Resumo objetivo:
Marcílio Alcântara, fundador do Maracatu Quilombo Nagô na Paraíba, foi consagrado como mestre de maracatu durante o Carnaval de 2026. A consagração ocorreu em dois momentos: primeiro em Recife, na Noite dos Tambores Silenciosos, pelo Mestre Chacon Viana (Maracatu Nação Porto Rico), e depois em João Pessoa, pelo Mestre Walter França (Maracatu Raízes de África). O título reconhece seu compromisso integral com a cultura do maracatu, incluindo aspectos artísticos, sagrados e comunitários.
Principais tópicos abordados:
1. A consagração de Marcílio Alcântara como mestre de maracatu.
2. Os rituais de consagração realizados por mestres reconhecidos em Recife e João Pessoa.
3. A importância da legitimidade e do respeito às tradições no processo (evitando conflitos de interesse).
4. As responsabilidades de um mestre, que abrangem liderança artística, fabricação de instrumentos, aspectos sagrados e vínculo com a ancestralidade.
A Paraíba agora tem um mestre de maracatu: Marcílio Alcântara, do Maracatu Quilombo Nagô, criado em 2023, no bairro de Mangabeira, em João Pessoa. Marcílio foi consagrado durante o Carnaval de 2026, no dia 16 de fevereiro, na noite dos Tambores Silenciosos, em Recife (PE), pelo Mestre Chacon Viana, do Maracatu Nação Porto Rico. E também no dia 23 de fevereiro, no Carnaval Tradição de João Pessoa, pelo Mestre Walter França, do Maracatu Raízes de África. A consagração como mestre marca seu compromisso com a integralidade dessa manifestação cultural, habilitando-o não só como apito do maracatu, mas para a feitura dos tambores, a condução do ateliê, a parte sagrada da manifestação e o respeito à ancestralidade. Nas palavras de Mestre Walter, agora Marcílio leva o nome de uma entidade: Mestre. “Ele não está só agora. Ele não está só. Ele está com as pessoas invisíveis ao lado dele. Então, cabe a ele preservar”, comenta. Confira a seguir a entrevista que o Brasil de Fato PB realizou com o Mestre Walter, na presença de Marcílio, que também falou sobre como conheceu o maracatu. Brasil de Fato PB: Estamos aqui com o Mestre Walter e o Mestre Marcílio. Vamos conversar aqui sobre a consagração de Marcílio como mestre do Maracatu. Mestre Walter, quer dizer que teve também uma homenagem em Recife, né? Quem fez a homenagem em Recife? Mestre Walter: A consagração dele lá como mestre foi feita pelo mestre Chacon, do Maracatu de Baque Virado, nação Porto Rico. Uma das nações fortes lá do nosso Carnaval e do convívio cultural. Ele foi consagrado pelo mestre Chacon um grande mestre também sábio, conhecedor das coisas, e foi feita numa hora em que todo mundo estava presente para ver, não foi um negócio feito encapado, foi feito na noite dos tambores silenciosos, uma grande homenagem que se faz aos que se foram, aos eguns. É uma noite muito forte, no convívio do Maracatu e de candomblé também e o mestre Marcílio há muito tempo que a gente estava esperando essa oportunidade de fazer isso, pelo trabalho que ele faz, aqui na Paraíba, pelo trabalho que ele faz junto com a periferia. E a pessoa para ser mestre tem que ter esse convívio, saber trabalhar, ser humilde, que é compatível e abraçar a comunidade. Há muito tempo que eu vinha observando ele, pelo menos, disse para ele que tinha essa vontade de fazer isso por ele. Mas o problema é que eu não poderia fazer. Porque eu não poderia fazer. Porque ele era batuqueiro do meu maracatu. Então, se eu fizesse isso, os caras iam dizer: “Só consagrou ele porque é do Maracatu dele, ele saiu de lá, está entendendo como é?”. Então, nada mais justo do que procurar uma pessoa capacitada, como o mestre Chacon. Eu fiquei muito feliz em ele aceitar esse convite de fazer a consagração dele como o mestre de Maracatu. Então foi o Mestre Chacon que analisou, viu a trajetória dele… Não. Ele [Marcílio] é batuqueiro da minha nação. Ele é batuqueiro. Então, o que era que o povo ia dizer? O que era que o povo ia falar? Só consagrou ele como mestre porque saiu do maracatu dele.Está me entendendo? Era o que iam dizer. O comentário ia ser esse. Então o que fiz? Eu procurei uma pessoa de capacidade, capacitado para isso, como é o mestre Chacon. E eu convidei o mestre Chacon e ele não se negou. Fez um ritual muito bonito. Quem estava lá sentiu na pele como é que se faz uma boa coroação, né? Porque as rainhas também são coroadas. Fazer essa consagração do cara ser um mestre do batuque, feito por outro mestre capacitado, no caso, o mestre Chacon Viana. E eu fiquei muito feliz e fiquei muito grato em ele aceitar em fazer uma homenagem também para a nossa nação. Porque é filho do Raiz de África e criou o maracatu de Baque Virado daqui na Paraíba, que é o quilombo, né? O primeiro cara a fazer o maracatu aqui, que eu conheço, foi Marcílio, não conheço outro, entendeu? Então, é o primeiro mestre conhecido. Porque foi feito na noite dos tambores silenciosos. Existe alguma diferença entre consagração como mestre Batuque e a consagração do apito ou é só uma questão de nomenclatura? Não, porque o mestre trabalha como apito, então o apito já vem com ele agora, só que ele tem mais força agora, ele agora tem força que o mestre respeita, porque é um mestre e como um mestre que confeccionou os instrumentos dele, sabe fazer… tem o ateliê dele, constrói, sabe fazer os tambores, sabe as medidas, sabe o baque, conhece de tudo, então é um cara completo. Então, teria que ser um mestre. Então, na Paraíba, o primeiro mestre de Maracatu é Marcílio. Primeiro mestre. Tem muitos por aí que botam o apito e vão dirigir um baque. Mas maestria, a partir daquela noite dos Tambores Silenciosos, tem que reconhecer Marcílio. Um mestre. E você, Mestre Walter, a partir de que idade o senhor se envolveu com maracatu lá em Recife? Olha, eu costumo dizer que antes de ser eu já era. Porque eu nasci lá no Córrego do Cotó, hoje conhecido como rua Pastor Evangélico Benoby Carvalho de Souza, lá em Recife. E em frente à minha residência existia o maracatu, o Leão Coroado. Eu costumo dizer, eu não vim do maracatu, eu vim do mundo do samba. Eu fazia samba, eu era de escola de samba, mas conhecia de maracatu, vivia lá dentro, tocava samba e tocava maracatu e eu costumo dizer a você o seguinte: eu acho que eu estava no lugar errado. Eu sou filho de fundador de escola de samba, meu pai foi fundador de uma grande escola, em Recife, A Gigante do Samba, foi fundador. E eu passei muitos anos dentro daquela escola cheguei ao ponto de ser até mestre de bateria lá. Mas o que me consagrou melhor mesmo no mundo artístico e cultural foi o maracatu. O maracatu me fez conhecer vários países, entendeu? Quando eu viajei os quatro polos do Brasil, norte, sul, leste e oeste, entendeu? Realizei esse trabalho cultural com o maracatu. E dizer que o maracatu foi que abriu os planetários para mim e para todos. Não foi só para mim, para mim e para todos. Porque quando eu fazia meu trabalho lá fora, eu dizia, gente, quando for a Recife, visita a nação tal, visita a nação tal, tal, tal. Então, eu tive esse privilégio. Eu saí publicando tudo o que tinha dentro de Recife. Então, eu comecei pequeno, comecei com quatro anos, na frente de uma bateria de escola de samba, mas dentro de percussão. Sempre com percussão. Eu mexi muito com percussão. E daí veio a Ori, deu para o lado do samba para ir para o maracatu, que já estava na veia. Vou repetir mais uma vez o que disse: antes de eu ser, eu já era. Eu já era do maracatu sem saber. Entendeu? Agora, onde eu me firmei mesmo como maracatuzeiro, foi dentro do Estádio Rei Pelé, de Maceió. A Secretaria de Cultura de lá juntou todas as culturas do Brasil e o maracatu teve o privilégio de ir. Então, nessa época, eu fui com o Maracatu Leão Coroado. Eu era do samba. Eu mostrava uma bateria de escravo de samba. E eu fui com o maracatu e também foi a tribo indígena Câmara e a Orquestra da Bomba do Hemetério. Hoje centenária. Essas duas entidades foram representar Recife. Foi muita cultura. Todos os estados do Brasil trabalhando com sua cultura. Naquele momento, eu senti isso. Senti o chamado. Senti a convocação. A convocação eterna. E naquele momento eu disse: poxa, estou no lugar errado! Não no maracatu, mas sim o que eu frequentava, que era o samba. E prometi a mim mesmo que ia vestir a camisa e não mais tirar. E até hoje eu estou cumprindo. Botei a camisa e não teve quem tirasse. E eu acho que eu vou morrer com ela e não vou tirar. O maracatu era discriminado. Ninguém dava valor, ninguém acreditava no maracatu. Na época o maracatu era visto como brincadeira de arruaceiro, de calunga, de caminhão, de prostituta, de pederasta. Ninguém respeitava. maracatu quando vinha, o cara fazia: lá vem aquela porcaria. E muitos até saiam do lugar, para não ver. Hoje, você vê aí esse mundão de gente dentro do maracatu. Em todo o canto tem maracatu. Todo canto do país tem maracatu, todo canto do mundo tem maracatu. Tem um grupo que canta e trabalha com música de maracatu, então isso para a gente que faz maracatu é muito gratificante, mas no passado foi muito sofrimento para chegar e sair, sofremos muito pra chegar até o que nós chegamos. Qual é a diferença, mestre, quando coloca nação? Significa o quê? A diferença de um grupo normal para uma nação do maracatu? Porque é o seguinte, a nação tem uma responsabilidade, como eu falei, né? Alguns que querem ser, mas muitos não acompanham. A religiosidade… A religiosidade, né? É, nação. Quem não quer, bota nação, mas não acompanha, que nem nação Pernambuco. Nação Pernambuco, ele não acompanha. Isso é um grupo. Entendeu? Bota lá. Maracatu, nação Pernambuco. Então, o que acontece? A nação, ela vem com responsabilidade. Quando você fala nação, aí você já vai interar ao público, ao mundo, a quem está lá, o nome. Nação, um copo. Nação, um celular. É ela que discrimina. Como aquela frase diria Xande de Pilares: Deus é que aponta a estrela que vai brilhar. Então, o seguinte, a nação diz quem é a sua nação. Diz quem é? Maracatu? Somos todos nós. É o grupo de Marcílio, é o grupo de fulano, é o grupo de ciclano que toca e faz a dança do maracatu. Mas o maracatu nação tem a responsabilidade disso, da religiosidade e do lado religioso, entendeu? O profanismo é a festa, a dança. Aí entrou a outra cor, que foi o verde. Aí ficou verde, amarelo e vermelho. E como foi que Marcílio chegou no grupo? Ele entrou já na escola? Ou ele entrou depois nessa nova fundação aí? Mestre Walter: Marcílio já era. Não, ele sempre visitava a gente lá. Ele sempre ia lá olhar. Sempre ia lá. Foi criado com a gente lá. Sim. E praticamente, ele viu a fundação do Raízes. Porque era de lá, tá entendendo? Agora ele não era um inteirinho dentro da coisa, tá entendendo? Mas ele participava, porque tem os irmãos de folclore também, entendeu? Tudo misturado e colorido, podemos dizer isso. E ele sempre ia lá, ele via o trabalho, entendeu como é que é? Aí despertou também nele de querer fundar um maracatu aqui. E graças a Deus, deu certo, né? Marcílio: Eu vinha com ele também de Gigante do Samba. E eu era proibido de sair, ele sabe que lá tem esse negócio de ser proibido criança estar no meio da bebedeira, depois de bêbado aí tinha confusão. Depois do sambão. A gente chamava o sambão, que é o samba. Aí que o gigante do samba era lá em cima, de frente à minha casa. E o pai de Mestre Walter, o fundador, mas eu não sabia que era o pai de Mestre Walter, e eu sabia quem era Mestre Walter porque Pampudo, que era o surdo, lá era o meu vizinho, meu pai tinha ele como fosse da família, né? Então, o Pampudo falava, galego, deixa eu levar o menino, não vai acontecer nada, não. Aí, levava, mas só ele não vai sair no Carnaval. No Carnaval não deixava. Aí Mestre Walter estava ali na bateria. Aí, depois, gigante do samba desce para o lago mesmo de água fria, que a gente chama, né? Aí vai pra lá, aí ficou difícil pra mim, eu ia, mas nem tanto. Aí um bom tempo aparece uma escola de samba também lá no alto, que eu nem sabia de quem era, do pai do Mestre Walter. Aí eu podia ver o instrumento que eu tava agoniado por isso eu tenho essas coisas com menino. Eu sei que ele teve um rebolado, né? A música de primeira, né? Eu querendo tocar, comecei a tocar aí ele viu e disse: ‘Fica aí”, porque a gente tinha medo dos adultos, aí começou o sambão rolar, menina, a hora passando. Não, não, fica aí, fica aí. Eu digo, meu pai vai me matar. Tá dizendo? Aí ele, não, fica aí um pouquinho. Eu digo, não, soltei o… Pum, fui embora. Corri. Aí ele disse, não, mas faz o seguinte. Toda noite tu vem logo cedo e fica tocando. Eu aceito, eu toco. Aí ele disse, vamos experimentar aqui. Aí eu imitava. Aí meus amigos diziam: Eu só quero jogar bola. Não, então vai jogar bola. Eu vou ficar aqui. Ele fazia uma coisa, eu fazia, daqui a pouco eu não tava tocando, arrependi. Não sei que esse negócio tava indo, indo, mas toda vez no Carnaval eu não ia desfilar. Aí eu chorava. Chorava, era uma dor muito grande. É por isso que eu tenho esse negócio com criança. Eu não tenho esse negócio de criança pra tocar no tambor ou não, só assim. O bagunço que eu digo, peraí. Mas você já viu que a gente agrega, pronto. Ele sabe disso aqui, Mestre Walter porque aqui também tem um Doido é Doido, que é nós, os adultos e tem os Doidinhos, que é os filhos do Doido, e os Doidinhos aqui, eles pegaram eu conheci Cynthia, conheci Marquinhos e a galera toda, aí eu dei uma ideia de fazer aqueles bombos de Ala Ursa, que a gente fazia lá com cama de ar, com plástico, aí a turma não tinha visto isso aqui, a gente colocou o bloco das crianças na rua, com aquele bombinho ali e os meninos pedindo dinheiro numa praça, aquela praça que eu disse os meninos Jun e os amigos dele, colocou o bloco na rua então isso é por que? Eu já vinha de lá com isso, desde pequeno, eu sonhava tocar maracatu e o que é que tinha no maracatu de primeira? Mestre Walter que ele sabe disso, não era estandarte, era o palho que vinha… Eu nunca vi estandarte. Estandarte veio depois. O palho que era um negócio que com maracatu vinha, que eu lembro que Leão Coroado subia, Elefante, um indiano que meus primos tocavam e Estrela Brilhante também. E outra coisa engraçada que não sai da minha cabeça, que quando o maracatu vinha parece que era para cobrir, a turma amarrando, através da sombrinha que com certeza tinha gente que não sabia nem o quem era a dança do maracatu, mas através da sombra que a sombra faz aqui ó, e os batuqueiros em balanço. A turma vinha se balançando e isso não tirei da minha cabeça, depois que meu irmão levou lá na casa de Mestre Walter. Meu irmão levou depois que eu não sabia onde era mais a casa de Mestre Walter, eu não sabia onde era a casa de Mestre Walter, eu tocava no samba com ele, no gigante do samba, mas não sabia, só fazia ensaiar. Aí quando ele me levou lá, a partir de um bandolim, lembra? Dali… Nunca mais eu deixei de ir lá. Agora também tem uma coisa, o cara vai lá, para sair também ele não deixa não. Porque ele quer ensinar tudo. Tudo, tudo. Não, não vai sair não. Chegou na casa dele, não está nem lá não. Meu amigo, para o cara sair de lá, é sério… Teve a consagração de Marcílio lá como Mestre e teve também uma cerimônia aqui? O mesmo ritual, o mesmo ritual e foi no desfile Carnaval Tradição daqui. Tem que acontecer num evento oficial, entendeu? Onde você presencia, onde você sabe, onde a mídia está lá para dizer se foi ou não, tá entendendo? Porque a imprensa estava lá, mas o boca a boca chegou primeiro que a imprensa. O boca a boca chega primeiro que a imprensa. O mestre Ivaldo estava e consagrou Marcílio como um mestre. Como é isso? Aí alguém vai dizer como é que é, aí alguém vai explicar como é que foi. Porque existe o maracatu existe o grupo de maracatu. Por que essa diferença? Porque um que tem um tambor do maracatu. Veja bem, você vai entender agora. E o outro tem um tambor de maracatu que trabalha com dança e música de maracatu. Mas os tambores do quilombo são tambores do maracatu. Porque esse tambor de Marcílio, todo ano vai pra lá. Os outros tambores que tem por aqui, na Paraíba, não é. É tambor para maracatu. Não é tambor de maracatu. Porque é para… Porque trabalha com a dança e a música. Não tem um ritual que os Tambores do Quilombo têm e que teve, mesmo que o tambor dele esteja aqui, lá no trabalho, ele usa, passa pelo processo. Então, ninguém aqui pode dizer que tem tambor do Maracatu, não. Ah, eu tenho tambor para Maracatu. Por quê? É que trabalha com a dança, é a música do Maracatu, mas não tem o ritual. O de Marcílio é, tem, por causa disso. Entendeu? E como é esse ritual, mestre? É o desfile? É o desfile, o desfile oficial onde a gente antes, tem uma semana antes da preparação para os instrumentos, todos os instrumentos antes da gente sair, o presidente pergunta a Marcílio quantos vão para lá, quantas roupas, são então através do pensamento dessas 40 roupas são escolhas de instrumentos que lá é desenvolvido o trabalho espiritual mesmo que esteja aqui. Mesmo que esteja aqui, entendeu? Quem não pode estar aqui direto sou eu, mas o Espírito pode, vem e volta, vem e volta, quantas vezes quiser. Eu viajo para todo canto do mundo, todos lados eu sentado, mas o Espírito está sentado na sala do avião e vai para todo canto que quiser. Então, é, passa por esse processo. Ele pode não dizer, porque eu aconselhei ele a não, mas ele pode bater no pé e dizer, eu sou o mestre. Cadê o teu é? Passou por esse processo? Ninguém aqui passou e vai ser difícil passar, e se passar não vai ser com essa força que ele teve, de dois mestres consagrados dentro da cultura, da religiosidade, fazer o trabalho que foi feito para ele. E qual a importância, na sua avaliação, dos mestres de Maracatu, dos mestres de da cultura popular? Olha, veja bem. Cada um tem uma maneira de trabalhar. Tem mestre, vamos falar assim, tem mestre que trabalha para a cultura. Mas tem outros mestres que trabalham para ele. Tem mestre que trabalha para a fama dele, para o sucesso dele. Então, existem quatro qualidades de mestre, entendeu? O cara que trabalha para a cultura, ele quer ver a cultura crescer. O que trabalha para ele, eu quero crescer o nome. Aí tem um cara que trabalha para visitar, para ir várias vezes nos cantos e o outro para ser um viajante, esses aí é que está difícil chegar ao mestre, certo? Porque eu, graças a Deus, eu tenho essa sorte de ser convidado para os cantos porque eu não sou egoísta, eu não trabalho para mim, eu trabalho para a cultura, eu quero ver a cultura crescer e sempre disse e digo nas minhas andanças e vou dizer para você queria eu que em cada esquina do Brasil, da rua, dos estados, tivesse um grupo de maracatu, aí você ia ver que cultura rica seria né? E ver que o maracatu está crescendo muito, o maracatu ultimamente é a cultura que mais cresce, quando você chega tem maracatu, chega no Japão, tu vê os gringos tocando maracatu, vai ter um grupo de maracatu. Mestre Walter, e o que é que muda para o grupo Quilombo Nagô com a consagração de Marcílio mestre? Algo que o grupo não podia fazer antes, que agora pode fazer? Responsabilidade mútua porque ele agora representa uma coisa que é grande, é gigantesca. Certo? Ele leva o nome de uma entidade: Mestre. Ele não está só agora. Ele não está só. Ele está com as pessoas invisíveis ao lado dele. Então, cabe a ele preservar. Foi dito ontem, viva a voz. Respeite. Como você sabe respeitar. Seja humilde, que eu sei que você é humilde, todo mundo sabe que ele é humilde. Agora, espera as porradas porque ninguém quer aceitar. Porque só ele. Porque é ele. Vai chegar alguém aqui, tão bonitinho, e vai pôr debaixo do pano, olhe, porque vem pra querer destruir. Isso a gente já viu, isso a gente já sabe. E o rapaz lá falou isso a ele. E ele não entendeu, não compreendeu, mas agora vai ter problema, o mestre vai ter problema. Justamente, porque ele tem dois rivais daqui, isso a gente não vai negar, tem dois rivais, ele tem que abrir, ou ir, e ficar atento, é como eu falei, vai vir. E agora é que o espaço vai abrir, sabe? Agora é que a porta… Agora é um salão. Não tem mais porta. Aí vem assim, ó, de cacho. Pode receber. Tem a obrigação de receber. E como tem? Mas vamos saber como é que expulsa, como é que bota pra fora, não tem entendendo como é que é. Eu mesmo não boto ninguém pra fora. As pessoas é que saem. Trabalhou mal comigo, eu só faço olhar e com a cara feia, pronto, esse não vem mais. Porque você, quando botar um para fora, você bota três. Entendeu? E para um voltar, é difícil isso. Agora, quando eu chamo um, vem cinco. Então, o maracatu deve essa força. E outra coisa, uma coisa é dizer a você, o quilombo não vai ficar só nisso, não. Não, vai nada. Daqui a um ano ou dois me cobre isso. Cobre. Pode cobrar. Mestre, e qual é a toada que o senhor acha mais bonita no maracatu? Olha, não existe toada bonita no maracatu. O Maracatu não tem toada bonita. No Maracatu tem lamento, sofrimento. Rapaz sei não, se eu disser que é essa, essa daqui vai ficar com raiva, se eu falar que é essa, essa daqui vai ficar triste, porque é sofrimento toda toada vem de sofrimento, aí nenhum sofreu mais do que o outro, se você passou o dia todinho no sol quente, levando chibatada, levando chicotada, trabalhando, aquele momento que você tem, você para para descansar, ninguém sofreu mais do que o outro não sofreu tudo igual, aí ele vai cantar, pedir a Deus força, proteção, para que no outro dia tenha força para aguentar mais um diálogo de trabalho. Aí é quando ele lamento das lágrimas. Eu disse para ele, o mestre é aquele que chora na frente do seu baque e do seu batuqueiro. Porque eu me transporto sem ela. Muitas vezes minhas lágrimas caem, mas ninguém sabe por que, por isso, porque eu antes de ser, já era, e por ser fiel a isso, eu sinto na pele sofrimento do escravo, sabe? Por isso que eu digo pra você que não é bonita, é lamento, sofrimento e maracatu é tudo isso, eu queria tanto que o governante entendesse isso, mas é muito difícil sabe? E se avisa isso, mas não tem, guarda muito sofrimento e quando a gente canta aquilo ali, a gente sente sabe, que alguém do antepassado está ali ao seu lado, a única coisa que a gente pode fazer por eles é esse momento, porque o que ele passou ali, na noite dos tambores, entendeu? Não sei quem estava lá para tomar conta dele, nem o Mestre Chacon sabe, mas alguém chegou lá naquele momento para tomar conta dele. Ele é o mestre para tomar conta dele, que não está só, é o que eu falei. Então é força, maracatu é magia, Maracatu é tudo isso. E muito mais.