Resumo objetivo:
O assassinato do líder indígena Sidnei da Silva durante um confronto armado na Terra Indígena Ventarra (RS) levou o Cimi a cobrar ação imediata do governo federal para conter a violência no território. O conflito, que já dura meses, envolve disputas internas pela liderança e pelo controle de arrendamentos de terra para não indígenas, agravado pela suposta ingerência de agentes externos que fornecem armas. O Cimi denuncia a omissão do Estado diante da escalada de violência, que já resultou em múltiplas mortes, incêndios e deslocamento de famílias Kaingang.
Principais tópicos abordados:
1. Violência e conflito interno: assassinato de liderança, confrontos armados, mortes, incêndios e disputas pela liderança e controle territorial.
2. Causas do conflito: disputas relacionadas ao arrendamento de terras para não indígenas e interferência de agentes externos que supostamente fornecem armas.
3. Cobranças ao Estado: omissão governamental, pedido de ações urgentes ao Ministério da Justiça, Ministério dos Povos Indígenas, Funai e Polícia Federal para proteção e investigação.
4. Contexto local: situação de medo, deslocamento de famílias e risco de expansão do conflito para outras terras indígenas no Rio Grande do Sul.
O assassinato de uma liderança indígena dentro da Terra Indígena Ventarra, no norte do Rio Grande do Sul, levou o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) a cobrar ação imediata do governo federal para conter a escalada de violência no território. Em nota divulgada no domingo (8), o Cimi Regional Sul afirma que a situação era previsível e denuncia a omissão do Estado diante de um conflito que já dura meses.
A morte ocorreu na madrugada de sábado (7), dentro da área indígena localizada no município de Erebango. Durante um confronto armado entre grupos rivais, foi morto a tiros Sidnei da Silva, liderança que contestava a atual cacica da comunidade, Toguila Braga. Outra pessoa ficou ferida e houve registro de incêndio em casas no interior do território.
Segundo o Cimi, o conflito envolve disputas internas pela liderança da comunidade e pelo controle do território, especialmente em torno do arrendamento de áreas para não indígenas. A organização afirma que agentes externos estariam estimulando a disputa e fornecendo armas, o que contribui para intensificar a violência.
A Terra Indígena Ventarra possui cerca de 772 hectares e é habitada por famílias do povo Kaingang. De acordo com o Cimi, o território vive um cenário de medo e insegurança desde novembro de 2025, quando os confrontos se intensificaram.
Ameaça constante
Nos últimos meses, a comunidade já registrou três mortes, além de pessoas feridas e dezenas de casas e veículos incendiados. Famílias inteiras passaram a viver sob ameaça constante, e parte dos moradores precisou deixar suas residências para garantir a própria segurança.
No momento do confronto que resultou na morte de Sidnei da Silva, havia apenas sete agentes da Força Nacional no território. O Iefetivo que atua na região desde dezembro de 2025 com o objetivo de conter confrontos violentos entre grupos Kaingang rivais tentou intervir, mas era insuficiente diante da dimensão do conflito. Depois do ataque, equipes da Brigada Militar, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), ambulâncias do município e o Corpo de Bombeiros Militar foram acionados para prestar atendimento.
O Cimi afirma que vinha alertando autoridades sobre o agravamento da situação desde o final de 2025, sem que medidas efetivas fossem adotadas para evitar novas mortes.
A entidade também manifesta preocupação com a possibilidade de conflitos semelhantes se espalharem para outras terras indígenas do estado, como Nonoai, Ligeiro e Cacique Doble, onde também existem disputas relacionadas ao arrendamento de áreas indígenas para não indígenas.
Diante do novo episódio de violência, o Cimi cobra das autoridades federais — especialmente do Ministério da Justiça, do Ministério dos Povos Indígenas, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e da Polícia Federal — ações imediatas para proteger as famílias e investigar a atuação de agentes externos no conflito.
O Brasil de Fato questionou o Ministério da Justiça, o Ministério dos Povos Indígenas, a Funai e a Polícia Federal a respeito do assassinato e de ações para conter a violência. Não houve retorno até o fechamento desta matéria.
Leia abaixo a nota do Cimi na íntegra:
Terra Indígena Ventarra: violência crescente, ingerência externa e omissão do Estado colocam famílias Kaingang em grave risco
Por Roberto Liebgott, do Cimi Sul – Equipe Porto Alegre
É com profunda indignação e preocupação que assistimos à grave escalada de violência na Terra Indígena Ventarra, onde famílias do povo Kaingang vivem, há meses, sob um cenário de conflito armado, medo e profunda insegurança.
Desde novembro de 2025, dois grupos internos passaram a disputar o controle político da comunidade e o acesso à terra, em especial em torno de interesses relacionados ao arrendamento de áreas para não indígenas. Essa disputa tem sido agravada pela interferência de agentes externos, que, conforme denúncias das próprias lideranças indígenas, vêm estimulando e alimentando o conflito, chegando inclusive a fornecer armas, o que aprofunda ainda mais a violência dentro do território.
O resultado dessa situação é devastador. Nos últimos meses, a comunidade já contabiliza três mortes, diversos feridos e dezenas de casas e veículos incendiados, deixando famílias inteiras em situação de vulnerabilidade extrema. Mulheres, crianças e idosos vivem sob permanente ameaça, muitos tendo que abandonar suas casas para proteger a própria vida.
O conflito ocorre em uma área de 772 hectares, atualmente coordenada pela Cacica Toguila Braga, cuja liderança vem sendo contestada por outro grupo da comunidade que reconhecia como cacique Sidnei da Silva.
Na madrugada deste 07 de março de 2026, a violência atingiu um novo e trágico patamar. Um confronto dentro da Terra Indígena resultou na morte de Sidnei da Silva, deixou outra pessoa ferida e provocou novos incêndios de residências, aprofundando o clima de medo e desespero que se instalou entre as famílias.
No momento do confronto, havia apenas sete agentes da Força Nacional no território, que tentaram intervir, mas eram manifestamente insuficientes diante da dimensão da situação. Posteriormente chegaram equipes da Brigada Militar, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), ambulâncias do município e o Corpo de Bombeiros Militar, que prestaram socorro às vítimas.
É importante destacar que essa tragédia vinha sendo anunciada. O Cimi Regional Sul denunciou reiteradamente essa situação desde novembro de 2025, alertando autoridades sobre o agravamento do conflito e o risco iminente de novas mortes. Apesar disso, as respostas do Estado têm sido tardias, frágeis e claramente insuficientes para proteger a comunidade e impedir a escalada da violência.
“O Cimi Regional Sul denunciou reiteradamente essa situação, alertando autoridades sobre o agravamento do conflito e o risco iminente de novas mortes”
O que causa ainda mais apreensão são os indícios de que outros conflitos estão sendo anunciados em outras terras – Nonoai, Ligeiro, Cacique Doble – que passam pelo mesmo processo de disputas internas em decorrência dos arrendamentos das terras.
Diante da gravidade dos fatos, o Cimi Regional Sul cobrou das autoridades federais – especialmente do Ministério da Justiça, do Ministério dos Povos Indígenas, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e da Polícia Federal – a adoção imediata de medidas concretas e eficazes que incluíam:
1- A ampliação urgente da presença institucional no território, garantindo a proteção das famílias Kaingang;
2- A investigação rigorosa da atuação de agentes externos que estariam incentivando, financiando ou armando o conflito;
3- A adoção de mecanismos institucionais de mediação e pacificação, com participação das próprias lideranças indígenas;
4- A implementação de ações estruturais que enfrentam as causas profundas do conflito e garantam a integridade da Terra Indígena.
É inaceitável que comunidades indígenas sejam abandonadas à própria sorte, vivendo sob a lógica da violência, enquanto interesses externos disputam e se beneficiam de seus territórios.
A omissão do Estado brasileiro diante dessa realidade não apenas agrava o conflito, como também coloca em risco a vida de dezenas de famílias Kaingang.
A situação exige ação imediata, firme e responsável das autoridades públicas. Cada dia de inércia pode significar mais violência, mais destruição e mais vidas perdidas.
Porto Alegre (RS), 08 de março de 2026.