Resumo objetivo:
Uma nova análise do The New York Times indica que fragmentos de mísseis encontrados no local de um ataque no sul do Irã, que atingiu uma base naval e uma escola primária, possuem marcações e números de série consistentes com um míssil de cruzeiro Tomahawk fabricado nos EUA. Embora o Pentágono tenha divulgado vídeos de navios americanos disparando Tomahawks contra o Irã na mesma data, o ex-presidente Donald Trump sugeriu, sem apresentar provas, que o ataque à escola poderia ter sido realizado pelo próprio Irã — hipótese considerada improvável, já que o país não possui nem a tecnologia para operar esses mísseis.
Principais tópicos abordados:
1. Evidências da origem do ataque: Análise de fragmentos com marcações de um míssil Tomahawk dos EUA.
2. Impacto humanitário: Ataque a uma escola primária, com relatos de dezenas de crianças mortas.
3. Controvérsia e alegações contraditórias: Posição oficial dos EUA (implícita nos vídeos) versus as declarações de Donald Trump, que atribuiu o ataque ao Irã.
4. Capacidades técnicas: Explicação de por que a posse ou uso de um Tomahawk pelo Irã é tecnicamente inviável.
Fragmentos retorcidos de mÃsseis que supostamente seriam do ataque que atingiu uma base naval e uma escola primária no sul do Irã no dia 28 de fevereiro trazem marcações de um mÃssil de cruzeiro dos Estados Unidos, de acordo com nova análise do The New York Times.
Fotos dos fragmentos foram publicadas no Telegram pela emissora estatal do Irã e descritas como mostrando "os restos do mÃssil americano que caiu sobre as crianças da escola de Minab", o nome da cidade atingida.
Nas imagens, os destroços estão expostos em uma mesa próxima à estrutura da escola primária Shajarah Tayyebeh, cuja maior parte foi destruÃda em um ataque, segundo análise anterior do Times. Pelo menos 175 pessoas, a maioria crianças, teriam sido mortas.
Embora não esteja claro onde ou como os fragmentos foram recuperados âou se eles se referem especificamente ao ataque à escolaâ, eles contêm números de série e outros detalhes consistentes com a forma como o Departamento de Defesa e seus fornecedores categorizam e rotulam munições. Os restos parecem ser de um mÃssil de cruzeiro Tomahawk fabricado nos Estados Unidos em 2014 ou posteriormente.
As evidências analisadas pelo New York Times têm se acumulado no sentido de que a escola foi atingida durante uma série de ataques americanos direcionados a uma base naval adjacente. No domingo (8), um vÃdeo foi publicado pela agência de notÃcias semioficial iraniana Mehr, que o jornal americano e outros veÃculos identificaram como um Tomahawk atingindo um prédio médico na base naval. O Pentágono classifica o Tomahawk como uma munição guiada de precisão.
O Departamento de Defesa divulgou vÃdeos de navios de guerra da Marinha dos EUA disparando Tomahawks contra o Irã em 28 de fevereiro, o primeiro dia dos ataques e o dia em que a escola foi atingida. O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, disse em duas ocasiões na semana passada que Tomahawks lançados pela Marinha foram usados para atacar alvos ao longo da costa sul do Irã durante as primeiras horas da guerra.
No sábado, o presidente Donald Trump afirmou que a escola foi atingida pelo Irã sem apresentar qualquer prova. Na segunda-feira, ele voltou a sugerir esse cenário.
"O Irã também tem alguns Tomahawks", disse ele em resposta a perguntas de um repórter do NYT em uma entrevista coletiva. "Como vocês sabem, várias outras nações têm Tomahawks. Elas compram de nós."
Na verdade, o Irã não possui Tomahawks. Qualquer paÃs para o qual os EUA tenham vendido Tomahawks precisaria obter autorização do Departamento de Estado antes de transferi-los a terceiros, como o Irã.
Trump também acrescentou que foi informado de que o incidente de Minab estava sob investigação e que, quaisquer que sejam os resultados da apuração, ele estava "disposto a aceitar".
Além dos EUA, apenas dois paÃses são conhecidos por possuÃrem mÃsseis Tomahawk: Austrália e Reino Unido. Dois paÃses adicionais concordaram em comprá-los âo Japão em 2024 e a Holanda em 2025. Em outubro, Trump cogitou abertamente fornecer Tomahawks à Ucrânia, mas não levou a ideia adiante.
Mesmo que o Irã conseguisse de alguma forma obter um Tomahawk, ele não possui o equipamento técnico e as capacidades usadas para programar suas trajetórias de voo e carregar esses dados no computador de bordo do mÃssil. O Irã também precisaria ter um lançador capaz de disparar um Tomahawk sem danificá-lo.
Teerã produziu dois modelos de mÃsseis de cruzeiro para atacar alvos terrestres. Mas as duas armas têm caracterÃsticas de design que as distinguem visualmente de um Tomahawk, mesmo quando vistas à distância.
Nas fotos dos destroços das armas, um fragmento está marcado como "SDL Antenna", uma antena permite conexão com dados enviados por satélite, parte de um sistema de comunicações instalado em versões mais modernas do Tomahawk. Um número exclusivo de contratos do Departamento de Defesa indica que o componente foi fornecido às Forças Armadas dos EUA como parte de um pedido de 2014. O nome da Ball Aerospace Technologies, fabricante de armas sediada em Boulder, no Colorado, que foi adquirida pela BAE em 2024, está impresso na peça.
Outro fragmento está carimbado com "Made in USA" e traz o nome da Globe Motors, fabricante sediada em Ohio. De acordo com a fonte oficial de dados abertos sobre gastos do governo federal americano, a empresa recebeu milhões de dólares em contratos do Departamento de Defesa para componentes, incluindo os motores atuadores usados para mover as aletas de direção que guiam os mÃsseis Tomahawk.
As fotos correspondem a fragmentos documentados em ataques de mÃsseis Tomahawk em conflitos anteriores, incluindo o componente da Globe Motors, bem como uma placa de circuito, ambos fotografados no Iêmen e arquivados pelo Open Source Munitions Portal, um banco de dados de fragmentos de armas encontrados em zonas de conflito. Um componente similar da Globe Motors também foi encontrado na SÃria.
Trevor Ball, ex-técnico de desativação de explosivos do Exército dos EUA que trabalha com o coletivo de pesquisa Bellingcat, também identificou os componentes como sendo parte de um mÃssil Tomahawk. Ele identificou fragmentos de mÃsseis semelhantes fotografados em outros locais de ataque no Irã desde o inÃcio da guerra entre Israel e EUA.