Resumo objetivo:
O artigo aborda o recorde de feminicídios no Brasil em 2025, relacionando a violência contra a mulher ao machismo estrutural. Como exemplo histórico, detalha o feminicídio da cortesã Nenê Romano em 1923, cujo assassino foi retratado como vítima pela imprensa da época, enquanto ela foi culpabilizada. A trajetória de Nenê ilustra a vulnerabilidade social das mulheres, mesmo as famosas, e a impunidade ligada ao poder patriarcal.
Principais tópicos abordados:
1. A epidemia de feminicídios no Brasil contemporâneo e suas raízes no machismo estrutural.
2. O caso emblemático de Nenê Romano (1923), com a inversão de papéis (agressor como vítima) na cobertura jornalística.
3. A biografia de Nenê, incluindo sua ascensão social, o ataque violento que sofreu por ciúmes de uma elite e sua morte trágica.
4. A crítica à naturalização da violência contra a mulher e à influência de poderes patriarcais na justiça e na mídia.
Nenê Romano: um feminicídio emblemático na São Paulo dos anos 20
Estrela do cabaré paulistano mais luxuoso, cortesã teve trajetória marcada por fama e tragédias que culminaram em um fim trágico
O Brasil celebrou ontem o Dia Internacional da Mulher em meio a um contexto dramático. Em 2025, o país registrou um número recorde de feminicídios, com mais de 1.400 ocorrências — uma mulher assassinada a cada quatro horas.
A epidemia de feminicídio no Brasil tem origem em fatores culturais fortemente enraizados, em especial o machismo estrutural e a persistência de valores patriarcais que naturalizam e estimulam a opressão contra as mulheres.
Um caso emblemático dessa dinâmica ocorreu na cidade de São Paulo em outubro de 1923. Nesse ano, o advogado Moacyr de Toledo Piza assassinou a tiros Nenê Romano, a mais famosa prostituta da cidade. Em seguida, ele se matou. Na imprensa, entretanto, Moacyr foi tratado como a vítima e Nenê foi demonizada com a vilã da história e apontada como a efetiva responsável por sua própria morte.
Quem foi Nenê Romano
Nenê Romano era o pseudônimo de Romilda Machiaverni. Nascida em 1897, ela era filha de um casal de imigrantes italianos que se mudaram para São Paulo em busca de oportunidades. A família vivia no Brás, um bairro operário que concentrava boa parte da comunidade italiana.
Romilda começou a trabalhar desde cedo para ajudar a sua família. Após atuar como costureira, ela conseguiu um emprego como camareira em um hotel no centro da cidade. Lá, Romilda teve contato com as personagens da vida noturna — incluindo as moças das “pensões alegres”, apelido dado às casas de prostituição de luxo, frequentadas por homens ricos e poderosos.
Vislumbrando nesses locais uma chance de escapar da pobreza e ascender socialmente, Romilda passou a trabalhar como prostituta. Ela adotou o nome de “Nenê Romano” e começou a frequentar os círculos da elite paulistana, sempre trajando vestidos chiques, com chapéus, luvas e meias de renda.
Dotada de grande beleza, elegância e uma personalidade cativante, Nenê se tornou uma verdadeira celebridade. Ela era a estrela principal do Tabaris Dancing, o cabaré mais luxuoso de São Paulo, e era descrita por muitos como “a mulher mais bela e desejada” da cidade.
De fato, Nenê despertou o interesse de homens poderosos — tão poderosos que ela teve até que alugar uma casa para atendê-los com discrição, longe dos olhares curiosos dos bordéis. Entre seus clientes ilustres, estavam empresários, fazendeiros, intelectuais e vários políticos proeminentes — incluindo o senador Rodrigues Alves, o deputado Rodolfo Miranda e até mesmo o governador do estado, Washington Luís, futuro presidente do Brasil.
O ataque a Nenê
A vida de cortesã de luxo permitiu que Nenê tivesse acesso a pessoas, lugares e eventos que, de outro modo, sua classe social não permitiria. Um desses eventos era o corso de carnaval da Avenida Paulista. Reservado para o usufruto das famílias mais abastadas da cidade, os corsos da Paulista eram ótimas oportunidades para as madames exibirem suas joias e adereços importados e para os ricaços ostentarem seus automóveis de luxo.
Presente em um corso no carnaval de 1918, Nenê foi cortejada por um homem. O gesto pareceu trivial para quase todos, mas gerou ódio em uma pretendente do rapaz — Maria Eugenia Junqueira, a “Sinhazinha Junqueira”. Ela era filha de Iria Alves Ferreira Junqueira, uma poderosa baronesa do café.
Enfurecida, Maria Eugenia resolveu se vingar. Alguns meses depois, Nenê foi atacada por três capangas da família Junqueira enquanto voltava para casa. Os homens retalharam seu rosto com uma navalha. Era a maneira que Maria Eugenia arrumou de tentar privá-la de sua beleza.
O ataque deixou uma grande cicatriz no rosto de Nenê. A jovem buscou indenização na justiça. Dois capangas envolvidos no ataque foram presos. Eles confessaram o crime e confirmaram que trabalhavam para Maria Eugenia. A família Junqueira, entretanto, tinha enorme poder político. Mesmo com todas as provas e confissões, o processo contra Maria Eugênia não andava.
Decidida a buscar justiça, Nenê Romano resolveu contratar Moacyr de Toledo Piza, um dos advogados mais renomados da cidade. Moacyr também era oriundo de uma família rica e influente — o que deu a Nenê a esperança de ver o processo começar a andar.
Nenê e seu advogado se tornaram muito próximos e iniciaram um relacionamento. O namoro, entretanto, logo se desgastou. Moacyr era ciumento, possessivo e controlador e seu comportamento estava cada vez mais agressivo.
Sentindo-se sufocada, Nenê decidiu terminar o namoro e retomou seu trabalho como cortesã. Moacyr não aceitou o fim do relacionamento. Obcecado, passou a assediar Nenê constantemente e a frequentar os cabarés para vigiá-la. Ele a seguia pelas ruas e a aguardava na porta de sua casa. Também tentou reconquistá-la oferecendo dinheiro e presentes caros. De nada adiantou.
Em 1923, tomado de ciúmes, Moacyr publicou o livro Roupa Suja, onde atacava agressivamente Washington Luís, principal cliente de Nenê. Na obra, Moacyr expõe as relações extraconjugais do governador, denunciando a presença de uma “dama alegre” nos eventos oficiais.
O assassinato
Em 25 de outubro de 1923, Nenê foi abordada por Moacyr enquanto tentava apanhar um táxi. O advogado insistiu para que os dois tivessem uma conversa. Nenê aceitou conversar, mas manteve-se resoluta quanto ao fim do relacionamento. Quando a conversa acabou, Moacyr sacou uma arma e atirou três vezes contra Nenê Romano, matando-a na hora. Em seguida, suicidou-se com um disparo contra o próprio peito.
O crime chocou a cidade e teve grande repercussão na imprensa. Conforme relatado por Felipe Alexandre Herculano em sua matéria para o projeto Sampa Histórica, o enquadramento escolhido pelos jornais buscou inverter as responsabilidades. Nenê Romano foi tratada como a vilã, a “mulher mundana” que conduziu Moacyr à insanidade e o levou a cometer tal crime.
Na matéria do jornal “O Combate”, Moacyr foi identificado como “o brilhante, audaz e valoroso escritor que toda São Paulo admirava”. Já Nenê foi descrita como “a mulher fatal, que tinha um rosto de anjo e uma alma perversa”. Ao descrever o que havia ocorrido, o periódico afirma que Nenê, “flôr de rua e da lama, (…) o mais completo símbolo da leviandade e da perversidade muliebre, conseguiu, com a sugestão da mulher que faz sofrer e rir, armar o braço de Moacyr Piza e desafiar a morte.”
Moacyr foi sepultado no Cemitério da Consolação. O escultor Francisco Leopoldo produziu um monumento funerário em sua homenagem — uma mulher nua, encurvada como um ponto de interrogação, evocando a dúvida dos amigos e familiares, que não entendiam o motivo do suicídio. O advogado também seria homenageado pela Câmara dos Vereadores e emprestaria seu nome a uma rua no bairro dos Jardins.
Nenê Romano não recebeu quaisquer homenagens. Como informa Felipe Herculano, ela foi enterrada no Cemitério do Araçá, mas seu túmulo não existe mais. Abandonada por muitos anos, a sepultura de Nenê foi desocupada, reformada e vendida pelo Serviço Funerário de São Paulo para outra família. Seus restos mortais foram transferidos para o ossário central, onde hoje repousam em uma caixa de concreto sem identificação.