Resumo objetivo:
O livro "Onde os corpos desaparecem" denuncia que a multiplicação de cemitérios clandestinos, especialmente na Baixada Fluminense, é uma tecnologia de repressão sistemática usada por milicianos e facções do tráfico. A prática tem o duplo objetivo de eliminar desafetos e remover vítimas das estatísticas oficiais de homicídios, mascarando a violência real. O estudo conecta essa prática a raízes históricas do país e a analisa como uma estratégia política para garantir a impunidade e o controle territorial.
Principais tópicos abordados:
1. Desaparecimento forçado como ferramenta: Uso sistemático de valas clandestinas por grupos armados para ocultar corpos e eliminar evidências.
2. Estratégia e objetivos: Prática visa garantir impunidade, controlar territórios e manipular estatísticas oficiais de violência.
3. Contexto geográfico e dados: Foco na Baixada Fluminense (com destaque para Duque de Caxias e Belford Roxo), apoiado em análise de denúncias.
4. Raízes históricas e consequências: Ligação com práticas de extermínio desde o período colonial e a ditadura, resultando na naturalização da violência e no abandono estatal.
A multiplicação de cemitérios clandestinos em cidades do Rio de Janeiro e outros locais do paÃs revela uma "tecnologia de repressão" de grupos armados para garantir a impunidade e o controle do território. à o que aponta o livro "Onde os corpos desaparecem", do sociólogo Augusto Perillo (UFRRJ), da editora Autografia.
A obra, fruto de uma pesquisa de mestrado coordenada pelos pesquisadores José Cláudio Alves e Nalayne Pinto, mostra que o desaparecimento forçado, especialmente na Baixada Fluminense, é utilizado de forma sistemática por milicianos e facções do tráfico. O objetivo é duplo: eliminar desafetos e remover as vÃtimas das estatÃsticas oficiais de violência.
"Esses espaços acabam se tornando o que caracterizamos como cemitérios ou valas clandestinas. Trata-se de uma categoria mais ampla, que engloba lugares destinados à ocultação de corpos", diz Perillo.
Na Baixada Fluminense, e em outros locais do paÃs, segundo o pesquisador, é comum o uso de rios, matagais, galpões abandonados, poços e terrenos baldios para esse fim.
O pesquisador analisou 14.935 denúncias feitas ao Disque Denúncia entre 2002 e 2021. Após excluir os casos que não se enquadravam como desaparecimento forçado, o estudo identificou 768 denúncias de valas clandestinas. As atualizações se restringiram até 2020.
Entre 2016 e 2020, Belford Roxo e Duque de Caxias foram as cidades da Baixada Fluminense que mais tiveram registros de valas clandestinas. A soma das denúncias dos dois municÃpios nesse perÃodo de quatro anos resultou no seguinte cenário: Duque de Caxias totalizou 96 valas clandestinas e Belford Roxo, 91.
O estudo conecta essa prática a raÃzes históricas do Brasil, desde o extermÃnio colonial até a ditadura militar (1964-1985). Segundo o autor, após a redemocratização do paÃs, militares envolvidos em práticas ilegais de repressão migraram ou compartilharam técnicas com o crime organizado, difundindo o desaparecimento como forma de combate.
"Hoje, embora haja um discurso de queda nos homicÃdios em vários estados, os registros de desaparecimento aumentam significativamente. Isso sugere uma possÃvel lógica: pessoas deixam de aparecer como mortas e passam a ser classificadas como desaparecidas", explica o pesquisador.
Um dos pontos que o livro propõe é o de resignificar o conceito de cemitério para estas covas clandestinas. A palavra "cemitério" carrega, segundo ele, também um componente religioso, de um sentido sagrado aos mortos.
"O que encontramos nesses contextos é exatamente o oposto: não há ritual nem dignidade, mas ocultação de cadáver e corpos humanos sendo descartados como lixo", diz o autor. "Prefiro 'vala clandestina' porque o termo evidencia essa dimensão de violência e desumanização, além de destacar o caráter polÃtico dessas práticas como forma de intimidação e demonstração de poder."
Para Adriano de Araujo, coordenador executivo da Associação Fórum Grita Baixada (AFGB), movimento social da Baixada Fluminense, que junto com um grupo de pesquisa da própria UFRRJ elaborou estudos sobre desaparecimentos forçados como uma das consequências da violência de Estado, os cemitérios clandestinos da região manifestam uma cruel estratégia.
"Essa 'geografia do crime' não apenas oculta corpos, mas enterra a memória e o direito ao luto, alimentando um imaginário de abandono onde a morte violenta é naturalizada. Esse estigma 'barateia' a omissão estatal, justificando o baixÃssimo investimento em perÃcia e investigação, o que acaba por chancelar a impunidade desses criminosos", diz o cientista social.