Resumo objetivo:
Cerca de 700 mulheres do MST interditaram simbolicamente a ferrovia da Samarco em Minas Gerais, como parte de uma jornada nacional de protesto. A ação denuncia a impunidade após dez anos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, cobrando a responsabilização criminal da empresa e a reparação dos danos. As manifestantes também alertam para a mineração predatória, a crise hídrica e o descumprimento de obrigações judiciais, como indenizações pendentes e a recuperação ambiental.
Principais tópicos abordados:
1. Protesto e reinvindicações: A ocupação dos trilhos pela mulheres do MST como ato político para cobrar justiça e reparação pelo desastre de Mariana.
2. Impunidade e descumprimento de obrigações: A falta de condenações criminais e o não cumprimento de medidas judiciais, como indenizações, reflorestamento e recuperação de nascentes.
3. Impactos socioambientais: A crítica ao modelo predatório de mineração, os riscos hídricos, a contaminação de rios e o abandono das comunidades atingidas.
4. Crise hídrica e direitos: A luta pelo acesso à água potável e a relação entre mineração, degradação ambiental e vulnerabilidade das populações.
Na madrugada desta segunda-feira (9), por volta das 6h, cerca de 700 mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) fecharam os trilhos da Estrada de Ferro Vitória-Minas, no município de Tumiritinga, região Leste de Minas Gerais. A ação, que foi um “trancamento” simbólico e político, integra a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra e denuncia o que nenhuma sentença judicial foi capaz de fazer em dez anos: responsabilizar criminalmente a mineradora Samarco pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, que completa uma década em novembro sem que um único réu tenha sido condenado.
O acampamento, montado às margens da ferrovia, é a expressão concreta do enfrentamento à mineração no estado. Segundo Edilene Costa, da direção regional do MST, além das reivindicações, um dos objetivos da luta é construir um território de resistência no qual atingidas e atingidos, especialistas e representantes de instituições de justiça discutam a crise hídrica, a mineração predatória e o direito à água.
“O ato de ocupar os trilhos da Samarco é uma ação concreta das mulheres que estão em jornada de luta. O acampamento montado ao lado dos trilhos denuncia o capital e o projeto de mineração predatório, que violenta, destrói e mata. E mata não só o povo, mata o rio, os bichos, a vegetação. Nós estamos aqui e não vamos recuar até que nossa pauta seja atendida e a criminosa responsabilizada”, afirma.
Organizadas para a resistência, as mulheres sem terra convocam a sociedade para se somar ao ato que coloca em debate e denuncia o modelo de mineração predatório que sangra o estado e mantém famílias inteiras reféns da impunidade.
O ‘calote’ da Samarco em números
Durante a ação, as mulheres do MST trazem nas palavras de ordem números que evidenciam a inadimplência da Samarco. Os dados que fundamentam as denúncias levadas às ruas e às ações de enfrentamento alertam para os riscos que todo o estado de Minas Gerais corre com a mineração predatória.
Os números mostram que cerca de 2 mil famílias em Minas Gerais ainda aguardam indenização individual, sendo mais de mil na bacia do Rio Doce e 947 na do Paraopeba. Além disso, 52 assentamentos da reforma agrária foram diretamente atingidos pelos crimes da mineradora em Minas Gerais e no Espírito Santo.
Entre as obrigações ambientais não cumpridas, estão o plantio de 10 mil hectares de florestas e a recuperação de 5 mil nascentes, medidas determinadas judicialmente. Também permanecem sem intervenção 5,7 mil hectares de áreas prioritárias para recomposição florestal. Do total de áreas onde a empresa deveria estar executando ações de recomposição, cerca de 2 mil hectares estão localizados em assentamentos da reforma agrária.
As mulheres do MST afirmam que estão abertas ao diálogo e à negociação, mas que não aceitarão mais “promessas vazias”. De acordo com Costa, a situação se agrava após uma década do desastre.
“As famílias estão adoecidas. São 10 anos de impunidade. São 10 anos em que o crime continua em curso. As famílias não foram indenizadas. As áreas não foram e não estão sendo reflorestadas. São 52 territórios da reforma agrária que anseiam por justiça”, afirma a militante do MST.
Luta pela água
O grito das mulheres sem terra é também por “água para beber”, como definem as camponesas. Enquanto o estado de Minas Gerais vive um novo capítulo da crise hídrica, com o risco iminente de rompimento da barragem de Lages, em Porteirinha, que desalojou mais de 100 famílias e só foi cadastrada após o incidente, as comunidades rurais atingidas pela Samarco acumulam uma década de abandono.
Edilene Costa complementa que, mesmo com a condenação, a empresa não se comprometeu com a minimização dos danos que causou.
“A Samarco foi condenada e deveria estar cumprindo uma série de ações que vão desde reflorestamento a recuperar nascentes, mas nada disso está acontecendo no momento. As famílias estão sem acesso à água potável. A empresa cortou o fornecimento e o povo teve que ‘se virar’, furando poço e sobrevivendo com uma água de qualidade duvidosa”, conta.
Nas bacias do Rio Doce e do Paraopeba a realidade é de escassez. Poços e nascentes que abasteciam gerações de agricultores foram soterrados pela lama de rejeitos. Hoje, centenas de famílias dependem de carros-pipa ou de poços artesianos de qualidade duvidosa. A mineradora, que deveria garantir o acesso à água como medida básica de reparação, simplesmente rompeu o fornecimento.
Em janeiro de 2026, o Brasil de Fato mostrou que o MST vem desenvolvendo, na contramão do Estado e das mineradoras, ações concretas de restauração ambiental na região. Por meio do Programa de Agroecologia da Bacia do Rio Doce, o movimento já restaurou mais de 2 mil hectares nos últimos cinco anos, envolvendo diretamente seis assentamentos. O plano “Plantar árvores, produzir alimentos saudáveis” já plantou mais de 45 milhões de árvores em todo o país desde 2020, com a meta de chegar a 100 milhões até 2030 .
Kelly Gomes, da coordenação nacional do movimento, reafirma a necessidade do acesso aos direitos do povo e da condenação da mineradora. “A nossa luta é para que mulheres, homens e meninos possam viver com dignidade. O nosso povo, o povo das bacias dos rios Doce e Paraopeba, sofre com esse crime que segue em curso. Queremos que a criminosa Samarco cumpra a reparação. Que o povo possa ter acesso ao direito”, defende.
Dez anos de impunidade
Em novembro de 2015, a empresa Samarco causou o maior desastre socioambiental da história do Brasil. Com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), mais de 30 milhões de metros cúbicos de rejeitos foram despejados na bacia do Rio Doce. A lama percorreu mais de 600 quilômetros pelos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, devastando comunidades inteiras, contaminando nascentes e destruindo modos de vida que levam gerações para serem construídos.
Dez anos depois, nenhuma das empresas foi condenada pela Justiça brasileira . Em novembro de 2024, a Justiça Federal absolveu a Samarco, a Vale, a BHP e todos os réus denunciados, sob o argumento de que não haveria provas suficientes para estabelecer responsabilidade criminal. O Ministério Público Federal recorreu da decisão, mas o recurso ainda não foi analisado e parte dos crimes já prescreveu .
Enquanto o judiciário brasileiro caminha a passos vagarosos, a tragédia se repete. No último dia 25 de janeiro, exatamente sete anos após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, um dique de contenção da Mina de Fábrica, também da Vale, transbordou em Ouro Preto, lançando 220 mil metros cúbicos de água e sedimentos na região, o equivalente a 88 piscinas olímpicas.
O incidente, que poderia ter sido uma nova tragédia, reacendeu o alerta sobre as 319 barragens existentes em Minas Gerais, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) de 2026. Dessas, 45 estão em situação de risco, 26 em alerta ou emergência, e duas em risco de rompimento iminente (nível 3 de emergência), localizadas em Ouro Preto e Itatiaiuçu.
Os riscos não são apenas numéricos, mas estratégicos. As barragens estão situadas sobre bacias hidrográficas que abastecem milhões de pessoas, com destaque crítico para o Quadrilátero Ferrífero-Aquífero (QFA), na região Central do estado, que concentra o polo minerador e abriga comunidades inteiras sob tensão permanente .
Outro lado
O Brasil de Fato MG entrou em contato com a Samarco, que disse que “tomou conhecimento da interdição de trecho da ferrovia EFVM, em Tumiritinga (MG), e reafirma seu compromisso com a reparação definitiva, conforme estabelecido no Novo Acordo do Rio Doce”. A mineradora ainda disse que o acordo “representa um marco importante, por oferecer clareza e efetividade às medidas de reparação, contribuindo para assegurar as ações necessárias que têm sido conduzidas de maneira consistente e transparente”.