A notícia aborda o método lúdico da nutricionista Beatriz Bortoletto para melhorar a relação das crianças com a comida, realizando consultas domiciliares onde as crianças cozinham junto. Os principais tópicos são a rejeição infantil a alimentos saudáveis, a estratégia da "escada do comer" para superar aversões e a crítica aos alimentos ultraprocessados. A abordagem transforma a refeição em uma experiência divertida e educativa, visando hábitos alimentares mais saudáveis no presente e no futuro.
Fala sério, tem algumas comidas que apenas não rolam para você. E elas nunca são sorvete, chocolate, lasanha. Quase sempre, o que provoca uma reação de "eca!" são aquelas que os adultos mais querem que as crianças comam: um pouco de espinafre, um punhado de beterraba, aquela carninha de fÃgadoâ¦
Se você se identificou aqui, saiba que não está só. Basta lembrar daquela cena em que Riley, a garotinha da animação "Divertidamente", tem sentimentos de nojo e depois raiva quando o pai tenta enfiar um aviãozinho com brócolis na sua boca.
Quer dizer que esse vegetal verde é ruim mesmo, ainda que os mais velhos repitam a mesma ladainha de que ele faz bem para a saúde? Claro que não!
Se você der uma chance, a nutricionista Beatriz Bortoletto, a Bia, vai te convencer a provar receitas com ingredientes que talvez você rejeite de cara. Ela desenvolveu um método divertido para conversar com seus pequenos pacientes sobre a importância de comer bem, e isso não quer dizer apenas ingerir mais vegetais e legumes.
Significa abandonar hábitos que fazem mal ao nosso corpo, como se empanturrar de doces e alimentos ultraprocessados âaqueles que têm uma lista de ingredientes enorme com nomes difÃceis de entender, como "glutamato monossódico".
Isso acontece justamente porque eles não são naturais, e sim aditivos quÃmicos fabricados pela indústria. Sabe aquele suco de maçã que não tem maçã coisa nenhuma? à disso que a gente está falando aqui.
A profissão da Bia é ser tipo um detetive da comida. O nutricionista estuda os alimentos para entender o que cada um faz dentro da gente. Qual ajuda a crescer, qual nos protege de doenças e qual dá energia para correr no recreio, por exemplo.
Mas esse profissional não trabalha só com "pode isso" e "não pode aquilo". Quando o assunto é criança, ele também ajuda pais a transformar a hora da refeição num momento mais tranquilo e menos briguento.
Aà é que entra o método da Bia. Em vez de marcar uma consulta no seu consultório, como em geral fazem os nutricionistas, é ela quem vai na casa da pessoa. E ela bota a mão na massa: convoca a criançada para cozinhar junto enquanto ela vai conversando sobre o processo todo. O dia vira uma grande brincadeira sobre um papo sério.
Para envolver as crianças no preparo gastronômico, Bia traz tiaras coloridas, uma caixa personalizada com o nome do cozinheiro mirim, touca de chef de cozinha e um caderno de receitas. Elas adoram.
Violeta puxou a mãe âeu, no caso. Minha filha tem seis anos e gosta muito de doce. A princÃpio ela torceu o nariz quando a nutricionista veio à nossa casa e propôs fazer um waffle de brócolis com queijo. Mas aà Violeta foi chamada para quebrar os ovos da receita, misturou bem os ingredientes na panela, e tudo mudou.
Bia, que estudou muito sobre nutrição infantil, explica sobre "a escada do comer" como forma de quebrar resistências a algumas comidas âe isso tem aos montes, como a criança que implica com uma textura por não gostar da sensação dela na boca, por considerá-la pegajosa ou crocante demais, por exemplo.
A tal escada são degraus que você vai subindo até superar a aversão a uma comida especÃfica. Vamos supor que você tenha birra com cenoura. Podemos primeiro "trabalhar os sentidos", colocando uma cenourinha perto da sua boca, na lÃngua. Tudo vira um jogo de descoberta.
"A criança vai vencendo as barreiras, se acostumando com cheiros, texturas", diz Bia. "Ela vai se acostumando até estar pronta para comer de verdade. Não é um processo fácil, muito menos da noite pro dia. Mas quando é feito com amor e respeito, ele muda a relação da criança com a comida agora e principalmente no futuro."
Ela chamou essa experiência de Colher de Terra, uma consulta em casa que dura umas duas horas e incluir até seis receitas.
Não tem jeito: as mais docinhas são as preferidas da molecada, como os bolinhos de coco ou banana com canela. E tudo bem, diz Bia. Também rendem um bom aprendizado: essas receitas sem açúcar fazem um baita sucesso. "Assim, a criança vai se aproximar de novos sabores, de forma prazerosa, aprendendo que alimentos mais naturais também podem ser gostosos."
LuÃsa Mantuaneli, que também é nutricionista infantil, sentiu na pele a ansiedade de lidar com as resistências alimentares do filho. Logo ela, que sempre orientava as famÃlias que "alimentação é aprendizado, é processo, é construção diária". Chegou sua vez e passou pelo mesmo drama de tantos pais.
Daniel, 6, recusa alimentos se não vai com a cara da cor ou da textura deles, o que acontece com tomate, rúcula, variedades de purê. Também tem preferências repetitivas (macarrão!) e um jeito próprio para organizar a comida no prato.
Com ele, LuÃsa percebeu na prática o que já dizia na teoria para outras famÃlias: à s vezes demora mesmo. à aquela história de não desistir de oferecer um alimento se a criança diz que não gosta dele.
"Constância, compreensão e paciência são pilares para transformar a refeição em um momento mais pacÃfico", diz a mãe do Dani. "Entender que a aceitação alimentar pode amadurecer com o tempo também ajuda a acalmar corações aflitos. Nem toda recusa é definitiva."
Seu filho conheceu a Bia e ajudou a preparar o waffle de brócolis, vegetal que ele sempre desprezava. Saldo: experimentou no dia e nem fez cara feia!