Resumo objetivo:
A tecnologia Lidar tem revolucionado a arqueologia na Amazônia ao permitir a identificação de estruturas arqueológicas sob a densa floresta, desafiando a antiga crença de que a região não abrigou sociedades complexas. No Brasil, projetos como o "Amazônia Revelada" estão mapeando sítios em larga escala, impulsionados por maior financiamento e interesse de pesquisadores e comunidades indígenas. Especialistas comparam o impacto do Lidar ao do método de datação por carbono-14 para a arqueologia.
Principais tópicos abordados:
1. O uso da tecnologia Lidar para descobrir estruturas arqueológicas na Amazônia.
2. O aumento do interesse e do financiamento para pesquisas arqueológicas na região.
3. A mudança de paradigma sobre a existência de sociedades complexas na Amazônia pré-colombiana.
4. A importância das descobertas para os povos indígenas e a proteção do patrimônio cultural.
Por muito tempo, acreditou-se que a Amazônia não oferecia condições para o desenvolvimento de sociedades mais complexas. O calor, a umidade e a vegetação densa seriam obstáculos intransponÃveis, diziam naturalistas europeus do século 19. Eles estavam errados âmas teria sido difÃcil acertarem com a tecnologia da época.
Civilizações antigas como os incas, os maias e os astecas usavam pedras para construir vias, casas e templos, alguns dos quais seguem de pé até hoje. Já os povos originários da Amazônia alteravam seu ambiente com movimentações de terra e o uso de madeira e palha, que se decompõem com o tempo.
Por isso, era mais fácil para um desbravador antigo nas Américas encontrar um templo maia ou uma estrada inca do que vestÃgios de uma vila pré-colombiana no meio da Amazônia.
Isso vem mudando nos últimos anos, com uma mãozinha da tecnologia: o uso do Lidar, um radar de pulsos de laser que consegue escanear com detalhes o solo abaixo da copa das árvores. A imagem criada pode revelar estruturas construÃdas pelo homem na floresta, como valas, estradas e vestÃgios de casas.
No Brasil, o uso do Lidar é bem recente âcomeçou em 2024, no projeto Amazônia Revelada, que tem como meta escanear cada vez mais áreas da floresta em busca de sÃtios arqueológicos.
Antes, em 2015 uma pesquisa do tipo no Equador encontrou um conjunto de antigas cidades na floresta que abrigaram milhares de pessoas há cerca de 2.500 anos. Em 2019, um grupo de arqueólogos bolivianos e alemães também fez isso na Amazônia boliviana.
Apetite das fundações de fomento
Além do avanço tecnológico, há mais arqueólogos interessados em trabalhar na Amazônia e verbas disponÃveis, como mostra a iniciativa Amazônia +10, uma aliança de fundações estaduais de fomento que apoia projetos de pesquisa de várias disciplinas na região da floresta.
Em 2022, na primeira chamada para pedidos de financiamento, os projetos de arqueologia representaram 0,65% do total de submissões e nenhum foi contemplado com verbas. Na segunda chamada, em 2024, projetos de arqueologia representaram 4,19% das submissões e receberam 18,95% da verba disponÃvel, ou R$ 14,4 milhões.
Arqueólogos ouvidos pela DW também relatam maior interesse dos povos indÃgenas em autorizar pesquisas em suas terras, motivados pela percepção de que o conhecimento documentado sobre seus ancestrais fortalece a defesa de seus territórios e modos de vida âsob a lei brasileira, sÃtios arqueológicos são protegidos como patrimônio cultural.
'Revolução comparável ao carbono-14'
O projeto Amazônia Revelada escaneou na sua primeira fase com o Lidar 1.600 quilômetros quadrados de floresta, área equivalente à da cidade de São Paulo, e localizou diversos sÃtios arqueológicos, incluindo um conjunto no sul do Amazonas.
Esses sÃtios são caracterizados por geoglifos, formados por valas ou montÃculos de grandes dimensões, e outros indÃcios confirmados no local, como a presença de terra preta, um solo rico em nutrientes criado por indÃgenas que viveram na floresta há milhares de anos.
Os voos da segunda fase do projeto, que cobrirá uma extensão muito maior, começam em abril. à frente da iniciativa está Eduardo Góes Neves, professor e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Ele considera que o impacto do Lidar na arqueologia é comparável ao da datação por carbono-14, desenvolvida na década de 1940.
"Ele permite que enxerguemos sÃtios arqueológicos abaixo da copa das árvores. E por meio das imagens conseguimos ter acesso a locais muito difÃceis de se chegar", diz.
Neves avalia que o uso da tecnologia na Amazônia brasileira chegou mais tarde que na BolÃvia ou no Equador devido, entre outros motivos, à imensidão da floresta no território do paÃs. "A logÃstica é mais difÃcil. Em Quito ou Santa Cruz de La Sierra você pega um aviãozinho e em meia hora está na Amazônia. No Brasil, a escala é muito maior", diz.
Ele enfatiza que o maior interesse por arqueologia na Amazônia também está associado à consolidação de programas de pós-graduação nos últimos 25 anos, "que geraram doutores que hoje são professores e estão orientando mais gente fazendo pesquisa".
Ganhos para escala amazônica
Secretário-executivo da iniciativa Amazônia+10, Rafael Andery considera que o Lidar "mudou o jogo" das pesquisas arqueológicas na Amazônia, já que a logÃstica para fazer trabalhos de campo nos confins da floresta é complexa.
"à muito caro custear uma pesquisa, especialmente se ela for feita longe dos grandes centros, das vias de transporte, das hidrovias. E muitas das descobertas que temos visto na Amazônia em termos de arqueologia são justamente em territórios menos acessÃveis", afirma.
Entre os projetos de arqueologia apoiados pela Amazônia+10, estão um para mapear a herança biocultural e desenvolver esforços de etnoconservação na região entre os rios Xingu e Tapajós, e outro para criar um inventário dos sÃtios arqueológicos de Roraima, estado pouco estudado "onde tudo quase é novidade", diz Andery.
Arqueologia como proteção para povos indÃgenas
Na Amazônia boliviana, um projeto pioneiro conduzido por pesquisadores do Instituto Alemão de Arqueologia, da Universidade de Bonn e da Universidade de Exeter com o uso de Lidar encontrou resquÃcios de centenas de povoados ocupados entre os séculos 6 e 15, que compunham uma estrutura urbana de baixa densidade populacional criada pelo povo casarabe, similar à dos maias.
Outro projeto da Universidade de Bonn, que teve a cooperação de três universidades brasileiras (UFAM, UFOPA e UFSC), estudou o modo de vida e os elementos arqueológicos de quatro povos amazônicos: os tacana, tsimane' e mosetén na BolÃvia e os waiwai no Brasil.
Carla Jaimes Betancourt, coordenadora do projeto e professora do departamento de Antropologia das Américas da Universidade de Bonn, considera que estudar vestÃgios de povoados antigos é especialmente relevante para a garantia de direitos dos indÃgenas contemporâneos.
Os quatro povos estudados na sua pesquisa foram consultados previamente e participaram como protagonistas do debate e conceituação de seus territórios e heranças culturais. No projeto Amazônia Revelada, de Eduardo Neves, os povos indÃgenas também foram consultados se autorizavam o sobrevoo e escaneamento de seus territórios.
Betancourt considera que esses três fatores estão por trás do interesse crescente por arqueologia na região da floresta: resistência dos povos indÃgenas a ameaças à Amazônia, formação recente de muitos arqueólogos dedicados ao tema e a tecnologia do Lidar.
Os achados recentes na Amazônia "têm a ver com a ideia de que o passado não está desconectado do presente, no qual os povos amazônicos lutam por seus territórios, ligados à sua história", diz. "A arqueologia tem um papel importante para demonstrar que não são territórios vazios, que têm um passado muito profundo, um legado dos povos indÃgenas."