Resumo objetivo:
Especialistas apontam que a guerra no Irã está provocando um aumento significativo no preço do petróleo, devido aos ataques iranianos a rotas marítimas e instalações energéticas no Golfo Pérsico. O bloqueio no Estreito de Ormuz já reduziu drasticamente o fornecimento global, e espera-se que os preços elevados se mantenham ou subam ainda mais. No Brasil, a situação é agravada pela perda de controle sobre os repasses aos consumidores, em parte atribuída à privatização da BR Distribuidora.
Principais tópicos abordados:
1. Impacto da guerra no Irã nos preços globais do petróleo e gás natural.
2. Causas do aumento: ataques iranianos a infraestrutura energética e bloqueio no Estreito de Ormuz.
3. Consequências econômicas globais, incluindo risco inflacionário.
4. Efeitos no Brasil, com menção à privatização da BR Distribuidora como fator que reduz o controle governamental sobre os preços internos.
Guerra no Irã pode fazer preço do petróleo aumentar ainda mais, preveem especialistas
Igor Fuser explica alta do combustível e Pedro Faria aponta como privatização da BR, feita por Bolsonaro, diminui controle do governo sobre repasses ao consumidor
Um dos efeitos imediatos e abrangência global da Guerra no Irã é o aumento do preço do petróleo. Neste fim de semana, o valor do combustível chegou a quase US$ 120, caindo para US$ 110 nesta segunda-feira (09/03). A elevação se dá no contexto da retaliação do Irã às instalações energéticas dos países do Golfo Pérsico, que possuem bases norte-americanas.
Para explicar o contexto deste aumento e, particularmente, os riscos de uma onda inflacionária nas economias mundiais, incluindo a brasileira, Opera Mundi conversou com o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Igor Fuser, e com o economista e ex-petroleiro, Pedro Faria.
O professor Igor Fuser explicou que o impacto da guerra sobre o mercado global do petróleo e do gás natural decorre dos ataques iranianos aos navios-tanques no Estreito de Ormuz e aos bombardeios do país contra a instalações petrolíferas nos países do Golfo Pérsico.
“Formalmente neutros no conflito, esses países foram envolvidos no enclave devido à presença de bases militares dos Estados Unidos em seu território”, aponta Fuser, ao avaliar que o impacto da alta do petróleo, agora, dependerá “da capacidade militar dos Estados Unidos e de Israel de reduzir os bombardeios iranianos contra os países vizinhos ou de uma decisão unilateral do Irã”.
‘Altas devem continuar’
O bloqueio estratégico iraniano já impediu o fornecimento de 15 milhões de barris de petróleo diários, o equivalente a 30% de todo o petróleo exportado por via marítima no mundo. Também sofrem impacto as exportações de gás natural liquefeito (GNL), após a suspensão do fornecimento pelo Catar, responsável por 20% das exportações globais de GNL.
Fuser detalhou que a suspensão de petróleo devido ao bloqueio de Ormuz, ocorre porque esses países não têm lugar para armazenar o combustível, “pois os tanques disponíveis já estão praticamente cheios”.
Já em relação ao gás natural liquefeito (GNL), as usinas onde o gás é processado devem levar semanas ou até meses para retomar seus volumes habituais, “devido à complexidade do processo de liquefação do gás natural e do risco de danificar os equipamentos na tentativa de acelerar o fornecimento”.
Frente a este cenário, “os preços se manterão elevados no âmbito global e podem aumentar ainda mais”. Ele avalia que a guerra “deverá perdurar por várias semanas”. Tudo depende “da capacidade maior ou menor do Irã de afetar os fluxos e a produção de combustíveis; e de infringir o máximo de danos não só aos seus inimigos declarados, Estados Unidos e Israel, mas também aos países árabes do Golfo e aos mercados globais de combustíveis”.
Em sua avaliação, a estratégia iraniana é de alto risco político. “O Irã deixa claro que entende a ofensiva de seus inimigos como uma ameaça existencial, ou seja, uma luta de vida ou morte pela sua sobrevivência”, afirma. Ao mesmo tempo, compreende que os países do Golfo, ao permitirem o uso de bases estadunidenses em seus territórios contra o Irã e o tráfego de aviões de combate dos Estados Unidos em seu espaço aéreo, estão participando da guerra no campo inimigo.
“A reação iraniana, ao atingir alvos nos países vizinhos além das bases norte-americanas lá instaladas, empurra esses países a um envolvimento maior no conflito, ao lado dos Estados Unidos e de Israel, aprofundando o isolamento do Irã no contexto regional e dificultando a participação daqueles mesmos países como mediadores para um eventual cessar-fogo ou para negociações de paz”, avalia.
Efeitos no Brasil
Os maiores atingidos, acrescenta o professor, “são os países asiáticos, principalmente China, Japão, Índia e Coreia do Sul; além da Europa fortemente atingida pela alta dos preços, que no caso do GNL chega a 50% em relação aos preços anteriores do conflito”.
No caso do Brasil, o professor da UFABC avalia que há impactos positivos em alguns setores da economia e negativos em outros. “A Petrobrás e seus acionistas estão se beneficiando da alta dos preços internacionais do petróleo, já que boa parte da produção brasileira é exportada”, destacou.
Ele mencionou que em 2025, o Brasil exportou US$ 44,6 bilhões de dólares em petróleo bruto, “o que tornou essa commodity o produto de exportação mais valioso na balança comercial brasileira”, destacou.
A alta também “deve elevar o saldo da balança comercial e aumentar os ganhos não apenas dos acionistas da Petrobrás, o que inclui a União e os sócios privados, mas também os ganhos de várias instâncias estatais com os royalties e impostos nos derivados da indústria petrolífera”.
Em sua avaliação, por enquanto o governo está conseguindo absorver o aumento dos preços sem repassá-los aos consumidores no caso dos principais derivados, que são a gasolina e o diesel. No entanto, “com a subita das cotações internacionais, o repasse acabará acontecendo”.
Os efeitos disso? “Alta da inflação e, portanto, ter um impacto político sobre o comportamento dos eleitores na eleição presidencial”, alertou Fuser.
Repasses nos preços
O economista Pedro Faria explicou como esses repasses irão afetar a vida dos brasileiros. O Brasil depende da importação de diesel em menor quantidade, gasolina um pouco mais e também de fertilizantes que são produzidos a partir do gás natural. “As regiões que dependem de importado, especialmente a região Norte, vão sentir esse aumento”, destacou.
“O distribuidor, vendo que o concorrente importado está aumentando o preço, encontra uma oportunidade de aumentar preço também. Isso tem um impacto generalizado”, salientou, ao advertir que isso tem peso no índice de inflação.
“Além do efeito direto da inflação no combustível, que a gente usa para abastecer os veículos, há um impacto indireto por meio de outros itens que compõem a cesta de inflação”. Ele citou o exemplo do transporte e dos alimentos, que dependem muito do preço do diesel ou do preço dos fertilizantes.
Petrobras
Questionado sobre a capacidade de atuação da Petrobras na contenção dessa alta, Faria disse que, hoje, ela está bastante limitada. Um dos motivos foi a privatização da BR Distribuidora, realizada pelo governo Bolsonaro, em 2022.
“A BR dava à Petrobras o poder de segurar o preço dos combustíveis na ponta. Como a maior parte do combustível vinha das refinarias da Petrobras, por meio da sua rede de distribuição, a empresa conseguia forçar seus concorrentes a manter o preço em linha, se não eles corriam o risco de perder mercado”, explicou.
Essa capacidade, ponderou, tinha um limite, mas conseguia segurar os preços. “Hoje, isso simplesmente não existe, porque a Petrobras não participa do mercado de distribuição, apenas vende o combustível na refinaria e as distribuidoras colocam o preço equivalente ao preço do importado”, destacou.
Além disso, acrescentou, há pouco motivo para Petrobras não por seu preço. “Como o preço na bomba vai aumentar, seguindo a alta do mercado internacional, deixar de aumentar os preços na porta da refinaria significa deixar de lucrar e arrecadar dinheiro para a União”, frisou.
O segundo motivo que bloqueia a capacidade da estatal de atuar neste contexto “é a Lei das Estatais de 2016, feita após o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, que limita a capacidade de todas as estatais de fazer política pública”.
A lei concebe uma estatal como empresa de economia mista que opera como privada. “Toda vez que a estatal for realizar uma política pública, como, por exemplo, subsidiar o preço de combustível, o governo tem que recompor o prejuízo que a estatal incorre ao realizar essa política pública”, explicou.
“A Petrobras não tem capacidade de subsidiar para segurar o preço de combustíveis, porque perdeu o controle da distribuição com essa lei das estatais e com a privatização da BR”, reiterou.
Ele também destacou que a empresa está operando suas refinarias com 98% de fator de utilização e não tem praticamente mais como aumentar a produção. “Quem compra da Petrobras não vai conseguir comprar mais para poder disputar o mercado e vai repassar o preço; nós já estamos com uma capacidade máxima de oferta”, afirmou.