Resumo objetivo:
As exportações da China cresceram expressivamente (21,8% em dólares) nos dois primeiros meses do ano, elevando o superávit comercial a um recorde histórico para o período. O comércio com a ASEAN e a União Europeia expandiu-se, enquanto com os Estados Unidos houve queda acentuada (-16,9%), reflexo das tensões tarifárias recentes. O desempenho foi impulsionado principalmente pelas empresas privadas e por produtos de alto valor agregado, como os eletromecânicos.
Principais tópicos abordados:
1. Desempenho comercial recorde: forte crescimento das exportações e do superávit comercial.
2. Mudança geográfica nos parceiros: alta com ASEAN e UE, queda com os EUA.
3. Contexto de guerra comercial: impacto das tarifas elevadas e retaliações entre China e EUA.
4. Perfil dos agentes e produtos: liderança das empresas privadas e dos produtos eletromecânicos nas exportações.
As exportações da China cresceram 21,8% em dólares nos meses de janeiro e fevereiro deste ano em relação ao mesmo período de 2025. Em yuan, a variação foi de 19,2%, atingindo 4,62 trilhões de yuans (cerca de R$ 3,6 trilhões). A diferença entre os dois percentuais reflete a valorização da moeda chinesa frente ao dólar no período. O resultado levou o superávit comercial chinês a um nível recorde para os dois primeiros meses do ano.
Os dados foram divulgados nesta terça-feira (10) pela Administração Geral das Alfândegas da China, pouco mais de um ano após o início da política de tarifaços imposta pelo governo de Donald Trump, que chegou a taxar em 145% os produtos chineses em 2025.
As importações também cresceram 17,1%, totalizando 3,11 trilhões de yuans (R$ 2,36 trilhões). O saldo do comércio exterior reflete a continuidade de uma estratégia de diversificação de mercados que Pequim acelerou ao longo de 2025, em resposta às políticas de Washington.
Asean e Europa crescem; EUA recuam
O principal destaque entre os parceiros comerciais é a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). O comércio bilateral com o bloco atingiu 1,24 trilhão de yuans (R$ 943 bilhões), crescimento de 20,3% em relação ao mesmo período de 2025. Em segundo lugar, a União Europeia (UE) registrou volume de 998,9 bilhões de yuans (R$ 759,7 bilhões), alta de 19,9%.
Por outro lado, o comércio com os Estados Unidos caiu 16,9%, somando 609,7 bilhões de yuans (R$ 463,7 bilhões).
No auge do conflito comercial, após uma espiral de retaliações em abril do ano passado, Washington chegou a impor taxas de 145% sobre produtos chineses. Pequim respondeu com tarifas de 125% sobre importações estadunidenses. As negociações de maio de 2025, realizadas a pedido do governo norte-americano, resultaram em redução mútua, com os EUA baixando para 30% e a China para 10%, embora Trump tenha mantido taxas adicionais por outros pretextos, chegando ao total de 55%.
A queda no comércio com os EUA não é novidade. No primeiro semestre de 2025, as exportações chinesas para os Estados Unidos já haviam recuado 9,9%, e as importações, 7,7%. O economista Ding Yifang, pesquisador sênior do Instituto Taihe, explicou ao Brasil de Fato que “a China reforçou o controle sobre a exportação de terras raras para os EUA, isso causou muitos problemas na indústria manufatureira estadunidense, especialmente na automobilística”.
Ao finalizar o ano, a China teve um superávit de quase US$ 1,2 trilhão, o maior já registrado na história do país, segundo dados da Administração Geral das Alfândegas.
Empresas privadas e produtos de alto valor lideram alta
Entre os agentes do comércio exterior, as empresas privadas foram o segmento de maior crescimento. Seu volume de importações e exportações chegou a 4,51 trilhões de yuans (R$ 3,43 trilhões), alta de 22,8%. As empresas estrangeiras sediadas na China movimentaram 2,2 trilhões de yuans (R$ 1,67 trilhões), crescimento de 15,3%, e as estatais atingiram 1 trilhão de yuans (R$ 760,5 bilhões), com expansão de 7,4%.
Nos dois primeiros meses do ano, as exportações de produtos eletromecânicos, categoria que inclui equipamentos, veículos e eletrônicos, somaram 2,89 trilhões de yuans (R$ 2,20 trilhões), crescimento de 24,3%. Os produtos de trabalho intensivo, como têxteis e calçados, movimentaram 702,7 bilhões de yuans (R$ 534,4 bilhões), alta de 15,6%, enquanto as exportações agrícolas chegaram a 120 bilhões de yuans (R$ 91,3 bilhões), crescendo 9,7%.
Do lado das importações, os produtos eletromecânicos totalizaram 1,21 trilhão de yuans (R$ 920,2 bilhões), alta de 21,3%. O minério de ferro importado chegou a 210 milhões de toneladas, crescimento de 10%, e o petróleo bruto atingiu 96,9 milhões de toneladas, alta de 15,8% sobre o mesmo período de 2025.
Melhores condições para exportadores
No último dia 2 de março, a Administração Geral das Alfândegas realizou um encontro com representantes de dez empresas exportadoras e importadoras de diferentes setores e portes, além de duas câmaras de comércio. Na ocasião, a diretora-geral da instituição, Sun Meijun, afirmou que, em 2025, o comércio exterior chinês “avançou sob pressão, inovando e qualificando-se”, e comprometeu-se a ampliar a facilitação de comércio e melhorar o ambiente de negócios nos portos.
Sun Meijun também anunciou medidas para 2026, incluindo apoio ao comércio de produtos intermediários, ao comércio eletrônico transfronteiriço e ao comércio verde, além de aprofundamento da cooperação com parceiros internacionais em inspeção fitossanitária, reconhecimento mútuo de operadores econômicos autorizados (AEO, em inglês) e assistência legal. O plano faz parte das diretrizes do 15º Plano Quinquenal, que começa neste ano.
O resultado dos dois primeiros meses de 2026 confirma a tendência observada ao longo de 2025, quando as exportações gerais da China cresceram 7,2% nos cinco primeiros meses do ano, apesar do tarifaço. A maior parcela desse crescimento também havia sido puxada pela Asean e pela UE, que compensaram a queda no comércio bilateral com os Estados Unidos. A Asean, que se tornou o maior parceiro comercial da China em 2020, representou 16,8% do comércio exterior total do país ao longo de 2025.