Resumo objetivo:
Milhares de mulheres protestaram em todo o Brasil no Dia Internacional da Mulher, mesmo sob condições adversas como a chuva em São Paulo. As mobilizações ocorreram em um contexto de aumento alarmante dos feminicídios no país e defenderam ações estruturais contra a violência de gênero. As principais reivindicações incluíram o fim da escala de trabalho 6×1, a implementação de uma política nacional de cuidados e a regulação das redes sociais.
Principais tópicos abordados:
1. Aumento da violência contra a mulher: Dados sobre feminicídios e a naturalização da violência.
2. Reivindicações por políticas públicas: Fim da escala 6×1, plano nacional de cuidados, creches integrais e fortalecimento do SUS.
3. Críticas à falta de educação sobre gênero: Impacto do "escola sem partido" na formação de uma juventude machista.
4. Articulação política e internacionalismo: Entrega de um manifesto às autoridades e solidariedade a causas internacionais, como a das mulheres palestinas.
No último domingo (08), Dia Internacional da Mulher, milhares de mulheres foram às ruas em todo o Brasil em mais uma edição da Marcha das Mulheres. Em São Paulo, mesmo sob chuva torrencial, os atos reuniram manifestantes que ocuparam as ruas do centro da capital paulista com entusiasmo e determinação. “Ninguém foi embora. As pessoas seguiram até a Praça Roosevelt com muito entusiasmo, cantando e dizendo que mundo nós queremos, que certamente não é esse que estamos vivendo”, afirma Maria Fernanda Marcelino, integrante da Marcha das Mulheres, ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
As mobilizações deste ano ocorrem em um contexto alarmante para as mulheres brasileiras. Dados da Justiça brasileira revelam que 2025 fechou com 1.568 feminicídios no país — um aumento de 4,7% em relação a 2024. Somente em janeiro de 2026, já foram registrados 947 casos. “O simples fato de nós existirmos e nos auto-organizarmos em movimentos feministas já é uma celebração importante. Nós existimos, nós resistimos”, afirma Maria Fernanda.
Para a integrante da Marcha, enfrentar a violência contra as mulheres exige um conjunto de ações estruturais. “Nós podemos dizer que o fato de há pelo menos 10 anos a gente não poder discutir questões de gênero nas escolas foi interditado por todo aquele debate super fake do ‘escola sem partido’“, denuncia. “Você pode falar em assassinato de mulheres, mas falar em gênero não. Isso resultou numa juventude misógina, machista, aliado aos inúmeros grupos que propagam.”
Ela defende a atuação em múltiplas frentes: “Você tem que atuar na educação, tem que atuar na regulação das redes sociais, tem que atuar nas condições de vida e de trabalho.” Marcelino lembra que uma das perguntas mais feitas no Google em 2025 foi “como matar uma mulher sem deixar vestígios”. “Essa sociedade que naturaliza a violência contra as mulheres em todos os ambientes, inclusive nas abordagens dos jornais comerciais, precisa mudar.”
Outra pauta central das mobilizações foi o fim da escala de trabalho 6×1. Segundo dados do IBGE de 2022, as mulheres dedicam mais de 21 horas semanais aos afazeres domésticos — tempo que se soma à jornada formal de trabalho. “Acabar com a escala 6×1 é fundamental, mas é fundamental também implementar o plano nacional de cuidados. Ele não pode ser um plano piloto, tem que existir de verdade”, defende Maria Fernanda.
“A questão dos cuidados tem que ser para além das responsabilidades femininas. Todas as pessoas vão envelhecer, todas podem adoecer, e não pode ficar a cargo só das mulheres cuidar e zelar pela saúde delas próprias, dos filhos e dos homens que as cercam”, destaca.
A ativista defende que os homens assumam sua parte na responsabilidade e que o Estado amplie seu papel: “Creches em período integral, centros de acolhimento e convivência para idosos. O SUS é nosso orgulho brasileiro, mas para ampliar precisa de verba.”
A Marcha das Mulheres deste ano teve uma articulação nacional com mais de 50 organizações que puxaram um manifesto, que depois reuniu mais de 350 assinaturas em níveis estaduais, regionais e locais. O documento foi entregue à ministra das Mulheres, Márcia Lopes, e ao secretário adjunto do Ministério, com compromisso de ser apresentado ao presidente Lula.
“Elencamos uma série de reivindicações importantes, inclusive olhando para fora: o tema da democracia e da soberania, a solidariedade a Cuba, à Venezuela, às mulheres palestinas. Temos que comemorar o internacionalismo do feminismo”, afirma Maria Fernanda.
Apesar dos números alarmantes de violência, a ativista faz um balanço positivo das mobilizações. “Diante de tanta barbárie, de tanta violência, de tanta desigualdade, o simples fato de nós existirmos e nos auto-organizarmos em movimentos feministas, em secretarias, em grupos auto-organizados, isso é uma celebração importante. Nós existimos, nós resistimos.”
A Marcha das Mulheres reafirmou nas ruas a necessidade de políticas que enfrentem as raízes da violência de gênero — da educação à regulação das redes, da jornada de trabalho à divisão sexual do cuidado. Como resume Maria Fernanda: “É necessário um conjunto de ações interministeriais, multifacetado, porque o problema é complexo. Mas a gente segue na luta.”
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.