Uma pesquisa eleitoral revela que ateus e agnósticos são o segmento mais coeso, com mais de 80% de intenção de voto em Lula, superando até a fidelidade dos evangélicos a Flávio Bolsonaro. O artigo argumenta que essa coesão reflete uma rejeição difusa à mistura entre religião e política, um sentimento que também cresce entre parte dos próprios religiosos. A análise sugere que, para Lula, explorar essa demanda por separação entre fé e voto pode ser mais estratégico do que insistir em apelos religiosos diretos.
Principais tópicos abordados:
1. Preferência eleitoral por perfil religioso: dados de intenção de voto de católicos, evangélicos, ateus e agnósticos.
2. Análise política da coesão dos ateus/agnósticos: interpretação dos valores (rejeição à mistura religião-política) que geram seu voto massivo.
3. Crítica à estratégia eleitoral religiosa: discussão sobre o esgotamento do uso da fé como ferramenta política e a demanda por separação entre os campos.
O segmento religioso mais fiel a um candidato nestas eleições não são os evangélicos a Flávio Bolsonaro, mas sim os ateus e agnósticos a Lula. Isso é o que revela a pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada na última semana de fevereiro. Lula deveria dar ouvidos ao recado que esse dado traz.
Em todos os cenários de candidatos testados pela pesquisa, três dados se repetem: mais de 50% dos católicos têm intenção de voto em Lula, mais de 60% dos evangélicos votam em Flávio Bolsonaro e mais de 80% dos ateus e agnósticos, em Lula. No campo eleitoral, quando ocorre esse tipo de massificação na intenção de voto de um único segmento, a questão que se impõe é: que tipo de valor está produzindo uma liga tão coesa e como essa liga pode ser explorada?
à certo que ateus e agnósticos no Brasil formam um grupo com caracterÃsticas muito próprias. Trata-se de um grupo relativamente pequeno, que não se reúne como comunidade e pouco se articula politicamente. Ao mesmo tempo, não necessariamente este é um grupo com poucas convicções polÃticas. Muito pelo contrário.
Há mais de uma década, pesquisas de opinião têm demonstrado a coesão ideológica de ateus e agnósticos em eleições ao redor do mundo. Para ficar em apenas um exemplo, nos Estados Unidos nenhum grupo é tão massivo, ideologicamente, em suas preferências polÃticas quanto os ateus e agnósticos, que se declaram democratas na casa dos 82% e 76%, respectivamente.
A questão não é o volume de votos que esse grupo pode levar para Lula, mas sim o tipo de sentimento polÃtico que os faz convergir. E esse sentimento pode ser sintetizado em duas camadas. A primeira é a recusa ativa à mistura entre religião e polÃtica. A segunda é a recusa de tratar valores tradicionais como se fossem cristalizados e permanentes. Nesta coluna, concentro-me na primeira camada âa segunda merece texto só para ela.
Ateus e agnósticos consolidam, nessa intenção de voto massiva, um sentimento difuso que está muito além deste segmento especÃfico. Sobretudo desde 2010, a disputa eleitoral no Brasil tem, no eixo da religião, um de seus principais campos de força. Intensamente explorado pelos candidatos que buscam atrair votos apelando aos sÃmbolos e à gramática religiosa, esse tipo de debate também produz o esgotamento e amplifica a rejeição de seu uso como estratégia eleitoral.
E não são só os ateus que recusam essa mistura. Pesquisas têm mostrado que os próprios religiosos estão cada vez mais desconfiados da instrumentalização de sua fé por parte de polÃticos. Em 2024, por exemplo, participei do desenho de uma pesquisa realizada pelo Datafolha sobre o perfil dos evangélicos na cidade de São Paulo, três em cada quatro evangélicos (76%) se disseram contra a politização do púlpito.
A dificuldade de Lula com o campo religioso, especialmente com os evangélicos, é sabida. A esta altura, não há qualquer sinal de que a comunicação com esse grupo esteja melhorando ou de que a estratégia de aparecer em cultos, invocar a BÃblia e buscar a bênção de lideranças evangélicas esteja produzindo alguma reversão na intenção de voto. O que os 83% de ateus revelam, e o que os 76% de evangélicos avessos ao púlpito polÃtico confirmam, é que existe uma demanda difusa por separação entre fé e voto que é mais promissora para Lula do que qualquer culto que ele venha a frequentar.
A lição dos ateus para a disputa religiosa das próximas eleições é que não é só associar religião e polÃtica que gera votos. Afastar as duas coisas pode ser a melhor estratégia.