Resumo objetivo:
O projeto "Mulheres Hispânicas: Canção e Poesia" foi desenvolvido na UFC para o ensino de espanhol no Ensino Médio, visando superar a falta de conteúdos literários e culturais em aula, normalmente focada em gramática e vestibulares. A iniciativa adotou uma educação literária como processo formativo e, politicamente, usou exclusivamente obras de mulheres de todos os 21 países hispanofônicos para discutir gênero, raça e ampliar o repertório intercultural dos alunos.
Principais tópicos abordados:
1. A carência de ensino literário e cultural no ensino de espanhol, devido à baixa carga horária e foco gramatical.
2. A educação literária como construção ativa de sentido, conforme Mendoza (2004).
3. A escolha política de trabalhar apenas com produções de mulheres para tensionar desigualdades históricas e promover discussões sobre identidade.
4. A abrangência geográfica e integração de literatura e música de todos os países hispanofônicos.
5. A aplicação prática do projeto em uma escola pública, com metodologia voluntária e certificação.
O debate sobre literatura em sala de aula é um campo espinhoso e delicado de ser trabalhado, por diversos fatores, incluindo, por exemplo, a baixa carga horária destinada às disciplinas das áreas de humanas. O projeto Mulheres Hispânicas: Canção e Poesia nasce na atividade de estágio de projeto de intervenção do curso de Letras Espanhol da Universidade Federal do Ceará e está voltado para o ensino de língua espanhola no Ensino Médio pelos alunos Marnylton Cabral e Nycaellen Silva. A primeira observação da qual se origina esse projeto é a ausência de conteúdos voltados às literaturas e produções culturais na língua-meta, também decorrente de diversos fatores, como a baixa carga horária da disciplina de espanhol e os conteúdos programáticos majoritariamente voltados a aspectos gramaticais e com enfoque em concursos para ingresso na universidade, principalmente nas turmas de terceiro ano.
Foi nesse cenário que o projeto foi pensado e desenvolvido, dialogando diretamente com o conceito de educação literária, entendida não como um contato espontâneo com o texto, mas como um processo formativo. Segundo Mendoza (2004), a educação literária prepara o leitor para participar ativamente da construção de sentidos do discurso literário, considerando que o significado não se produz de maneira automática.
Além da dimensão pedagógica, o projeto assumiu também uma escolha política: tanto a proposta quanto o material didático foram compostos exclusivamente por produções de mulheres. A intenção foi promover e tensionar discussões sobre gênero, raça, pertencimento nacional e territorialidade, ao mesmo tempo em que se ampliava o repertório cultural dos estudantes, que, ao serem questionados sobre o conhecimento ou leitura de obras escritas por mulheres hispânicas, demonstraram déficit. Embora autores homens ocupem posição central na tradição literária hispânica, essa centralidade frequentemente invisibiliza produções femininas. Trabalhar exclusivamente com mulheres escritoras e cantoras significou, portanto, tensionar esse desequilíbrio histórico.
A proposta contemplou produções literárias e musicais dos 21 países que têm o espanhol como língua oficial: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Equador, Espanha, Guatemala, Guiné Equatorial, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Porto Rico, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. Para cada país, foi selecionada uma cantora e uma escritora, possibilitando o trabalho integrado com poesia, letras de músicas, contexto histórico e questões de gênero. Considerando que o fundamental era que os alunos tivessem contato com cada um dos países e suas produtoras culturais, como aponta Abidi (2024), o contato ampliado com dimensões socioculturais favorece interações mais fluidas com falantes nativos e amplia a competência intercultural dos estudantes.
O projeto foi aplicado na EEMTI Otávio Terceiro de Farias, no bairro Prefeito José Walter, com estudantes do 1º ano do Ensino Médio, sob supervisão da professora Vitória Alves da Silva e Valdênia Falcão. A carga horária total foi de 20 horas, distribuídas em oito encontros realizados no contraturno escolar, mediante inscrição voluntária dos alunos, que, ao final, receberam certificados de participação.