Resumo objetivo:
O projeto Bicho de Casco, atuante desde 2010 na Amazônia, pretende soltar cerca de 8.000 filhotes de quelônios em 2025/2026, o maior número de sua história, utilizando metodologia de manejo com ninhos artificiais e pagamento a ribeirinhos para vigilância. No entanto, a iniciativa ainda enfrenta a grave ameaça do tráfico ilegal, que remove muito mais animais do que os soltos, com os responsáveis destacando a falta de fiscalização e a necessidade de alternativas de renda para as comunidades.
Principais tópicos abordados:
1. Conservação de quelônios: Soltura recorde de filhotes e métodos de manejo para aumentar a sobrevivência.
2. Ameaça do tráfico: Impacto do comércio ilegal, que captura milhares de animais, principalmente fêmeas adultas.
3. Envolvimento comunitário: Pagamento a ribeirinhos por serviços ambientais e vigilância nas praias.
4. Desafios institucionais: Falta de fiscalização em área extensa e resistências locais.
Cerca de 8.000 filhotes de quelônios devem ser soltos na amazônia neste ano, o maior número já registrado na história do projeto Bicho de Casco, que atua desde 2010 na reserva extrativista Baixo Rio Branco-Jauaperi, uma unidade de conservação federal na divisa de Amazonas e Roraima. Porém, a ameaça do tráfico permanece.
A iniciativa protege cem quilômetros do rio Jauaperi, afluente do Negro, e envolve as espécies iaçá, irapuca, tracajá e tartaruga-da-amazônia, que só põem ovos nas praias fluviais e são mais vulneráveis à extinção. Com o apoio de empresas locais de ecoturismo, a operação paga ribeirinhos para vigiarem as margens durante a noite no perÃodo de desova e inibir pessoas que capturam os animais para comércio ilegal ou consumo próprio.
O projeto adota uma metodologia de manejo desenvolvida pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas) que envolve a retirada dos ovos das praias e a construção de ninhos artificiais, para evitar ataques de iguanas e formigas.
O protocolo também prevê a soltura dos répteis cerca de 30 dias após a eclosão dos ovos, quando termina a cicatrização do umbigo dos animais, para que eles tenham maior probabilidade de sobreviver. Até o momento, aproximadamente 5.700 filhotes já foram devolvidos à natureza na temporada 2025 e 2026, e outros 2.500 devem ser liberados nos próximos meses.
"à gratificante que hoje seja o maior projeto do tipo na bacia do rio Negro, mas estamos longe de realmente mudar alguma coisa", afirma o escocês Paul Clark, fundador do Bicho de Casco. "Ainda estamos perdendo a batalha, o tráfico consegue levar muito mais de 7.000 filhotes por ano."
Francisco Parede coordena a iniciativa de conservação e diz sentir falta de mais vigilância das autoridades. "O que a gente está fazendo parece que é só uma gotinha ainda muito pequena para equilibrar esse ecossistema. A gente sabe que falta muito, é uma luta pela vida inteira."
O engenheiro civil Ruy Tone, um dos fundadores da Expedição Katerre e do hotel Mirante do Gavião Amazon Lodge, empresas financiadoras do projeto, afirma que as fêmeas adultas são o alvo principal dos traficantes, o que rompe o ciclo de reprodução.
Hueliton Ferreira, chefe do Núcleo de Gestão Integrada do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) em Novo Airão (AM), reconhece a existência de lacunas na fiscalização.
"A gente tem se esforçado bastante, mas o território é muito extenso, e não temos número suficiente de pessoas para fiscalizar toda a área." Ele diz que o órgão apreendeu 2.000 quelônios adultos na área do baixo rio Negro durante o verão amazônico em 2025.
Segundo Tone, uma canoa simples consegue transportar em torno de 200 animais, que são vendidos ilegalmente por cerca de R$ 50 cada em Novo Airão ou Manaus. Assim, é possÃvel faturar até R$ 10 mil em uma única viagem, mas, descontado o gasto com combustÃvel e a divisão do dinheiro com mais pessoas, o lucro individual cai para aproximadamente R$ 2.000 por temporada.
"A ideia era tentar, pouco a pouco, introduzir na cabeça das pessoas de que era necessário preservar os quelônios. Ao mesmo tempo, a gente deveria fazer a nossa parte, que é resolver a questão de remuneração, porque, em parte, eles caçam justamente para gerar renda", afirma.
O projeto segue o formato de pagamento por serviços ambientais, e cada ribeirinho recebe um salário mÃnimo durante os dois meses de vigÃlia nas praias, além de R$ 5 por filhote saudável solto na natureza.
Hoje, o Bicho de Casco faz parte do Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade do ICMBio e tem apoio técnico da ONG Wildlife Conservation Society (WCS). O projeto abrange as comunidades Itaquera, â São Pedro, â Samaúma, â Xixuaú, â Xiparinã e â Marral, e cada uma decide internamente se concorda em participar e assumir o compromisso de não atacar quem vigia as praias. Desde o inÃcio, o projeto encontra resistência.
"O pior é a gente ter que enfrentar os parentes. Tem que ter muito pé no chão e coragem, não deixa de ter uma pressão para intimidar", diz Parede. No passado, ele conta que houve casos de pessoas irem armadas às praias para afrontar quem vigiava os ninhos.
Na visão de Tone, o aumento no número de animais liberados neste ano não é reflexo de uma recuperação das espécies, mas da própria remuneração, iniciada em 2012. "O pagamento está estimulando as pessoas a protegerem mais, porque vão receber mais. Inconscientemente, isso vai fazer a população aumentar e deve ter mais fêmeas aptas a chocar no futuro."
Parede diz que chegou a observar muitos quelônios no perÃodo de desova. "Hoje não tem um terço do que eu vi 20, 30 anos atrás, caiu de uma maneira alarmante. Eu me lembro de ver a praia cheia de covas com ovos, a gente tirava um pouco [para comer] e deixava o restante todo lá. Meu pai era extrativista e sempre me ensinou que a gente tinha que pensar no amanhã", recorda.
"O meu sonho era a gente poder soltar 10 mil, 20 mil filhotes. Isso é algo que ainda está difÃcil pensar que pode ser realizado", afirma. "Todas as gerações que estão aqui e as que estão por vir teriam que conviver com os quelônios. Se um rio como o nosso não tiver quelônios, a vida acabou, é como se não tivesse sentido nenhum."