigrando em maior número, judeus religiosos e tradicionais, especialmente os messiânicos fascistas que têm impulsionado as políticas do governo atual, vêm remodelando Israel a seu bel-prazer há décadas. Eles têm sido os beneficiários da economia política da ocupação. Juntamente com o crescimento espetacular do complexo militar-industrial de vigilância e suas exportações globais, isso permitiu que Israel evitasse as crises prolongadas vivenciadas por outros Estados que adotaram o fundamentalismo de mercado e o autoritarismo. O Chile tornou-se o laboratório para esse modelo de economia política e governança sob Augusto Pinochet, que chegou ao poder em 1973 após um golpe apoiado pelos EUA e governou até 1990. A vitória de José Antonio Kast, uma figura de extrema-direita cujo pai era membro do partido nazista, na recente eleição presidencial chilena é um sinal de alerta de que esse modelo permanece vivo como uma resposta aos efeitos persistentes da crise financeira global de 2008. Adam Fabry classificou a Hungria como o “exemplo de vanguarda da mudança mais ampla em direção ao neoliberalismo autoritário-etnicista em todo o mundo”, aperfeiçoada pelo regime de Viktor Orbán. Outros exemplos são a Itália sob os governos de Silvio Berlusconi e Giorgia Meloni, bem como a Índia sob Narendra Modi. Movimentos políticos semelhantes estão em uma posição forte para assumir o poder em países como França e Reino Unido e ganham força na Alemanha. Israel é um farol para esses regimes e movimentos. Com exceção do Chile, sob o governo do presidente de esquerda cessante Gabriel Boric, todos apoiaram o genocídio israelense. Os governos liderados por Orbán, Meloni e seus homólogos em outros países comercializam com Israel, ignoram suas violações dos direitos humanos e ecoam sua difamação dos muçulmanos. No Oriente Médio, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos toleram o etnonacionalismo, assim como os neoliberalistas autoritários que não possuem recursos significativos de combustíveis fósseis, como Turquia, Egito, Marrocos, Tunísia e Jordânia. Eles toleram as brutalidades de Israel e a negação dos direitos palestinos porque qualquer movimento popular democrático ameaçaria desestabilizar seus próprios regimes. Três forças contrárias poderiam transformar os fatores de risco na economia política israelense em uma crise grave: altas taxas contínuas de emigração de judeus instruídos; uma mudança drástica na política dos EUA em relação a Israel/Palestina, como um embargo de armas ou sanções contra criminosos de guerra; e uma ação política palestina eficaz. é professor emérito e ocupa a cadeira Donald J. McLachlan de História e História do Oriente-Médio na Universidade de Stanford. Seu livro A Critical Political Economy of the Middle East and North Africa foi publicado pela Stanford Univesity Press.