Resumo objetivo: O antropólogo Luiz Eduardo Soares analisa que a ascensão da ultradireita (neofascismo/bolsonarismo) foi forjada por uma tríade destrutiva: o clientelismo armado, as milícias e a captura institucional do Estado. Ele argumenta que esse processo transformou o Rio de Janeiro em um laboratório avançado, onde a violência política e a impunidade se tornaram procedimentos administrativos normais dentro do próprio Estado. Como antídoto, Soares defende o diálogo e a pluralidade para combater a impotência coletiva.
Principais tópicos abordados: 1. A análise da ultradireita como fruto de uma tríade perversa (clientelismo armado, milícias e captura institucional). 2. A transformação do Estado de mediador em arquiteto do crime e da impunidade, exemplificada pelo caso Marielle Franco. 3. O Rio de Janeiro como laboratório biopolítico e precursor do neofascismo no contexto global. 4. A crítica ao "realismo político" de parte da esquerda que falhou em conter esse avanço. 5. A defesa do diálogo e da justiça social com base em direitos humanos como caminhos de resistência.
Caminhos para enfrentar as engrenagens do medo Antropólogo analisa como uma tríade – clientelismo armado, milícias e captura institucional – forjou o ultradireita, contando com o “realismo político” de parte da esquerda. Diálogo e pluralidade, diz, são antídotos ao vírus impotência coletiva Publicado 09/03/2026 às 18:51 - Atualizado 09/03/2026 às 19:02 Luiz Eduardo Soares em entrevista a Thiago Gama No ano de 2026, a restauração trumpista reconfigura mapas e desarticula a própria gramática da diplomacia liberal — e o Rio de Janeiro, neste cenário, não como um enclave de exceção, mas como um dos laboratórios biopolíticos mais avançados da necropolítica do descarte no Sul Global. O que se testemunha é uma inversão topográfica definitiva: a falência da promessa civilizatória da capital diante de uma Baixada Fluminense que, longe de ser um resíduo do passado, colonizou o centro do poder com sua lógica de mandonismo armado e clientelismo despótico. Esta metástase institucional revela que a transição democrática brasileira foi um simulacro geográfico; o “gangsterismo mafioso” das periferias não apenas infiltrou o Estado, mas converteu-se na sua própria infraestrutura logística. A prisão de Rivaldo Barbosa e o desfecho do caso Marielle Franco não são, portanto, anomalias de um sistema que falhou, mas a evidência de um sistema que opera em sua plenitude técnica. Como aponta o antropólogo e cientista político, Luiz Eduardo Soares, nosso entrevistado, estamos diante de uma “arquitetura da impunidade” onde a eliminação política foi assimilada como um procedimento administrativo ordinário, operado de dentro dos gabinetes que, por um cinismo ontológico, deveriam salvaguardar a justiça. Aqui, o Estado deixa de ser o mediador do conflito para se tornar o Demiurgo do crime, um arquiteto que desenha o próprio labirinto onde a memória social é conduzida ao abate. É o que poderíamos chamar, em uma visão mais radical, de uma “estetização da barbárie”, onde a força bruta prescinde de máscaras jurídicas para se afirmar como a única natureza real. O antropólogo sempre aventou um sonho possível: a união entre a justiça social e um combate à criminalidade que prescindisse da barbárie, ancorado na inteligência e no respeito absoluto aos Direitos Humanos. Natural de Nova Friburgo, Luiz Eduardo Soares é o antropólogo que ousou mergulhar nas vísceras das instituições para revelar a face oculta do Estado. Coautor de Elite da Tropa (2006) — obra seminal que gerou o fenômeno cinematográfico de José Padilha —, Soares transpôs os limites da academia para pautar o debate público nacional. Sua trajetória é marcada pela coerência trágica dos que veem à frente: como Secretário Nacional de Segurança Pública no primeiro governo Lula (2003), ele tentou operar a reforma das estruturas que hoje, em 2026, assistimos colapsar sob o peso do milicianato e do neofascismo. Nesta entrevista, Soares nos oferece as chaves para entender como o Rio de Janeiro se deixou arrastar para este túnel abissal, onde a luz parece ter sido sequestrada por uma “geopolítica do medo”. __________________________________________________________________________ Em Escolha sua distopia, o senhor aponta o Rio de Janeiro como um laboratório do neofascismo. Diante da restauração trumpista em 2026, como essa “geopolítica do medo” se reorganiza para neutralizar as instituições democráticas que ainda resistem no Sul Global? O estado do Rio de Janeiro, particularmente a região metropolitana, pode ser considerado um laboratório do neofascismo, isto é, do movimento bolsonarista, porque lá se reuniram algumas de suas condições de possibilidade e se desencadeou uma cadeia de decisões políticas, desde a transição democrática, por parte de protagonistas importantes da direita, que as souberam aproveitar, e de lideranças da esquerda, que não as souberam identificar, desarmar e reverter. Ouso afirmar que, em alguma medida, a transição não chegou à Baixada Fluminense e a São Gonçalo — segunda maior cidade do estado. A promulgação da Constituição, em 1988, não promoveu alterações significativas. Esse conjunto de cidades se caracterizou pela permanência do pacto entre as elites armadas, herdeiras do mandonismo tradicional, aliadas à ditadura e protegidas pelos militares, que continuaram agindo, depois da restauração do poder civil, como gângsters mafiosos, organizados em torno do jogo do bicho e da cooptação das polícias, dominando — diretamente ou via chantagens — a precária economia local. A circulação promíscua de policiais entre os porões da ditadura, a segurança privada de bicheiros e outros negócios escusos, em associação progressiva com políticos municipais, demonstrava a profundidade da captura de instituições do Estado, cujos titulares passavam da tolerância à cumplicidade e, daí, à rendição. Enquanto a Baixada e São Gonçalo congelavam no tempo político, a capital sucumbia ao que poderia ser qualificado de mudança regressiva, promovendo-se a confluência entre as características das duas regiões. Na capital, o associativismo, o ímpeto participativo, a tradição de entrelaçamento entre camadas sociais — expressivo de fecundo diálogo cultural, na contramão dos bloqueios racistas e de classe — e a histórica politização (limitada, mas significativa) da base popular foram obstados e transformados pela presença de grupos armados, que assumiam, ao longo dos anos 1980, o controle progressivo de territórios e comunidades. A resistência foi diminuta e insuficiente, sobretudo por conta dos arranjos clientelistas, eleitoreiros, oportunistas e fisiológicos, que deram o tom mesmo nas esquerdas, com as exceções de praxe. Quando os pesquisadores que ousaram meter a mão na cumbuca e estudar as polícias, escreveram sobre elas e mostraram as implicações dramáticas da manutenção do que herdamos da ditadura, nessa área, as respostas foram decepcionantes e refratárias à assunção de qualquer protagonismo coletivo e institucional que fizesse a diferença. Não se enraizou e difundiu a consciência de que a problemática estava no centro da questão democrática. Assim como o clientelismo degenerou em subordinação a tiranias locais armadas, a entrega das polícias à hegemonia da direita produziu todo tipo de ameaça aos negros, aos pobres e à viabilidade de que se constitua, de fato, no Brasil, o Estado democrático de direito. Nessa toada, a capital não civilizou a Baixada; foi a Baixada que colonizou a capital, politicamente. O imenso equívoco de considerar atenção à corrupção policial (sabendo-se que ela é sempre a contraface da brutalidade policial, aplicada com viés de raça, cor, território e classe) uma espécie de purismo pequeno-burguês ou moralismo udenista fechou os olhos de muitas lideranças progressistas para as implicações de alianças com grupos políticos vinculados, direta ou indiretamente, a estruturas de poder milicianas, envolvendo vertebrações clientelistas perversas. A incompreensão quanto ao significado da ordem despótica de poder que vigora na Baixada, em São Gonçalo, e crescentemente na capital e em outras regiões, levou lideranças e partidos progressistas a condenar por sectários os atores políticos que se recusaram a endossar essa tática suicida. O apoio de setores da esquerda aos grupos que dominaram o estado do Rio, antecedendo a emergência da hegemonia bolsonarista e que terminaram por precipitá-la, era justificado por dúvidas legítimas: como romper o domínio de grupos político-econômicos que bloqueiam a participação independente e que se impõem pela força quando se percebem sob risco eleitoral, quando os arranjos econômicos estão em risco, quando as garantias da reprodução de seu poder se fragilizam? Por que não jogar o jogo, aliar-se, vencer e, gradualmente, produzir espaços de liberdade e independência, até reverter a correlação de forças, em todos os níveis? As dúvidas eram razoáveis, suscitavam conclusões que pareciam sensatas. Entretanto, elas serviram a um projeto que falhou, faliu, trouxe o estado do Rio até aqui, gestou a hegemonia bolsonarista. Esse projeto legitimou e expandiu o poder do milicianato político. Conforme sustento em “Escolha sua distopia ou pense pelo avesso”, o bolsonarismo é a superestrutura da ordem que descrevi. Portanto, muito do que nos foi vendido sob o título “realismo político”, ao longo das décadas, desde o retorno das eleições, em 1982, foi apenas capitulação. A sociedade quer mudança; em todos os níveis, não crê na ordem institucional estabelecida, atravessada por desigualdades abissais, repleta de iniquidades, desde a exploração do trabalho à hipocrisia oficial, da privação de serviços públicos à insegurança cotidiana. Os tentáculos do clientelismo armado e despótico não seriam opressivos e, portanto, não deveriam fazer parte da realidade a destruir? Como seria então possível afirmar que esses novelos tirânicos locais constituem a infraestrutura política do bolsonarismo, cuja cosmologia aponta exatamente para a urgência “revolucionária”? A resposta: se a regra é a força, se o padrão, o princípio, a lógica, o imperativo, o que determina a experiência rotineira, é a força, o predomínio da força; se a força é a natureza mesma que dita os limites e o horizonte do que nos é dado viver, se é a força que faz e desfaz a realidade em que habitamos, então se trata não de suprimi-la ou substituí-la por mediações institucionais ou legais, mas de dirigi-la, de disputar sua orientação, de submetê-la a uma força maior, e esta força maior, superior, seria tão positiva quão mais comprometida com a obediência à força suprema, divina. O capitalismo, como exercício de exploração, se impõe no osso, cada vez com menos mediações jurídico-políticas e culturais, em ambiente público — este ambiente, por sua vez, tem sido velozmente ocupado e transformado pela comunicação algoritmizada. O predomínio direto da força está presente desde o crescimento do milicianato fluminense até a ampliação do âmbito de atuação do PCC e do chamado crime organizado, assim como, globalmente, guardadas as especificidades, pelas ações belicistas que marcam a presidência imperial de Trump. Contemplamos, dia a dia, a derrocada das regulações internacionais, que, mesmo débeis, mediavam conflitos geopolíticos. Gaza e Trump são versões do poder assumido em sua plenitude sanguinária, são o elixir da barbárie: genocídio sem disfarce e truculência verbalizada sem pudor. Se a economia havia sido subtraída do alcance da política democrática, sob o neoliberalismo, convertida em tema técnico exclusivo para tecnocratas e seus patrões, agora a própria política vem sendo subtraída da pauta do possível, como se já não fosse um mecanismo real. A ideologia como máscara do interesse se desconstitui e o jogo se reduz à exibição despudorada das motivações, prescindindo de “razões” ou justificativas. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Considerando sua análise em Crânio de Vidro do Selvagem Digital, de que maneira a “Governança Algorítmica” opera uma captura do Pneuma e da subjetividade política, transformando a mobilização social em um simulacro processado por silos digitais? “Crânio de vidro” é uma ficção, portanto não se trata propriamente de uma análise, mas de uma elaboração literária de temas que são também políticos e históricos. Transportando a ideia de pneuma para as ciências sociais, talvez pudéssemos traduzir a categoria clássica por cultura, subjetividade ou, melhor ainda, agência. Pois bem, se for assim, eu diria que a agência humana (e não apenas) está em disputa e é alvo da voracidade do capital de nuvem, em acumulação pelas big techs (o “cloud capital”, como diria Varoufakis), as quais se expandem pelo campo da inteligência artificial. Está em jogo quase tudo. A nós, militantes e pensadores de esquerda, socialistas, que ansiamos por uma experiência melhor pós-capitalista, resta estender o que cabe na palavra “tudo”, mas ainda não está lá. Os algoritmos não expropriam apenas nossas ideias e redefinem tempo e atenção, não apenas dirigem a agenda, os objetos do conflito e os termos em que ele se dará. Lembremo-nos: quem consegue definir o objeto da briga torna-se favorito a vencê-la. Os algoritmos atacam a linguagem, em especial a sintaxe, como bactérias devoram o corpo de que se alimentam. Atacam, devoram e expelem a sucessão, o scrolling, isto é, a sequência esvaziada tanto de conexão (laços lógicos conscientes ou inconscientes), tensão e imantação metonímica (que envolveria linguagens simbólicas e cosmologias), quanto de expansão significativa (imaginativa). Os algoritmos buscam substituir o investimento libidinal na estética (e no pensamento que supõe ou proporciona arquiteturas) pela produção de adição “química”, vício, adesão, descarga de adrenalina espasmódica e obsessão, ou compulsão à repetição. O perigo dá-se menos pela divulgação de ideias reacionárias, como nos velhos moldes da doutrinação ideológica, do que pelo estabelecimento de um redirecionamento psicossocial, por meio da consolidação de uma espécie de epistemologia orgânica, um modo de conhecer que envolve alteração bioquímica, hormonal, em que sujeito e objeto se atraem num circuito magnético inscrito em mecanismos programados circulares — ou espiralados. A colagem (a gestalt do scrolling) deixa de ser a virtude transgressora de vanguardas artísticas que subvertem a expectativa dogmática da unidade (e da identidade, com suas taxonomias derivadas) e se reduz à moenda antinarrativas, à devastação do potencial metonímico, à aniquilação da metonímia. Nesse caso, a hipótese é que, dissolvendo-se a metonímia, impõe-se o recalque à lógica do sensível, fonte da faculdade de fabular em conversa com o mundo. Como edificar mundos sem mitos? O alvo mais radical dos algoritmos é o mundo, ou melhor, é o potencial de fabricação de mundos. A política coletiva e transformadora assim se aniquila, reduz-se à resignação, à adaptação, ao realismo capitalista, como diria o saudoso Mark Fisher. O lawfare e a espetacularização do judiciário tornaram-se ferramentas globais de controle. Como a esquerda pode retomar a gramática do Direito sem cair na armadilha da “punitividade redentora” que muitas vezes alimenta o próprio fascismo que ela combate? Vivemos a era das guerras híbridas e o lawfare se converteu em instrumento não só de destruição de reputações e carreiras políticas, como de neutralização político-institucional de inimigos. Suspeições se transformam em acusações e acusações em condenações antecipadas. Nesse sentido, as chamadas “lacrações” acabam sendo, mesmo involuntariamente, variações digitais da mesma dinâmica perversa. Um boato, uma declaração, uma foto ou vídeo — hoje, facilmente manipulável —, uma palavra, o juízo de um crítico, tudo isso pode ser rapidamente convertido em caso explosivo, que se alastra até inviabilizar eventual desmentido posterior, mesmo que factualmente amparado. No Judiciário e na esfera policial, o processo, politicamente orientado, transcende o pior pesadelo kafkiano, como vimos na Lava-Jato. A mídia corporativa, assim como os canais atuantes na internet, recebia, diariamente, vazamentos seletivos e os divulgava como pauta prioritária, conferindo estatuto de veracidade incontestável a cada capítulo da série, o que precipitava ilações e antecipava conclusões, tomadas como irreversíveis. O juiz-herói protagonizava um épico, vendido no varejo em peças sucessivas, como folhetins. Ele induzia passos investigativos e se aliava a promotores, os quais, mesmo sem provas, avançavam pela via punitiva para demonstrar, retrospectivamente, a correção de suas convicções, como admitiam. Prendia-se para extrair confissões “espontâneas” e delações. Deixava-se de lado quem se escolhesse proteger e se investia contra os alvos a demonizar, desmoralizar e excluir da arena política. O objetivo principal era impedir a candidatura de Lula à presidência, em 2018, quando ele era o franco favorito em todas as pesquisas de intenção de voto, o que se logrou realizar, graças à chantagem do comandante do Exército, melancolicamente aceita pelo STF. Cito esses fatos porque eles mostram quão falacioso é o argumento de que nossas instituições democráticas funcionam, ou seja, como se fossem suficientes para conter o ímpeto golpista da extrema direita. As instituições são tripuladas por pessoas que não são dissociadas das forças que se chocam na sociedade. Elas e sua condução estão em permanente disputa. Portanto, devemos concluir que o Estado democrático de direito não é uma configuração formal estática e estável, alheia aos conflitos político-sociais. É um processo cujo sentido prático, na história, resulta da composição entre os fatores que dão corpo e rumo à hegemonia. Claro que há mediações, o Direito e o Judiciário não são meras extensões das contendas ideológico-políticas. Mas o primeiro obstáculo a superar, para que se evite a repetição do que aconteceu no Brasil, levando ao poder um movimento neofascista que esteve à beira de golpear a democracia e dominar o país, é a visão reificada da Justiça e do caráter ahistórico do Direito. Existe uma tensão entre a ética da compaixão e a barbárie técnica. Como o intelectual público pode atuar como um “anteparo” contra o apagamento da memória social em um contexto no qual o esquecimento é uma política de Estado deliberada? Acredito que, além de outras missões que porventura assuma, a tarefa de qualquer pessoa politicamente engajada, comprometida com a transformação da sociedade, cuja voz seja audível, além das fronteiras da vida privada — e hoje há meios para fazer-se ouvir muito além do jardim —, seja dispor-se a colaborar para a formação e expansão de um ecossistema interlocucionário aberto, arejado, criativo e reflexivo. Mais que um partido ou uma corrente de opinião — a esquerda é pródiga em gerar linhas, vias, linguagens e estilos —, acho que o mais importante seria ajudar a criar e fecundar um campo dialógico de liberdade, ampliação e fortalecimento de laços e de pensamento crítico, ligado à promoção de ações práticas. Creio que devemos evitar fazer o jogo do fracionamento irremediável, tornando-nos canais para o trânsito do ódio e da divisão. O comportamento judicativo e hierarquizador, que classifica e exclui, que pune a divergência, humilha e hostiliza a diferença, é o vírus pandêmico promotor da impotência coletiva. Tratar a diferença com respeito, escutar, ler o Outro, levar em conta, a sério, diferentes perspectivas: isso é, a meu ver, realmente revolucionário. Pode soar a conselho de um velho moralista decadente, um ancião pequeno-burguês pedindo calma urgente, como diriam amigos de um de nossos melhores podcasts — e talvez seja isso mesmo. Mesmo assim, insisto nessa toada. E a memória, ante a violência que ameaça cancelá-la? Ela precisa ser cultivada sempre, com cuidado e coragem, perseverança, mas só se salvará do esquecimento se for coletivizada, se for acolhida e alimentada em um ambiente plural por uma rede intersubjetiva, em um ecossistema prático-político tecido por disposições da philia, visceralmente avessa ao pugilato fratricida que com tanta frequência nos separa e dilacera. A prisão de Rivaldo Barbosa — o delegado que recebeu as famílias das vítimas no dia seguinte ao crime — parece ser a materialização definitiva da sua tese sobre a “profundidade da captura de instituições do Estado”. Se a transição democrática não chegou à Baixada, como o senhor aponta na nossa entrevista, a condenação dele prova que o ‘gangsterismo mafioso’ não apenas protegeu os mandantes, mas operou a própria arquitetura da impunidade por oito anos? Estamos diante do colapso final da ilusão de que as instituições ‘funcionam’ no Rio? Antes da prisão de Rivaldo Barbosa, outros três chefes da polícia civil foram presos por crimes gravíssimos, assim como vários oficiais superiores da PM. Nem por isso a ilusão colapsou. Nada mais resiliente que a ilusão. Sobretudo quando fabricada pela coalizão criminosa fluminense — com seus escritórios espalhados pelo organograma oficial. Cada evisceração institucional é sempre apenas um “caso isolado” e… vida que segue. Quando o chefe de uma instituição policial chega a ser preso, a própria instituição deveria ser submetida a uma reorganização radical. Não porque todos os profissionais estivessem comprometidos, de modo algum, mas porque segmentos importantes necessariamente estavam e cada prisão desse porte demonstra haver mecanismos internos vulneráveis à apropriação criminosa. Mecanismos orgânicos que viabilizam a ascensão ao poder de agentes criminosos e que se fortalecem sob a liderança nefasta. Mecanismos que estão ativos e “funcionam” de novo e de novo. Nas declarações oficiais corporativistas e defensivas, todos esses escândalos foram tratados, insisto, como “casos isolados”, “desvios de conduta” já corrigidos. Aqui se justifica o clichê: não se extirpa um tumor num gesto cirúrgico único e se manda o paciente para casa, são e salvo. Há um corpo que gera o núcleo patológico e que sofre seus efeitos. É preciso cuidar do corpo. E o tratamento, sobretudo quando há recidiva, tem de ser radical. Ou condenaremos a democracia a cuidados paliativos, à espera da morte lenta. Para quem acompanha de perto as relações entre crime, polícia, Justiça criminal e política, no estado do Rio de Janeiro, o colapso da ilusão de que as instituições funcionam já aconteceu faz tempo, muito tempo. Se é que em algum momento chegou a haver ilusão. Esperança no futuro, sim, ilusão quanto à realidade presente não creio que tenha havido, porque os dados sobre os envolvimentos degradantes sempre foram muito eloquentes. Mas é preciso cuidado com declarações peremptórias e genéricas: o que significa dizer que uma instituição funciona? Que ela cumpre a função a que se destina, segundo determinações constitucionais ou ordenamentos normativos específicos. A função se efetiva pelo cumprimento de objetivos, mas tanto o grau de efetividade quanto o entendimento dos objetivos são submetidos a crivos interpretativos, os quais, por sua vez, dependem de valores, crenças, ideologias e outras gramáticas culturais, ligadas a interesses, emoções e experiências, vividas no âmbito de classes e outras circunscrições sociológicas. Portanto, o funcionamento de cada instituição em cada momento histórico deve ser examinado com lupa informações empíricas e contextualizações analiticamente produzidas. Feitas essas ressalvas e me rendendo a um nível inevitável, e razoável, de reducionismo, eu diria que as instituições jurídico-políticas e aquelas inscritas no campo da segurança pública não cumpriram suas finalidades elementares e, nesse sentido, não funcionaram, a despeito de algumas conquistas e do empenho corajoso de tanta gente respeitabilissima. Gente como a juíza Patricia Acioli e a vereadora Marielle Franco. Elas estavam empenhadas em cumprir seus respectivos deveres institucionais e foram barbaramente assassinadas por agentes do Estado (ou ex-agentes). Os casos emblemáticos dessas mulheres extraordinárias — não por acaso eram mulheres — demonstram que instituições não são máquinas que funcionam ou não funcionam: são espaços de conflito e disputa, cujas dinâmicas sofrem impulsos regressivos ou democratizantes, de acordo com correlações internas de forças, de caráter intrinsecamente político. O senhor define o bolsonarismo como a ‘superestrutura da ordem’ miliciana. Com os Brazão condenados, o foco se desloca inevitavelmente para a vizinhança do Vivendas da Barra e para as digitais políticas que apagaram registros e obstruíram o caminho da justiça. Na sua visão, essa condenação é o teto da investigação ou ela é apenas o primeiro tijolo caído de uma estrutura que conecta o ‘milicianato político’ local à geopolítica do medo que tomou o Palácio do Planalto em 2018?” Não creio que tenha sido o primeiro tijolo caído. Outros tombaram antes. Por outro lado, o que justificaria a suposição de que o teto tenha sido alcançado? A máquina venal de morte e lucros, articulada às dinâmicas do capital, há muito tempo vem atuando e se reproduzindo em escala crescentemente ampliada, incorporando núcleos de poder. Para respeitar a metáfora enunciada na pergunta, poderíamos dizer que tijolos caem e outros chegam à obra que edifica a conjunção carnal obscena entre agentes do Estado, crime e capital. O general interventor ficou um ano à frente da segurança do Rio de Janeiro, em 2018. Saiu sem esclarecer o assassinato de Marielle. Pior: sem notar que alguma coisa não andava bem no circuito das investigações. Incompetência extrema ou negligência criminosa? A prisão do chefe da polícia civil deveria nos levar a exigir, insisto, a reformulação radical da instituição que ele liderou, mas também a cobrar das instituições, nesse caso principalmente do Ministério Público, a responsabilização dos superiores, isto é, da outra parte do corpo a que me referi. O delegado preso, Rivaldo, não era o vértice da linha de comando. A chefia é parte do corpo policial, mas a cabeça era o interventor. Não estou dizendo que o general interventor esteja envolvido no crime, estou afirmando que ele não cumpriu seu dever — e precisa ser responsabilizado por isso, ao tolerar o empastelamento das investigações — o qual, aliás, como demonstrou o julgamento no STF, não se limitou ao homicídio de Marielle e Anderson. Após tamanha demonstração de irresponsabilidade, o interventor foi nomeado ministro-chefe da Casa Civil, no governo de Bolsonaro, que ainda o convidou a dividir com ele a chapa presidencial, em 2022. O que é mais escandaloso (apesar de naturalizado)? Um presidente premiar a negligência criminosa ou um general aceitar servir a quem construiu sua carreira à sombra da parceria com milicianos? Sabem por que autoridades fluminenses têm combatido com tanto ardor a ADPF 635 (cuja finalidade é apenas exigir respeito à Constituição e ao bom senso), sob a conversa fiada de que amarra as mãos da polícia? A resposta me parece óbvia: se o Supremo ampliar o espectro de observação sobre o que acontece na segurança pública do Rio, corre-se o risco de que outras mãos sejam, não digo amarradas, mas algemadas. A condenação unânime no STF prova que o caso Marielle não foi um ‘erro’ do sistema, mas a prova de que o Estado do Rio funciona como a infraestrutura logística do milicianato? A presença de Rivaldo Barbosa no centro do plano revela que a eliminação política se tornou um ‘procedimento administrativo’ do neofascismo fluminense, operado de dentro do gabinete que deveria investigar? Ou seja: Marielle foi morta não ‘apesar’ do Estado, mas ‘pelo’ Estado como arquiteto do crime? Concordo, desde que se evite a reificação do conceito “Estado”, que não é um sujeito monolítico, mas um complexo contraditório, tensionado por conflitos e que opera com agências diversificadas e dissonantes. As forças regressivas estão vencendo, mas a luta não acabou. Muita gente boa está por aí. E nós, afinal de contas, ainda estamos aqui. Devemos, à memória de Patricia e Marielle, resistir à capitulação — a qual, aliás, está sendo ensaiada nos discursos niilistas e no “pragmatismo político” eleitoral. Sem publicidade ou patrocínio, dependemos de você. Faça parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: apoia.se/outraspalavras