O novo livro "Recapitulações", de Maria Valéria Rezende, apresenta uma releitura irreverente de clássicos da literatura, como "A Metamorfose" de Kafka e "Dom Casmurro" de Machado de Assis, ao reescrever finais e embaralhar as perspectivas narrativas. A autora justifica essa intervenção no cânone literário como um exercício de parceria criativa com o leitor, que é convidado a preencher as entrelinhas. Entre os principais tópicos abordados estão a subversão de obras consagradas, a questão da autoria feminina em diálogo com um cânone predominantemente masculino e o processo criativo de reescrita a partir de desacordos com as narrativas originais.
Acordou sentindo-se mutilado, sem suas antenas e patas de sempre, "com apenas quatro pesadas e volumosas extensões que se debatiam inutilmente".
Que horror! Quando certa manhã o inseto acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se no recanto "que sempre lhe foi tão cômodo para dormir sossegado" metamorfoseado num humano monstruoso. A mais famosa obra de Franz Kafka ganha essa releitura no novo livro de Maria Valéria Rezende, de 83 anos.
Em "Recapitulações", a autora não para na traquinagem literária de fazer o ser asqueroso de "A Metamorfose" virar Gregor Samsa. Em 12 minicontos, ela embaralha os limites entre originalidade e cópia ao propor novos desfechos para clássicos da literatura.
Ãs vezes empresta o olhar de um personagem para seguir por outras esquinas narrativas, como faz com a Capitu de "Dom Casmurro". Desta vez, é a mulher a quem homens atribuÃram "olhos de cigana oblÃqua e dissimulada" quem conduz a história, justamente no capÃtulo intitulado "Recapitulação".
Sem incorrer em muito spoiler, dá para adiantar que Capitu agora vive em Paris, de onde escreve à amiga Sancha uma carta sobre suas "artimanhas e travessuras", dando contornos pouco óbvios sobre o triângulo forjado por Machado de Assis entre ela, Bentinho e Escobar.
Rezende também reformula o efeito cascata amoroso proposto por Carlos Drummond de Andrade no poema célebre, em que sempre tinha alguém que amava alguém, e no fim ficava J. Pinto Fernandes, que nem sequer havia entrado na história. Na "Requadrilha" de Rezende, a dinâmica se mantém, o que muda é quem ama quem.
"Muitas vezes, durante uma leitura de um livro, minha imaginação se antecipa ao texto e imagino a sequência dos fatos ou o desfecho, que várias vezes não coincide com o que o autor diz", explica a premiada autora de romances como "Quarenta Dias", "Outros Cantos" e "Carta à Rainha Louca", publicados pela Alfaguara. "Daà fico com vontade de âcorrigirâ o autor e acabo por brincar de reescrever a história."
Há sempre o risco de leitores mais puristas implicarem com a intervenção. Que sacrilégio é esse, afinal, de mexer num cânone literário?
Rezende diz não pensar muito em como o público vai absorver sua proposta de subverter tramas tão consagradas. "Acho que a boa literatura é aquela que supõe ou mesmo exige a parceria do leitor, deixa subentendidos ou dúvidas e, portanto, já inclui a hipótese de discordância do leitor diante das percepções do escritor."
à como ela costuma dizer: "Sei o que escrevo nas linhas, mas o que está nas entrelinhas fica por conta do leitor".
A verdade é que Rezende não dá muita bola para esse negócio de cânone. "Não penso muito nisso. Em geral se refere a obras muito divulgadas, reeditadas e por isso relidas por muito tempo e por gente de toda parte. Mas acho que há muitos autores que mereceriam essa mesma sobrevivência, mas não o tiveram por acasos do mundo editorial, ficaram esquecidos. Enfim."
No livro, ela também usa esses autores como personagens de novas narrativas. A Machado de Assis, por exemplo, atribui memórias de infância desveladas a partir de um passeio no bondinho de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.
Não passa batido que obras e autores que inspiram Rezende são predominantemente do universo masculino. E como não?
"Consequência do fato de que a palavra das mulheres foi calada por séculos, por efeito do velho patriarcalismo e provavelmente porque, para mim, sendo mulher, é mais frequente que discorde ou imagine alternativas diante do que dizem os homens", ela diz. "Creio que há sempre uma perspectiva diferente da parte das mulheres."
Recapitulemos em vez de capitular.