Resumo objetivo:
Apesar de ter alta aprovação (48%), o governador Tarcísio de Freitas não possui uma marca clara de gestão em São Paulo, sendo sua principal ação visível um foco em privatizações — que já geram reclamações da população. Analistas apontam que seu apoio se sustenta mais por identificação ideológica com a extrema direita do que por realizações, em um cenário onde o eleitorado de centro-direita migrou do PSDB. Paralelamente, a provável candidatura de Fernando Haddad (PT) é vista como estratégica para o partido disputar o projeto político e mobilizar sua base, mesmo em desvantagem nas pesquisas.
Principais tópicos abordados:
1. Aprovação e falta de marca política do governador Tarcísio.
2. Críticas às privatizações e apoio baseado em ideologia.
3. Realinhamento político pós-PSDB e ascensão da extrema direita.
4. Estratégia eleitoral do PT com a candidatura de Haddad.
A menos de oito meses das eleições de 2026, o cenário político no estado de São Paulo apresenta uma contradição que chama a atenção de analistas: o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) aparece com 48% de aprovação em pesquisa recente, muito próximo de ter metade da população paulista ao seu lado, mas sem que se possa apontar uma marca clara de seu governo.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a cientista política e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Rosemary Segurado aponta que Tarcísio pouco fala da sua gestão e de projetos que possam se tornar sua marca no governo de São Paulo. “Talvez a gente destacaria algo que ele faz questão, e essa, sim, ele levou adiante, que são as privatizações, que já têm causado problemas para a população, como na questão da água, com queixas sobre abastecimento e qualidade do serviço.”
Natural do Rio de Janeiro (RJ), Tarcísio foi eleito em 2022 na esteira do bolsonarismo, derrotando o então candidato Fernando Haddad. Para Segurado, seu governo funciona como “uma espécie de estágio intermediário para um projeto que ele tinha, que era a presidência da República”, projeto que, ao menos por ora, foi arquivado diante da decisão da família Bolsonaro de lançar Flávio Bolsonaro como candidato à sucessão presidencial.
A professora da PUC-SP oferece uma análise histórica para explicar o atual cenário político paulista. Durante aproximadamente 25 anos, o estado foi conformado politicamente pelo PSDB, partido criado em 1988, que teve forte presença no estado e projeção nacional. A polarização política, tanto no estado quanto no país, se dava em torno de PT e PSDB.
“Quando nós temos a emergência da extrema direita e a liderança do ex-presidente Bolsonaro, esse cenário começa a se movimentar”, explica Segurado. “O cálculo do PSDB foi que abraçando ou apoiando ou indo ao encontro da extrema direita, isso lhe favorecia. O que nós vimos é que não só não favoreceu, como foi um dos aspectos responsáveis pela destruição do partido em âmbito nacional.”
No caso específico de São Paulo, esse movimento jogou o eleitorado de centro e centro-direita para a extrema direita. “Não consegue mais retomar o caminho, sem volta para o PSDB”, avalia. O resultado é um eleitorado que, principalmente no interior, sustenta o governo Tarcísio não por suas realizações, mas por identificação ideológica. “É um pouco este cálculo: menos medidas de governo, das políticas, dos projetos para o estado, mas uma questão ideológica: ‘Tarcísio não está fazendo um bom governo, mas ele é nosso'”, resume a cientista política.
O papel da candidatura de Haddad
Diante desse cenário, o ministro Fernando Haddad (Fazenda) deve deixar o cargo na próxima semana para se preparar para o período eleitoral, com tudo indicando que será o candidato do PT ao governo do estado, mesmo diante da desvantagem apontada pelas pesquisas.
Para Segurado, a decisão do partido é acertada por múltiplas razões. “Não é possível a gente pensar uma eleição no estado da importância do estado de São Paulo sem uma candidatura do Partido dos Trabalhadores. É o cálculo correto do partido, inclusive para fazer o debate de projeto político, fazer o debate sobre o que vai estar em jogo nessa eleição.”
Além disso, a candidatura permite manter os eleitores que votam no partido — pessoas que “podem não ser exatamente petistas, mas têm uma simpatia pelas políticas do PT”. E há ainda a dimensão da chamada “política de chapa”: a disputa não envolve apenas o governo do estado, mas também as vagas para o Senado, para deputados federais e deputados estaduais.
“Eu queria chamar a atenção para o papel que o Legislativo cada vez mais vem ocupando na disputa política”, alerta a professora, mencionando o debate em torno das emendas parlamentares. “O que nós estamos observando é uma desconfiguração do que é o processo de política pública para um parlamentar que pede uma emenda para si, que muitas vezes não está associada à implantação de um serviço necessário, mas mais para que ele tenha méritos e vá fazer campanha nas suas bases.”
Haddad carrega um histórico de derrotas em eleições importantes: perdeu a reeleição à prefeitura de São Paulo em 2016, a presidência da República em 2018 para Jair Bolsonaro e o governo de São Paulo em 2022 para Tarcísio de Freitas. Ainda assim, é visto como o grande sucessor natural do presidente Lula dentro do PT.
Segurado faz questão de contextualizar cada uma dessas derrotas. “Primeiro, eu queria chamar atenção para um fator: o presidente Lula perdeu quatro eleições antes de ser eleito. Isso é do jogo da política, não necessariamente significa fraqueza porque perdeu.”
Sobre 2016, ela lembra que Haddad tinha uma administração relativamente bem avaliada, mas o contexto era de um dos piores anos de ataques ao PT, com o impeachment de Dilma Rousseff. “O partido foi tão criminalizado perante a opinião pública que perdeu 70% das prefeituras que tinha na eleição anterior.”
Em 2018, o cenário era de radicalização da extrema direita, com Lula preso. Segurado ressalta que o presidente “só foi preso para não ser candidato, porque certamente ganharia aquela eleição”. Haddad assumiu a candidatura no meio da campanha, num processo de difícil compreensão para o eleitorado.
“Não estou dizendo isso para dizer que é uma eleição fácil”, pondera. “Mas nós temos que analisar cada um desses processos eleitorais com as circunstâncias que os moveram, com o contexto político existente, para que a gente possa ver o tamanho dessa liderança.”
Para a cientista política, os meios de comunicação cometem um erro ao tratar a eleição como se já estivesse decidida. “A gente vê quase uma espécie de consenso numa abordagem dos grandes meios de comunicação como se quase não precisássemos ter eleição porque o partido tá renegado. Isso não é verdade.”
“Quando começa o debate eleitoral, quando começa a confrontação de ideias e de projetos, a candidatura do Haddad pode se mostrar viável e pode ser reconhecida como uma alternativa para a população do estado de São Paulo. É uma eleição difícil? É. Mas é o jogo só começando”, conclui.
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