Uma atividade de formação e intervenção das mulheres das cozinhas solidárias do Levante Popular da Juventude e de mulheres assentadas foi realizada nesta segunda-feira (9), em Porto Alegre. O encontro reuniu lideranças comunitárias, militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e moradoras de diferentes territórios, com o objetivo de debater a violência contra as mulheres, fortalecer redes de acolhimento nas comunidades e denunciar a ausência de políticas públicas efetivas de proteção.
Integrante da coordenação do Levante Popular da Juventude e do coletivo dos movimentos populares Mãos Solidárias, Mariana Danbroz afirmou que a intervenção foi construída coletivamente a partir das discussões realizadas com mulheres que atuam nas cozinhas solidárias.
Segundo ela, os espaços comunitários acabam se tornando locais de acolhimento para mulheres vítimas de violência. “Hoje o Mãos Solidárias, representado pelas cozinhas solidárias junto com o Levante Popular da Juventude, construiu uma intervenção a partir de discussões realizadas com as mulheres que atuam nesses espaços, afirmando que a violência contra a mulher é algo que a gente acaba recebendo nas cozinhas, nos espaços, e que precisamos descobrir formas de dar uma resposta”, explicou.
Organizações atuam onde o Estado falha
Danbroz destacou que muitas mulheres procuram ajuda nesses locais porque encontram dificuldades nas instituições públicas. “O Estado é falho e a gente acaba recebendo essas mulheres nas cozinhas, nos espaços da organização do povo. E qual é a resposta? Hoje a gente veio dialogar com a sociedade, mostrar que não somos só números. Não somos apenas as 52 mil mulheres que tiveram algum tipo de ocorrência de violência no ano de 2025 aqui no Rio Grande do Sul.”
Ela também relatou que, pela manhã, foi realizada uma roda de conversa entre as participantes. “fFoi muito emocionante, mostrou como todas as nossas dores, mulheres que foram atravessadas por violências, tiveram como resposta a solidariedade. A resposta é estar lá na ponta, acolhendo as dores das mulheres.”
Para a militante, o encontro também foi um momento de fortalecimento coletivo. “Foi o momento em que acolhemos as nossas dores e também demos uma resposta à sociedade. A gente não vai mais ficar calada, não vai mais ficar parada. Estamos organizadas e vamos para os nossos territórios fazer esse diálogo, organizar o povo para combater o patriarcado, o capitalismo estruturado pelo patriarcado, pelo racismo e pela LGBTfobia.”
Denúncia da falta de políticas públicas
Educadora do Instituto de Educação Josué de Castro e moradora do assentamento Filhos de Sepé, em Viamão (RS), Simone Aparecida Resende também destacou a importância da mobilização. “Hoje foi um dia importante, histórico para as mulheres, porque simboliza essa união no sentido de fazer a denúncia, de entender a violência e de provocar que a gente ocupe o nosso espaço de diálogo, de denúncia e de cuidado”, afirmou.
Segundo ela, a mobilização também busca cobrar ações concretas do poder público. “Principalmente exigir da política pública uma ação efetiva de proteção à vida das mulheres. O que nós viemos vivenciando no Rio Grande do Sul, mas também em todo o Brasil, é a falta de uma política efetiva de segurança, de cuidado e de apoio para as mulheres que são vítimas de violência.”
Resende apontou ainda que muitas mulheres voltam a ser vítimas quando procuram ajuda institucional. “Hoje, de certa forma, o sistema é ineficiente, não dá conta da necessidade. Muitas vezes a mulher se torna vítima novamente quando precisa do acolhimento da política pública, que não está acontecendo.”
Para ela, o ato realizado nesta segunda-feira também funciona como um alerta dessa realidade. “As mulheres precisam de proteção desde a primeira denúncia. Se não foi ela que denunciou, quando a comunidade estender a mão, ela precisa de acolhimento para recomeçar uma nova vida. E os culpados precisam ser punidos. O Estado precisa construir ações para punir e, principalmente, processos de educação para que homens não violentem e mulheres não sofram violência.”
Violência atinge famílias e comunidades
Representando o coletivo Espaço Cultural Marlon e Marcelinho, da Cohab Rubem Berta, no extremo norte de Porto Alegre, a líder comunitária e estudante de doutorado em Geografia do Núcleo de Estudos em Gestão Alternativa (Nega) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Catarina Eloia da Rosa Machado, destacou que a violência de gênero impacta não apenas as mulheres, mas também toda a comunidade.
“O feminicídio não mata só as mulheres. Ele mata o nosso futuro. Hoje temos mais de 650 crianças órfãs”, apontou. De acordo com relatório da Comissão Externa do Congresso Nacional sobre os feminicídios ocorridos no Rio Grande do Sul entre 2021 e 2025, os crimes no estado deixaram cerca de 660 crianças e adolescentes órfãos.
Ela ressaltou que muitas situações de violência chegam aos coletivos comunitários e às cozinhas solidárias. “As mulheres chegam nos nossos territórios, nos nossos coletivos, nas nossas cozinhas e falam de diversas formas. Muitas vezes elas também são silenciadas dentro de casa. Às vezes é difícil comunicar, mas a gente precisa entender que não está sozinha.”
Machado também defendeu que a sociedade deve se envolver diante de situações de violência doméstica. “Em briga de marido e mulher nós temos que meter a colher. A gente precisa ligar para o 180, para o 181, para o 190. Porque são vários sinais que levam a matar as nossas companheiras, as nossas irmãs, as nossas amigas.”
A liderança comunitária também compartilhou uma experiência pessoal marcada pela violência e pela ausência do Estado. “Eu enterrei o meu filho. Eu segurei a alça do caixão do meu filho quando ele tinha 15 anos e 11 meses. O Marcelinho. Ele não foi protegido, não foi socorrido a tempo e faleceu.”
Segundo ela, o coletivo criado após essa perda atua há quase cinco anos em memória dos jovens Marlon e Marcelinho. “Hoje eu caminho num coletivo que carrega a memória de dois adolescentes inocentes, atletas das categorias de base do Inter e do Grêmio, moradores do Rubem Berta, um território que sofre várias violências pela ausência de proteção do Estado”, afirmou.
Machado também destacou que o trabalho comunitário envolve orientar mulheres sobre direitos e políticas públicas. “Muitas mulheres chegam no nosso espaço com dificuldades básicas. Teve uma que disse que não sabia o número do PIS porque o Bolsa Família estava no celular do companheiro e ele não queria dar. Isso é uma violência”, relatou.
Para ela, compreender essas situações exige olhar para as estruturas sociais. “O patriarcado é um sistema que mata e oprime. Ele usa várias ferramentas: o machismo, o ódio às mulheres, que é a misoginia. Muitas mulheres não sabem nomear isso, mas é ódio contra nós pela nossa existência.”
Cozinhas solidárias como espaço de acolhimento
Durante o encontro, também foi ressaltado o papel das cozinhas solidárias como locais de apoio nos territórios. “Esse encontro é um espaço seguro de acolhida, um espaço de fortalecer nós mulheres, de dialogar e trocar experiências do nosso cotidiano e de como sobrevivemos dentro dos nossos territórios”, afirmou Machado.
Ela destacou que atualmente mais de 50 cozinhas solidárias participam da rede construída pelos movimentos sociais, todas lideradas majoritariamente por mulheres. “As cozinhas são importantes nos territórios, mas junto disso também discutimos o dever do Estado de nos proteger e dar condições de outra vida para as mulheres.”
Dor transformada em solidariedade
A militante comunitária Maria Elisabeth Saldanha Vilela, conhecida como Tia Beth, também compartilhou sua trajetória marcada por perdas familiares e pelo trabalho social na comunidade. “Faz 15 anos que a minha filha faleceu. Eu criei dois netos, que hoje são adultos e estão bem estabilizados”, contou.
Ela relatou que a filha sofreu violência sexual na adolescência e que as consequências desse trauma marcaram sua vida. “Minha filha foi estuprada. Depois ela casou, mas quando o marido soube da história não confiou mais nela. Aquilo destruiu ela.”
Segundo Tia Beth, a filha nunca pediu ajuda diretamente. “Ela não contava para mim. Só escreveu cartas. Eu tenho muitas cartas da minha filha. Até que um dia ela não aguentou mais e se matou.”
A militante afirmou que encontrou sentido na vida ao cuidar dos netos e ao criar uma cozinha solidária em uma igreja abandonada. “Eu encontrei essa igreja abandonada, meti o pé e fiz a minha cozinha. Hoje ela é um refeitório popular na Bom Jesus.”
Segundo ela, o espaço vai além da distribuição de alimentos. “Ali tem roupa, sabão, banho. Eu corto cabelo, dou comida. Quer repetir, pode repetir. É acolhimento.” Tia Beth relatou que muitas mulheres compartilham situações de violência no local: “Eu participo porque eu vou até as casas. Se tiver que denunciar, eu denuncio. Eu ajudo muitas mulheres a sair dessas situações”.
Apesar das dificuldades, ela segue atuando para ampliar o projeto. “Eu quero ampliar a cozinha, fazer cursos para as mulheres aprenderem a fazer pão, ter um trabalho extra e não depender mais desses homens. Eu estou buscando e vou conseguir. Até hoje consegui tudo. Minha cozinha hoje é maravilhosa e minha casa está de portas abertas para quem quiser ajudar”, concluiu.
Intervenção transforma dados da violência em denúncia pública
Após a formação, as mulheres realizaram uma intervenção na Esquina Democrática, no centro de Porto Alegre, em alusão ao Dia Internacional da Mulher. A performance transformou dados sobre a violência de gênero no Rio Grande do Sul em denúncia pública.
Em coro, enquanto lembravam vítimas de feminicídio e criticavam a naturalização da violência doméstica, as manifestantes entoaram: “Somos mulheres, somos guerreiras, não nos calaremos, seremos um mar de bandeiras”.
Durante a intervenção, as participantes afirmaram que, no estado, “a casa virou cova”, em referência aos casos de feminicídio registrados nos últimos anos. Em 2025, 80 mulheres foram assassinadas no Rio Grande do Sul, e 20 feminicídios foram registrados apenas no início de 2026, o que representa, em média, uma mulher morta a cada três dias.
A manifestação também trouxe histórias de vítimas para simbolizar a violência. Em um dos trechos, as manifestantes lembraram o caso de Karizele de Oliveira Sena, morta a facadas em casa pelo marido na frente dos filhos, e de Mirella Santos da Silva, adolescente de 15 anos assassinada.
As participantes também denunciaram o ditado popular que frequentemente silencia denúncias de violência doméstica. “Em briga de marido e mulher não se mete a colher”, repetiram inicialmente, antes de responder em coro: “Mete sim!”
A intervenção incluiu dados sobre os feminicídios no estado. Segundo as manifestantes, 89% dos crimes ocorreram dentro de casa, 77% foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros e 95% das vítimas não possuíam medida protetiva. Também foi citado que cerca de 900 agressores utilizam tornozeleira eletrônica como forma de monitoramento.
Outro ponto destacado foi o recorte racial da violência. As manifestantes apontaram que mulheres pretas e pardas representam parcela significativa das vítimas, denunciando que a resposta do sistema de proteção costuma ser mais lenta quando envolve mulheres negras.
Ao final, o coro reforçou que os feminicídios não devem ser tratados como crimes passionais. “Não é amor. É posse. Não é crime passional. É político”, gritaram. A performance terminou com um chamado à solidariedade entre mulheres: “Companheira, me ajude, que eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”.