Resumo objetivo:
O médico e pesquisador José Carlos Pinto Dias foi uma figura central no combate à doença de Chagas no Brasil e na América Latina. Suas principais contribuições foram a criação do primeiro sistema de controle da doença no mundo, com participação comunitária, e a idealização do plano de eliminação do inseto barbeiro no Cone Sul. Além de seu legado científico e de saúde pública, ele era reconhecido por sua habilidade com idiomas e por sua atuação em diversas instituições nacionais e internacionais.
Principais tópicos abordados:
1. Contribuições para a saúde pública: Luta contra a doença de Chagas, criação do sistema de controle, plano de eliminação do vetor no Cone Sul e assistência a outros países.
2. Trajetória profissional e acadêmica: Formação, carreira na Fiocruz, atuação em órgãos públicos como a Funasa e participação em comitês da OMS/Opas.
3. Perfil pessoal e familiar: Origem em família de sanitaristas, habilidades linguísticas, hobbies e informações sobre seu falecimento.
Quando a doença de Chagas foi um dos maiores problemas de saúde pública na década de 1970, um médico esteve na linha de frente. José Carlos Pinto Dias chegou a ir a escolas rurais para ensinar crianças a identificarem o barbeiro. Referência em doenças infecciosas e parasitárias no Brasil, suas pesquisas revelaram condições sociais do problema.
Foi com a participação da comunidade que criou o primeiro sistema de controle da doença no mundo.Também idealizou a proposta de eliminação do inseto dos paÃses do Cone Sul, implementada pela Organização Pan-americana de Saúde (Opas) em 1991. E ajudou paÃses latino-americanos como Argentina, Venezuela, México e Panamá.
Nascido no Rio de Janeiro, em 1938, era o terceiro de cinco meninos em uma famÃlia de grandes sanitaristas. Seu pai, Emmanuel Dias, também foi médico e pesquisador da Fiocruz. O avô, Ezequiel Dias, trabalhou diretamente com Oswaldo Cruz.
Na infância, aprontou tanto que escreveu um livreto com mais de 300 causos das broncas que recebeu. Por outro lado, sempre foi dedicado aos estudos.
Foi para Ribeirão Preto (SP) cursar medicina, onde se formou na USP em 1963. A princÃpio, pretendia estudar obstetrÃcia, tanto que fez os partos de todos os filhos e de alguns sobrinhos. Mas, em seu último ano de faculdade, perdeu o pai em um acidente de carro e, abraçado ao corpo, prometeu que daria continuidade à s suas pesquisas.
Ainda no interior paulista, participava dos movimentos católicos. Era representante da Juventude Universitária Cristã quando conheceu Rosinha, que presidia a ala estudantil. A relação virou namoro e um casamento em 1965. A união deu fruto a quatro filhos.
Moraram em Bambuà (MG) até 1969, na fazenda da famÃlia. Ele assumiu o Centro de Estudos e Profilaxia da Moléstia de Chagas, que seu pai comandava. O espaço passou para a Fiocruz Minas como Posto Avançado de Pesquisas Emmanuel Dias.
Mestre e doutor em medicina tropical pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), publicou muitos trabalhos, deu aulas e atuou na gestão pública. Foi membro do Comitê de Doenças Negligenciadas da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da Academia Mineira de Medicina, além de presidir a Fundação Nacional de Saúde entre março e novembro de 1992.
Antes do hemocentro de Minas Gerais, criou um programa de doadores de sangue no estado. Também idealizou um laboratório estadual para diagnóstico de doenças transmitidas pelo sangue.
Sua carreira rendeu muitos prêmios e tÃtulos. Do Ministério da Saúde, a Medalha da Ordem do Mérito Médico e CientÃfico Carlos Chagas. A Presidência da República concedeu a Ordem Nacional do Mérito CientÃfico.
Suas horas vagas eram dedicadas à leitura e a ouvir músicas clássicas, boleros eram preferência. Em um perÃodo em casa com a perna engessada, começou a pintar quadros.
Aprendeu latim ainda novo e várias lÃnguas de forma autodidata. Falava espanhol, italiano, inglês e francês, além de arriscar o árabe. "Se expressava muito bem não só em lÃnguas diferentes, mas com públicos diferentes. Tinha a mesma naturalidade para conversar do lixeiro ao presidente da República", afirma a filha Mariana Borges, 60.
Sua saúde estava muito debilitada. Sofreu um infarto há nove anos, tinha diabetes e hipotireoidismo, além de doença de Parkinson. Morreu no dia 31 de dezembro, aos 87 anos, vÃtima de insuficiência renal aguda com insuficiência cardÃaca e linfoma.
Deixa a mulher, Rosinha, 82, e os filhos Mariana, 60, Ruth, 58, Marcos, 56, e Lúcia, 53, além de oito netos.
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