O Colaboratório Com Elas, da Fiocruz Brasília, completa um ano como uma iniciativa intersetorial criada a partir da demanda de movimentos feministas do DF para enfrentar os altos índices de feminicídio e violência de gênero. O projeto se estrutura como um espaço de gestão compartilhada entre instituições públicas e sociedade civil, baseado em educação popular e vigilância em saúde, com atuação em três frentes: formação, pesquisa participativa e ações territoriais. Entre as atividades do primeiro ano, destacam-se a cartografia social na região da Estrutural, oficinas formativas em várias cidades e rodas de conversa com homens sobre masculinidades.
Principais tópicos abordados:
1. Origem e objetivo: Resposta à violência de gênero e feminicídio no DF, demandada por movimentos feministas.
2. Metodologia e governança: Modelo colaborativo e participativo, integrando ciência, políticas públicas e ação comunitária.
3. Ações realizadas: Mapeamento de coletivos, oficinas de formação e diálogos sobre masculinidade.
4. Articulação institucional: Parceria entre Fiocruz Brasília, movimentos sociais e outras instituições públicas.
Criado a partir da mobilização de movimentos feministas do Distrito Federal diante do avanço da violência de gênero, o Colaboratório Com Elas, da Fiocruz Brasília, completa um ano como um espaço inédito de articulação entre ciência, políticas públicas e ação comunitária. A iniciativa nasceu da pressão por participação de organizações de mulheres que passaram a construir coletivamente estratégias de enfrentamento à violência.
A proposta surgiu a partir de encontros entre movimentos feministas do Distrito Federal e representantes da Fiocruz Brasília, sobre a necessidade de criar um espaço permanente de articulação diante dos índices de feminicídio e violência de gênero registrados na região. O Colaboratório Com Elas foi estruturado como uma iniciativa pública e intersetorial que busca integrar ciência, participação social e ação territorial nesse enfrentamento.
A coordenadora geral do projeto, Rosângela Camapum, relembra o início dessa trajetória. “Foram os movimentos feministas de vários territórios do DF que se reuniram com a deputada Érika Kokay (PT-DF) e solicitaram que, diante do alto índice de feminicídio e de violência contra as mulheres no Distrito Federal, fosse construída uma organização capaz de atuar pela redução desses índices”, afirmou.
Participação
Desde sua concepção, a proposta do Colaboratório foi desenvolver um modelo de gestão compartilhada entre instituições públicas e sociedade civil. Camapum explicou que a própria estrutura do projeto foi pensada para garantir a participação direta dos movimentos sociais na definição das ações e prioridades.
De acordo com ela, “o Colaboratório surge dos territórios e é construído de forma colaborativa, com participação e protagonismo dos movimentos, e não como uma articulação definida de cima para baixo”.
A iniciativa é baseada em princípios da educação popular em saúde, vigilância popular em saúde e gestão participativa. Sua estrutura foi organizada em três grupos de trabalho que articulam produção de conhecimento, formação e atuação comunitária: o Grupo de Processos Formativos (GPF), o Grupo de Pesquisa Participativa (GPP) e o Núcleo de Ações Territoriais (NAT).
Segundo a coordenação do projeto, cerca de 75 movimentos feministas e organizações sociais participam das atividades. Durante o 2º Encontro do Colaboratório Com Elas, Camapum ressaltou que o planejamento das ações é feito coletivamente.
Balanço
Entre as atividades desenvolvidas ao longo de 2025 está a cartografia social da Região Administrativa da Estrutural, escolhida como território inicial de atuação do projeto. A iniciativa realizou um mapeamento participativo de coletivos de mulheres, redes de cuidado e serviços públicos que atuam no atendimento à população local.
De acordo com a coordenação do Colaboratório, o levantamento identificou 28 coletivos de mulheres na região e envolveu também reuniões com instituições públicas, como Ministério Público, Secretaria de Segurança Pública e Secretaria de Justiça, com o objetivo de aproximar políticas públicas da realidade do território.
Além do trabalho territorial, foram realizadas oficinas formativas sobre direitos das mulheres em diferentes Regiões Administrativas do Distrito Federal, incluindo Ceilândia, São Sebastião, Planaltina, Sol Nascente e Brazlândia. Também foram promovidas rodas de conversa voltadas ao diálogo com homens sobre masculinidades e prevenção da violência de gênero.
Ao apresentar o balanço das atividades, Camapum destacou que o primeiro ano foi marcado pela construção das bases do projeto e pela ampliação da participação social. Segundo ela, ainda há um conjunto de ações previstas para consolidar o trabalho da rede e “ampliar a luta pela redução da violência contra as mulheres”.
Articulação institucional
A criação do Colaboratório envolveu diferentes instituições públicas. A diretora da Fiocruz Brasília, Fabiana Damázio, explicou que a construção da iniciativa começou a partir de um diálogo com movimentos sociais após um encontro realizado no Eixão do Lazer.
Damázio lembra que “logo depois desse encontro, foi marcada uma reunião na Fiocruz para que as instituições pudessem se somar à construção de uma agenda de enfrentamento ao feminicídio e de proteção às mulheres nas diferentes Regiões Administrativas do DF”.
De acordo com a diretora, a proposta foi integrar diferentes áreas de atuação da instituição, como pesquisa, formação e ações territoriais, para apoiar a iniciativa. A Fiocruz então passou a organizar frentes de trabalho com o objetivo de construir respostas articuladas para o problema da violência de gênero. Nesse sentido, Damázio afirmou que o processo envolveu atividades de pesquisa, formação e educação popular.
Debate sobre violência de gênero
O encontro, em fevereiro, também contou com a participação da deputada federal Érica Kokay, que abordou o contexto da violência contra mulheres no país e a importância de iniciativas de mobilização social.
“O Brasil é o quinto país em feminicídio no mundo, mas esse feminicídio é construído antes de aparecer nas estatísticas”, disse a parlamentar, ressaltando que diferentes formas de violência podem anteceder os casos mais extremos registrados nos dados oficiais.
A deputada também chamou atenção para formas de violência que muitas vezes não são imediatamente identificadas. Situações que não deixam marcas físicas visíveis, mas também impactam profundamente a vida das mulheres.
Troca de experiências
Entre as organizações que integram o Colaboratório está o coletivo Kizomba, organização de juventude que participa das atividades e dos encontros territoriais promovidos pela iniciativa. Ludmila Brasil relatou que as atividades realizadas em territórios como Ceilândia, Planaltina e Sobradinho têm reunido estudantes, jovens trabalhadoras e moradoras das regiões para discutir temas que atravessam o cotidiano das mulheres.
“Muitas das mulheres que participam desses encontros são mulheres da comunidade que veem que o debate vai acontecer no território e decidem participar, o que amplia muito a troca de experiências”, disse.
Durante o encontro, uma moradora da Cidade Estrutural compartilhou experiências pessoais relacionadas à violência doméstica e à dificuldade de acesso à justiça em casos de violência familiar. Ela relatou situações vividas por familiares e questionou os desafios enfrentados por mulheres que desejam sair de contextos de violência.
“Sair do ciclo de violência não é simples. Às vezes, a mulher só quer sair e viver em paz, mas muitas vezes ela encontra dificuldade porque dizem que só podem ajudar se houver boletim de ocorrência”, disse.
Ela também destacou que muitas mulheres enfrentam situações semelhantes em diferentes contextos familiares e territoriais. O debate promovido pelo Colaboratório, segundo ela, traz para o espaço público a discussão de caminhos possíveis. Em seu relato, ela destacou que muitas mulheres procuram apenas condições para romper com a situação de violência e reconstruir a própria vida.
Próximos passos
Para 2026, o Colaboratório planeja ampliar as ações territoriais e fortalecer as atividades de formação e pesquisa participativa. Entre as iniciativas previstas estão novas oficinas, produção de uma cartilha sobre direitos das mulheres e a ampliação da rede de comunicação comunitária na Estrutural.
Também está previsto o desenvolvimento de estudos para identificar fatores relacionados à violência de gênero em diferentes territórios do Distrito Federal, com previsão de apresentação dos resultados em um seminário sobre pesquisa e políticas públicas.
Durante o encontro, Camapum destacou que o planejamento das atividades do próximo ano será construído a partir da avaliação coletiva das ações realizadas até agora. Segundo ela, a participação dos movimentos sociais é central nesse processo, já que o objetivo é definir conjuntamente os próximos passos da iniciativa e ampliar o alcance das ações voltadas ao enfrentamento da violência contra mulheres no Distrito Federal.
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