Resumo objetivo:
O presidente da Federação Árabe Palestina (Fepal), Ualid Rabah, alerta que os Estados Unidos são um adversário estratégico do Brasil, citando o cerco militar com bases em países vizinhos e a tentativa de classificar facções criminosas brasileiras como grupos terroristas – o que, segundo ele, criaria um pretexto para intervenção. O objetivo real seria controlar recursos estratégicos brasileiros, como petróleo, água e minerais, em um contexto de guerra híbrida devido ao alinhamento do Brasil com os BRICS e a busca por alternativas ao dólar. O analista também critica a retórica dos EUA contra o Irã, defendendo o direito iraniano à capacidade dissuasiva e destacando a resistência da economia do país a décadas de bloqueio.
Principais tópicos abordados:
1. Relação Brasil-EUA: Acusações de cerco militar, guerra híbrida e risco de intervenção sob o pretexto de combate ao terrorismo.
2. Interesses estratégicos: Controle de recursos naturais brasileiros (água, petróleo, minerais) como motivação atribuída aos EUA.
3. Contexto geopolítico: Posição do Brasil nos BRICS e busca por um sistema financeiro multilateral alternativo ao dólar.
4. Caso Irã: Defesa da soberania iraniana, crítica à retórica belicista dos EUA e análise da capacidade de resistência econômica e militar do Irã.
Os Estados Unidos são o adversário estratégico e potencialmente inimigo existencial do Brasil, alerta o presidente da Federação Árabe Palestina (Fepal), Ualid Rabah, diante do cenário de agressão do governo Donald Trump no Oriente Médio, com episódios de ataque e bloqueios na América Latina, na Venezuela e em Cuba, agora no Brasil com a intenção de classificar as organizações criminosas, PCC e CV, como grupos terroristas.
O analista chama atenção para movimentos recentes dos Estados Unidos na região. “Os Estados Unidos têm hoje 11 bases na América do Sul, todas em países limítrofes ao Brasil. E nesta semana, o Senado paraguaio aprovou o direito dos EUA de implantarem uma base no Paraguai, na nossa fronteira, onde está a segunda maior usina de energia elétrica por meio hidráulico do mundo, Itaipu, e o maior aquífero de água doce subterrâneo do mundo, o Aquífero Guarani”, chama atenção no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
Para Rabah, as acusações estadunidenses de que o Brasil abrigaria “bases chinesas” — na verdade acordos de cooperação tecnológica firmados nos governos Bolsonaro (2020) e Lula (2025) — fazem parte de uma guerra híbrida. “Eles estão nos acusando para justificar o cerco. E mais grave: querem classificar o crime comum de narcotráfico como terrorismo, qualificando o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas.”
“Isso abriria precedente para uma intervenção bélica dos Estados Unidos no Brasil, exatamente onde estão os grupos políticos de extrema direita que apoiam Washington e até mesmo uma intervenção militar”, denuncia.
O objetivo real, segundo Rabah, é o controle dos recursos estratégicos brasileiros. “É uma guerra híbrida para produzir uma contenda bélica contra o Brasil pelo petróleo, pela Petrobras, pelo urânio, pelas terras raras, pela Amazônia, pela água.”
Ele lembra que o Brasil integra os Brics e defende um mundo multilateral, com sistemas próprios de compensação internacional que abandonem o dólar. “O Brasil sozinho poderia criar algo análogo ao Swift [rede de comunicação global entre bancos para transações financeiras] controlado pelos Estados Unidos. Que dirá com Rússia, China, Índia, África do Sul.”
Situação do Irã
Enquanto o governo dos Estados Unidos anuncia que a guerra contra o Irã está “praticamente concluída”, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã responde à altura: “Nós que determinaremos o fim”.
Para Rabah a grande questão por trás da retórica de Trump é definir o que seria uma “vitória final”. “O programa nuclear iraniano, que de fato não existe com armamentos, está em pleno curso da agressão. O chefe da Agência Internacional de Energia Atômica declarou que não há nenhum indício de um programa nuclear com objetivos bélicos ativos no Irã”, afirma.
Sem esse alvo, a vitória teria que ser declarada sobre outra coisa. “Declarar vitória poderia ser algo que os Estados Unidos finalmente admitiram: aniquilar a capacidade do Irã de lançar mísseis. Ora, qualquer país normal tem que ter capacidade de lançar mísseis. É uma capacidade dissuasiva no mínimo”, argumenta.
O presidente da Fepal lembra que Brasil, Turquia, Arábia Saudita e Egito têm mísseis — muitos deles fornecidos pelos próprios Estados Unidos. “Por que a preocupação com a capacidade missilística do Irã? Por uma razão simples: o Irã consegue atingir seus agressores a partir do ponto em que lançam a agressão.”
Ele cita os alvos atingidos pelo Irã em retaliação: bases estadunidenses na região, ativos energéticos, instalações de radar e locais onde estavam reunidos agentes da CIA e do Mossad. “Sem a intervenção ativa dos Estados Unidos, Israel teria sido destruída pelo Irã”, sentencia.
“Qualquer país que queira manter sua soberania nacional precisa ter capacidade de blindar seu espaço aéreo. Quem não tiver isso está destruído pelos Estados Unidos. É o caso brasileiro”, alerta.
A economia iraniana que resiste a 47 anos de bloqueio
Rabah rebate a narrativa de que o Irã seria um país frágil. “Com 47 anos de bloqueio, o Irã construiu uma economia que, pelo critério do FMI [Fundo Monetário Internacional] de paridade do poder de compra, tem um PIB [Produto Interno Bruto] de quase 2 trilhões de dólares. Israel, que mais recebe esmola estadunidense na história, tem um PIB de 400 a 500 bilhões.”
Ele enumera conquistas iranianas: lançamento de satélites, indústria aeroespacial e naval, medicina avançada (terceiro programa de transplante de pele do mundo), indústria genética e agricultura praticamente autossuficiente.
“E tem um comércio com o Brasil que no ano passado deu um superávit de 13,1 bilhões de dólares para o Brasil. Israel nos deu um déficit de 700 milhões de dólares. Isso é recorrente há 10 anos”, compara.
Sobre o fechamento do Estreito de Ormuz, Rabah pondera: “O Irã teria que atacar todos os navios. Não sei se faria isso. Mas só diante da ameaça, praticamente não passaram navios. Agora houve uma retomada de 20% do fluxo.”
A questão de fundo, para ele, é o controle das reservas petrolíferas. “Os EUA já controlam a Venezuela (maior reserva do mundo) e a Arábia Saudita (segunda). Querem controlar o Irã, a terceira maior reserva de petróleo e segunda maior de gás. Isso significa o controle dos fluxos energéticos e do refino.”
E alerta: “Estamos falando de dois países Brics. A Arábia Saudita está sendo avisada de qual pode ser seu futuro se continuar fornecendo petróleo à China e aceitando pagamento em yuan.”
Rabah conclui relembrando que os Estados Unidos são o “adversário estratégico e potencialmente inimigo existencial do Brasil. Precisamos estar blindados disso”.
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