Resumo objetivo:
O assassinato do aiatolá Ali Khamenei por Estados Unidos e Israel, em vez de desestabilizar o Irã, fortaleceu a coesão nacional e a resistência, com amplas manifestações de apoio ao governo. A análise destaca que o martírio é um valor central na cultura xiita, o que explica a reação popular de união em defesa da soberania. Apesar de protestos anteriores motivados por crise econômica, o ataque externo gerou um movimento de solidariedade em torno da República Islâmica.
Principais tópicos abordados:
1. O assassinato do líder supremo iraniano como estratégia fracassada para desorganizar o Estado.
2. A importância cultural do martírio no xiismo como fator de resistência e união nacional.
3. A reação popular de massas em apoio ao governo após o ataque, superando divisões internas.
4. A eleição de um novo líder supremo e a continuidade do sistema político iraniano.
Sem qualquer acordo de cessar-fogo no horizonte, a agressão de Estados Unidos e Israel contra o Irã entrou na segunda semana, e alguns movimentos indicam possível escalada do conflito. Ao assassinar o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, Washington e Tel Aviv buscavam provocar um quadro de desorganização no governo iraniano que pudesse, eventualmente, levar à queda da república islâmica. Até o momento, porém, não há sinais de enfraquecimento das estruturas de poder do Estado iraniano.
Esse ato criminoso revela uma total falta de conhecimento da cultura xiita e do papel do sacrifício, pois como afirma a professora Dra. Setareh Sadeqi, da Universidade de Teerã, entrevistada pelo Brasil de Fato, “para os muçulmanos xiitas, o martírio é considerado a maior honra que uma pessoa pode alcançar (…) Esse espírito de resistência e sacrifício está profundamente enraizado no pensamento xiita e continua a moldar a retórica e a visão de mundo do Irã moderno”.
Basta caminhar algumas horas pelas ruas de Teerã para constatar a afirmação da Prof. Sadeqi: há incontáveis imagens de mártires de guerras passadas – de generais a crianças -, em grafites pintados sobre edifícios de dez (ou mais) andares, ou em muros; em “altares” nas calçadas; em banners dentro de instituições, como a Universidade de Teerã, que perdeu muitos professores e estudantes.
Apesar da imagem de pequenos grupos anti-governo comemorando o assassinato de Khamenei, multidões tomaram as ruas em todo o país para celebrar o martírio do líder supremo e demonstrar o apoio à resistência iraniana contra os invasores sionistas e imperialistas.
Autoridades iranianas contaram que, ao receber orientações para se proteger em um bunker, o aiatolá teria perguntado: “há espaço para os 92 milhões de iranianos nesse bunker? Se não há, não irei para lá. Quero permanecer nas mesmas condições da maioria do nosso povo”. Khamenei morreu em seu escritório, junto com sua filha, genro e neta, de apenas 14 meses. Dias depois, em 8 de março, a Assembléia de Sábios elegeu o novo e terceiro líder supremo da república islâmica, Aiatolá Seyyed Mojtaba Hosseini Khamenei, filho do ex-líder supremo.
Confira a entrevista completa
Brasil de Fato – Após a Guerra dos Doze Dias (junho de 2005), muitos iranianos/as que criticavam o governo e a república islâmica passaram a apoiar o governo. Qual foi o impacto desses ataques na opinião pública desta vez? Algo semelhante a junho de 2025, mesmo após os protestos no início do ano?
Setareh Sadeqi – Os protestos de janeiro, provocados pela situação econômica desastrosa — uma condição moldada pelas sanções unilaterais ilegais impostas ao Irã pelo regime dos EUA —, transcorreram pacificamente por 10 a 11 dias antes de serem sequestrados por uma multidão de bandidos furiosos e agentes do Mossad, pagos e treinados, que tentaram tomar bases de segurança e delegacias de polícia. Em seguida, um número ridiculamente grande de vítimas foi fabricado e divulgado para criar consenso para uma invasão do Irã. Há 47 anos, eles também promovem uma campanha de propaganda massiva contra os iranianos e a República Islâmica para demonizar nosso sistema político. Infelizmente, há pessoas no mundo, e até mesmo entre os iranianos, que caem nessa. Trump mais uma vez calculou mal: ele pensou que, se assassinasse o imã Khamenei, o sistema entraria em colapso em poucas horas e o Irã se renderia. Na verdade, o que aconteceu foi que as pessoas saíram às ruas em apoio ao seu país e exigindo vingança pelo seu líder mártir, o imã Khamenei. De repente, mais uma vez, a maioria decidiu deixar de lado as diferenças e queixas e proteger a soberania do seu país. Milhões de pessoas têm saído às ruas todas as noites, às vezes sob bombardeios, chuva e neve, para mostrar apoio ao seu país.
O Ocidente afirma estar preocupado com os direitos das mulheres iranianas, que supostamente são oprimidas pelo “regime do aiatolá”. No entanto, o primeiro grande ato de guerra dos EUA e Israel foi o bombardeio de uma escola para meninas no sul do Irã, matando quase 200 delas. Como você interpreta essa ação?
O Ocidente está agindo com base no mesmo manual — um manual desgastado, projetado para fabricar consentimento para uma invasão do Irã. O feminismo imperialista nunca teve como objetivo libertar as mulheres ou proteger seus direitos, mas sempre teve como objetivo promover agendas imperialistas de exploração e roubar a independência das nações. Eles mataram cerca de 200 meninas enquanto estudavam na escola e destruíram mais algumas escolas, mataram 20 jogadoras de vôlei enquanto treinavam, destruíram infraestruturas e edifícios residenciais, e impuseram sanções cruéis que matam mulheres e lhes tiram oportunidades.
As mulheres iranianas representam mais de 60% dos estudantes universitários, são ministras, deputadas, médicas, pilotos etc. Ninguém acredita na narrativa imperialista que busca justificar o bombardeio em massa de uma nação, especialmente vinda do regime de Epstein, que mata meninas o dia todo no Irã, na Palestina, no Líbano etc., e as estupra durante seus intervalos. É absolutamente ridícula a alegação de que as bombas do regime de Epstein teriam alguma chance de libertar as mulheres iranianas, que já são livres e poderosas.
Autoridades iranianas afirmaram que Khamenei se recusou a se esconder em um bunker antes de morrer, pois insistia em viver nas mesmas condições que o resto do povo. O que explica essa atitude do líder de uma nação em guerra? Quais são as consequências dessa perda para a revolução islâmica?
Ele era a figura política e espiritual mais popular do Irã exatamente pela mesma razão: permanecer forte diante das agressões dos inimigos e manter um estilo de vida muito modesto e simples, próximo ao das pessoas mais pobres do país. Ele não considerava sua vida mais valiosa do que a de seu povo. Ele não queria ter nenhuma forma de proteção exclusiva. Esse era o nível de fé e dedicação que ele tinha. Ele rezava publicamente e em privado pelo seu martírio no caminho de Deus e alcançou o martírio lutando contra a classe mais satânica dos regimes de Rothschild e Epstein, sem nunca se render.
Ele inspirou muitos políticos e pessoas comuns no país. Ele estabeleceu uma estrutura muito forte que manteria o seu caminho vivo sem vacilar. Portanto, embora essa tenha sido a maior perda que sofremos no país, seu legado, sua escola de pensamento e a estrutura muito bem estabelecida que ele nos deixou ainda estão funcionando com força total.
Como entender essa decisão do líder supremo Khamenei, que o levou a se tornar um mártir do povo iraniano? Quais as origens históricas e o significado do martírio na cultura xiita?
Para compreender verdadeiramente o Irã e sua visão de mundo, é preciso primeiro compreender o imã Hussein [neto do profeta Maomé e filho do imã Ali, fundador do xiismo] e a Batalha de Karbala [no atual Iraque, na qual Hussein e um pequeno grupo de cerca de 70 seguidores foram mortos ao enfrentar milhares de soldados do califa, em uma luta pela sucessão do profeta Maomé] . Para os muçulmanos xiitas, o martírio é considerado a maior honra que uma pessoa pode alcançar. A história de Karbala ensina que nunca se deve se submeter à opressão ou à injustiça. Em vez disso, acreditamos que devemos permanecer firmes e resistir aos nossos inimigos, mesmo que isso signifique lutar até a última gota de sangue em nossas veias.
Nessa crença, há apenas dois resultados, e ambos são vitórias: ou prevalecemos sobre a injustiça ou alcançamos o martírio no caminho da verdade. Esse espírito de resistência e sacrifício está profundamente enraizado no pensamento xiita e continua a moldar a retórica e a visão de mundo do Irã moderno. É um tema que aparece com frequência nos discursos do imã Khamenei e é capturado com força nas palavras do nosso general mártir Soleimani, que uma vez disse que somos a nação do imã Hussein.
O Brics, que tenta se construir como instrumento da multipolaridade e de alternativas à hegemonia ocidental, parece muito tímido até agora, não tendo emitido nenhuma declaração. Por outro lado, as contradições nos interesses dos países da Ásia Ocidental se manifestaram internamente dentro do grupo: para se defender dos ataques, o Irã atacou bases estadunidenses e outros locais nos Emirados Árabes Unidos, bem como na Arábia Saudita. Ao mesmo tempo, o primeiro ministro indiano Narendra Modi fez uma visita de estado a Israel dias antes do início da guerra, em uma demonstração pública de apoio a Benjamin Netanyahu. Você acha que o grupo corre o risco de se fragmentar diante dessas contradições?
É uma grande decepção, mas não é surpreendente. Alguns membros do BRICS, incluindo a Índia e os Emirados Árabes Unidos, têm sido aliados ferrenhos do regime sionista, enquanto nações em todo o mundo rejeitavam a entidade genocida pelos crimes de guerra e genocídio que cometeu em Gaza. Eles preferiram os interesses do regime sionista aos de suas próprias nações. Eles bloquearam a formação de qualquer aliança real e pragmática contra o sistema financeiro capitalista que vem estrangulando nações inteiras. Se outros membros não impedirem isso e não tomarem medidas diferentes, então podemos concluir que ela já está fragmentada, pois há membros que estão servindo ao poder imperialista.
Vimos imagens de manifestações massivas nas ruas de Teerã, demonstrando a resistência do povo iraniano aos ataques sionistas-imperialistas contra seu país. Qual é a dimensão dessas manifestações? Elas também ocorreram em outras cidades do interior do país? Onde foram mais significativas?
Todas as noites, há mais de uma semana, milhões e milhões de pessoas têm saído às ruas para rejeitar a invasão e mostrar apoio à resistência do seu país contra os Estados Unidos e o regime sionista. São manifestações massivas que ocorrem na grande maioria das cidades grandes e pequenas do Irã. As pessoas saem à rua sob chuva e neve, depois de jejuarem o dia inteiro [estamos no período do Ramadã, no qual muçulmanos tem de manter certas regras relativas ao jejum diariamente], e mesmo sob o rugido dos caças, mísseis e bombas, sem recuar. Isso faz-me sentir muito orgulhoso do meu país e do meu povo. Nós, iranianos, estamos mostrando ao mundo que o tigre é feito de papel e não tem dentes; que as nações podem derrotar as potências imperialistas.
O Irã anunciou neste domingo a eleição do novo líder supremo do Irã, filho do Aiatolá Ali Khamenei. Qual o critério para a eleição do novo líder, o aiatolá Mujtaba Khamenei? Que características pessoais e políticas se destacam no novo líder? E quem escolhe a Assembleia de Peritos?
Mujtaba Khamenei foi nomeado terceiro líder da Revolução Islâmica pela Assembleia de Especialistas, uma assembleia com 88 membros eleitos diretamente pelo povo. Por carregar o legado e o nome de seu pai, ele já é muito popular, mas também é considerado um estudioso proeminente e muito humilde. Algo que muitas pessoas talvez não saibam sobre ele é que, quando tinha 17 anos, ele se voluntariou na linha de frente da defesa sagrada, quando o Irã defendia sua soberania contra a invasão do país por Saddam, apoiado pelos Estados Unidos. Portanto, seu pai, seu pai mártir, nunca achou que o sangue de seus filhos fosse mais valioso do que o de outras pessoas. Isso é considerado muito valioso e respeitoso entre os iranianos.
Além disso, ele perdeu sua esposa, sua irmã, seu pai, sua mãe e pelo menos uma sobrinha no ataque que tirou a vida de seu pai, o ataque do regime sionista nos EUA. Bem, ele aceitou assumir essa responsabilidade de liderar o país porque era muito necessário como novo líder e a assembleia de especialistas chegou à conclusão de que ele era o mais qualificado entre todos os candidatos para fazê-lo. E as pessoas estão dizendo que parece que o aiatolá Sayyidat Ali Khamenei rejuvenesceu e voltou à vida. E é isso que dá às pessoas muita esperança e motivação para continuar resistindo ao poder imperialista. Ainda precisamos esperar para saber mais sobre suas características pessoais e políticas. Mas o que a Assembleia de Peritos explicou é que ele era o mais forte e o mais elevado em questões acadêmicas, de acordo com eles, e o candidato mais adequado para assumir o cargo. A mídia ocidental sempre tem suas especulações acompanhando os desenvolvimentos no Irã por meio de suas narrativas imperialistas e orientalistas, mas o que eles não entendem é que qualquer líder ou qualquer um dos candidatos teria relações fortes com a Guarda Revolucionária, porque o líder também é o comandante-chefe. E Ayyub Abdullah Khamenei era conhecido por ser um estudioso religioso muito moderado, de mente aberta e muito culto. E acho que muitas pessoas esperam que seu filho seja igualmente erudito e forte para derrotar o poder imperialista e continuar o movimento de resistência que seu pai e o imã Khomeini haviam estabelecido.