Resumo objetivo:
O presidente do GPA, Alexandre Santoro, está em contato direto com os grandes fornecedores para tranquilizá-los após o grupo ter iniciado um processo de recuperação extrajudicial, focado na renegociação de R$ 4,5 bilhões em dívidas com credores financeiros (como bancos). A medida busca alongar as dívidas, excluindo do plano passivos tributários e trabalhistas de cerca de R$ 32 bilhões, enquanto a empresa enfrenta capital de giro negativo e vencimentos de dívidas já em 2026.
Principais tópicos abordados:
1. Recuperação extrajudicial do GPA para renegociar R$ 4,5 bilhões em dívidas financeiras.
2. Esforço de comunicação com fornecedores para garantir que os pagamentos a eles não serão afetados.
3. Situação financeira complexa da empresa, incluindo dívidas de curto prazo, capital de giro negativo e passivos contingentes elevados.
4. Negociação com bancos credores (como Itaú, Rabobank, HSBC e BTG), visando alongamento da dívida.
5. Contexto e avaliação especializada sobre a decisão, destacando a vantagem da via extrajudicial para preservar a reputação e evitar uma recuperação judicial.
O presidente do GPA (Grupo Pão de Açúcar), Alexandre Santoro, 54, está no "corpo a corpo" com os maiores fornecedores do grupo varejista, na tentativa de acalmá-los diante da decisão da empresa, anunciada nesta terça (10), de entrar com pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dÃvidas de R$ 4,5 bilhões.
"Só hoje já conversei com mais de 20 grandes fornecedores, falo pessoalmente com eles", disse Santoro à Folha. "Estou tirando todas as dúvidas que porventura possam surgir, e eles têm entendido muito bem", afirmou o executivo, que assumiu a empresa em janeiro, por indicação dos novos principais acionistas, os Coelho Diniz, que também trocaram o conselho da companhia em outubro.
"A gente nunca teve problema de atrasar o pagamento [aos fornecedores] e não vamos ter agora", afirmou Santoro, cuja preocupação número um do momento é deixar claro para os fornecedores que a medida tomada hoje envolve apenas as dÃvidas com credores financeiros, especialmente os bancos. Parte deles, que concentram 46% dos créditos sujeitos ao plano (R$ 2,1 bilhões), aceitou a negociação extrajudicial. São elas Itaú Unibanco, Rabobank, HSBC e BTG Pactual. Agora a missão é convencer os demais a aderirem ao plano.
O GPA possui cerca de R$ 1,7 bilhão em dÃvidas com vencimento já em 2026 e encerrou dezembro com capital de giro lÃquido negativo em cerca de R$ 1,2 bilhão.
Além disso, a companhia revelou a existência de R$ 15 bilhões em disputas tributárias classificadas como "perdas possÃveis" âvalores que não estão provisionados no balanço, mas que representam um risco potencial. Também existe um passivo trabalhista da ordem de R$ 17 bilhões. Mas essas duas dÃvidas, que somam R$ 32 bilhões, não entraram no pedido de recuperação extrajudicial.
Questionado se parte dos credores pode transformar sua dÃvida em participação acionária no grupo, Santoro disse que o assunto ainda não está na mesa de negociação.
"Eu não tenho como dizer que é totalmente descartado. Isso envolve os próprios acionistas, é muito cedo para afirmar qualquer coisa nesse sentido" afirma. Ou seja, a negociação vai se concentrar, pelo menos neste primeiro momento, em alongamento da dÃvida.
O Itaú é o principal credor, com R$ 1,16 bilhão. Mas até o momento apenas o banco, e não a sua gestora de recursos (Itaú Unibanco Asset Management), que também é credora da varejista, aceitou negociar.
De acordo com uma fonte próxima ao comando do grupo, os bancos não querem que a empresa quebre, porque a consideram um ativo saudável. O GPA é o quinto maior varejista alimentar do paÃs, com receita de R$ 20,6 bilhões em 2025. As suas 728 lojas estão em 11 estados e no Distrito Federal.
Pela lei, as empresas podem entrar com pedido de recuperação extrajudicial se conseguirem acordo com credores cujas dÃvidas representem no mÃnimo de um terço dos créditos afetados. Na opinião do advogado Filipe Denki, sócio da Veritas Administradora Judicial, a escolha do GPA foi acertada.
"A via extrajudicial evita o rebaixamento automático do rating bancário da empresa, o que preserva, pelo menos em parte, o acesso ao crédito e a sua reputação perante o mercado e os parceiros comerciais".
Para Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail, a dÃvida da empresa ganhou uma dimensão ainda maior com os juros, diante da Selic a dois dÃgitos.
"A renegociação com os principais credores era inevitável", afirma. Eles têm dÃvidas vencendo, sem esse caixa para pagar. Ou desmobiliza ativo, ou capitaliza a empresa com dinheiro novo, ou tem que chamar os credores e negociar", diz Serrentino, lembrando que, caso a medida não fosse tomada, a recuperação judicial se tornaria uma possibilidade real. As Casas Bahia fez o mesmo recentemente, afirma.
Santoro não tinha muitas opções na manga para tentar manter de pé a doceria fundada por Valentim dos Santos Diniz em 1949. A empresa praticamente não tem ativos âdas atuais 728 lojas, apenas 5% têm imóvel próprio.
Em dezembro, já sob nova direção, o GPA vendeu para o Itaú a parte da sociedade que mantinham na financeira FIC. Vai receber R$ 260 milhões.
Questionado pela reportagem se a venda da rede Extra Mercado seria um ativo à venda, Santoro descartou completamente esta hipótese. "Não está à venda", afirmou.
O executivo está promovendo uma reestruturação na empresa. Cortou três diretores do comando da companhia âhoje fazem parte da diretoria apenas o próprio Santoro e Pedro de Albuquerque, vice-presidente de finanças e diretor de relações com investidores. O CEO afirmou que o grupo não deve abrir lojas neste ano e que os cortes, tanto de pessoal quanto de ponto de venda, devem ser pontuais.
O plano de recuperação extrajudicial prevê a suspensão imediata das dÃvidas de R$ 4,5 bilhões por 90 dias, a contar da data do pedido. A companhia e os credores vão formar um comitê para se reunir periodicamente e avaliar medidas alternativas, tais como alteração em condições de pagamento e juros, reorganizações societárias ou capitalização da empresa.