Resumo objetivo:
A alta do petróleo devido à guerra no Irã tornou o biodiesel mais barato que o diesel importado no Brasil, uma situação rara que pode favorecer o aumento da mistura obrigatória do biocombustível no diesel. O setor agrícola defende a elevação urgente do percentual, alegando que isso ampliaria a oferta e reduziria a dependência externa, enquanto há resistências sobre o impacto nos preços finais ao consumidor. O tema pode ser discutido em uma reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) prevista para 12 de março.
Principais tópicos abordados:
1. Cenário de preços: Inversão nas cotações, com biodiesel mais barato que o diesel importado devido à guerra no Irã.
2. Pressão pelo aumento da mistura: Defesa do setor agrícola e de biocombustíveis para elevar o percentual obrigatório (de 15% para 17%) como forma de aumentar a oferta e reduzir custos logísticos.
3. Debates e resistências: Argumentos técnicos e políticos a favor e contra o aumento, incluindo preocupações com o preço final ao consumidor e a necessidade de aprovação governamental.
4. Contexto institucional: Possível discussão do tema em reunião do CNPE, com posições divergentes entre agentes do setor.
Com a alta dos preços do petróleo em função da guerra no Irã, o valor do diesel importado pelo Brasil superou a cotação do biodiesel. A situação é rara e poderia favorecer um aumento do percentual da mistura do biocombustÃvel no combustÃvel fóssil, apontou um levantamento da consultoria Raion obtido pela Reuters.
O movimento pode reforçar o argumento dos defensores de uma alta da mistura de biodiesel no diesel no Brasil, notadamente integrantes do setor agrÃcola, à s vésperas de uma esperada reunião do CNPE (Conselho Nacional de PolÃtica Energética), prevista para a próxima quinta-feira (12).
"Do ponto de vista técnico, tem espaço para o aumento da mistura, mas para fazer isso tem que convencer o governo", disse o sócio-diretor da Raion Consultoria, Eduardo Oliveira de Melo, ponderando que a decisão normalmente é polÃtica.
Ele disse ainda que uma mistura maior de biodiesel poderia amenizar problemas de oferta de diesel. "Mas aà o governo teria de assumir que está faltando produto [diesel], que a Petrobras não está conseguindo entregar, e não vai assumir.", acrescentou ele.
Segundo a Raion, com base em dado atualizado nesta segunda-feira (9), o biodiesel no Brasil foi cotado a R$ 5,4881/litro em média, versus R$ 5,6740 do diesel importado. Até quinta-feira (5), antes da disparada mais acentuada no valor do petróleo, a situação era inversa âR$ 5,30 para o diesel importado versus R$ 5,582 para o biodiesel.
Procurado, o Ministério de Minas e Energia não comentou imediatamente se o aumento da mistura está na pauta da reunião do CNPE. Duas pessoas com conhecimento da situação confirmaram à Reuters a data do encontro.
Integrantes do setor agrÃcola e do segmento de combustÃveis também têm afirmado que a reunião está prevista para o dia 12 de março.
Em um cenário de alta do preço do diesel, a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) solicitou ao Ministério de Minas e Energia o aumento "urgente" da mistura obrigatória dos atuais 15% para 17% (B17), diante da escalada recente dos conflitos no Oriente Médio e seus impactos sobre o mercado de petróleo, como forma de amenizar impactos da alta do petróleo.
"O avanço da mistura de biodiesel representa medida importante e sustentável para ampliar a oferta de combustÃvel no mercado doméstico, reduzir pressões sobre os custos logÃsticos e fortalecer a segurança energética nacional", disse o presidente da CNA, João Martins, em ofÃcio ao ministério.
Entidades como a Aprosoja Brasil afirmaram que "é urgente avançar no aumento da mistura de biodiesel, reduzindo a dependência externa, e ampliar o uso do etanol na matriz energética, inclusive no transporte de cargas e em máquinas agrÃcolas". Os produtores do grão estão apontando problemas de oferta de diesel e alta nos preços em pleno perÃodo de colheita da soja e de cultivo do milho segunda safra.
O analista de biodiesel da consultoria Safras & Mercado, Gabriel Viana, lembrou que a alta da mistura geralmente enfrenta obstáculos como questões inflacionárias, algo que não ocorreria no momento atual.
"Com o petróleo disparando, temos um biodiesel que não vai ser tão inflacionário", afirmou ele, lembrando que a maior parte da matéria-prima do biocombustÃvel é o óleo de soja e o Brasil está colhendo uma safra recorde.
Pelo cronograma legal, a mistura deveria subir um ponto percentual, para 16%, em 2026.
Para o presidente da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de CombustÃveis), Sérgio Araujo, não é momento de aumentar a mistura, apesar de o biodiesel ter ganhado competitividade.
Ele ressaltou que biodiesel normalmente custa mais e ainda há despesas com a logÃstica. "O diesel que sai da refinaria da Petrobras é mais barato", afirmou, destacando que um aumento da mistura elevaria o preço do combustÃvel vendido na bomba.
Para Araujo, ainda são necessários mais testes para que as distribuidoras se sintam confortáveis em vender diesel com uma mistura de 16%.