Resumo objetivo:
Uma pesquisa da Febrasgo com ginecologistas e obstetras brasileiros revela que, para 80% desses profissionais, o consultório é o primeiro local de acolhimento à mulher vítima de violência. A maioria reconhece seu papel no enfrentamento do problema, mas aponta falta de preparo, abordagem majoritariamente reativa e entraves como a ausência de redes de encaminhamento e inseguranças jurídicas. Os dados dialogam com o cenário de aumento dos registros de violência contra a mulher no país.
Principais tópicos abordados:
1. O papel central do ginecologista/obstetra na identificação inicial da violência contra a mulher.
2. Os principais obstáculos relatados: falta de preparo dos profissionais, carência de redes de apoio e insegurança jurídica.
3. A predominância da violência psicológica/emocional identificada nos consultórios.
4. A necessidade urgente de capacitação, protocolos e fortalecimento da rede de suporte.
Para 8 em cada 10 ginecologistas e obstetras brasileiros, o consultório é o primeiro lugar onde uma mulher vÃtima de violência encontra um profissional de saúde. Uma pesquisa nacional da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e ObstetrÃcia) divulgada nesta terça-feira (10) mapeia como os profissionais lidam com essa realidade na prática clÃnica.
O levantamento ouviu 290 especialistas entre fevereiro e março de 2026, por meio de questionário estruturado com amostragem por conveniência. Os dados apontam que a maioria dos profissionais reconhece o papel da especialidade no enfrentamento à violência, mas relata obstáculos de ordem estrutural, jurÃdica e formativa para exercê-lo.
Mais da metade dos respondentes (57%) afirmou atender casos ao menos ocasionalmente. A violência psicológica e emocional foi a mais identificada nos consultórios, citada por 83% dos profissionais âà frente da violência sexual (50%) e da fÃsica (34%).
Sobre o próprio preparo, apenas 25% disseram se sentir bem ou muito preparados. Cerca de 23% admitiram sentir-se pouco ou nada preparados, e 51% avaliou o preparo como intermediário. A pesquisa aponta esse resultado como indicativo de uma lacuna na formação dentro da especialidade.
A abordagem da violência nos consultórios, segundo o estudo, é majoritariamente reativa. Quase metade dos profissionais (47%) disse tratar do assunto apenas diante de sinais evidentes, e 27% somente quando a paciente menciona o tema. Entre os entrevistados, 14% incluem a pergunta sobre violência como parte da rotina do atendimento.
Os principais entraves relatados pelos profissionais são estruturais: 60% citaram a ausência de uma rede de encaminhamento, e 45% apontaram inseguranças jurÃdicas ligadas à notificação e ao sigilo como obstáculos à atuação.
Os dados da pesquisa dialogam com um cenário de crescimento dos registros de violência no paÃs. Em 2024, foram registrados 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável âo maior número da série histórica, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. No mesmo ano, 1.492 mulheres foram assassinadas por serem mulheres, também o maior número desde a tipificação do feminicÃdio em 2015.
A pesquisa integra a segunda fase da campanha #EuVejoVocê, lançada pela Febrasgo em 2025. A entidade afirma que o objetivo é avançar do campo da conscientização para o do suporte prático, com protocolos, capacitação e orientação jurÃdica. Para 70% dos profissionais consultados, o fortalecimento da rede de encaminhamento é a prioridade mais urgente.
Segundo Lia Cruz Vaz da Costa Damásio, diretora de Defesa e Valorização Profissional da Febrasgo e responsável pela pesquisa, a consulta com o médico ginecologista é um momento de privacidade, em que muitas mulheres se sentem vulneráveis. à quando os profissionais podem identificar evidências como hematomas e mesmo marcas psicológicas em vÃtimas.
"A anamnese ginecológica e obstétrica envolve essas questões da sexualidade, do prazer, da lubrificação, e muitas vezes isso vai remeter essa mulher a traumas, a experiências passadas, e o médico vai conseguir perceber essas nuances e dar a essa mulher a oportunidade de se expressar", afirma.
"O médico não é juiz, não é polÃcia. Mas existem as situações em que a notificação é compulsória e que o médico tem que saber do seu protagonismo social, de saber orientar aquela mulher", acrescenta.
Conforme Maria Celeste Wender, presidente da Febrasgo, a ideia é aumentar a segurança dos profissionais para que se sintam mais preparados na conversa com as vÃtimas. "Muitas vezes o médico até pode imaginar que aquela paciente está sendo vÃtima de uma violência, mas não sabe muito bem o que fazer com aquela informação", diz.
Nas respostas da pesquisa, 172 profissionais descreveram o que consideram necessário para mudar esse quadro. O pedido mais recorrente foi por educação das próprias mulheres âmuitos médicos relataram que formas de violência psicológica, patrimonial e sexual, como o estupro marital, ainda não são reconhecidas pelas próprias vÃtimas como violência.
Também foram citados com frequência a necessidade de protocolos claros de atendimento, orientação jurÃdica acessÃvel e maior integração com assistência social e serviços de proteção.