Resumo objetivo:
O MST realizou em março de 2026 uma Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra, com mobilizações massivas em todo o país, incluindo ocupações de terras públicas e devolutas. O movimento denuncia a paralisação da reforma agrária no atual governo, apontando a insuficiência na destinação de terras para famílias acampadas, enquanto o agronegócio avança e a violência no campo aumenta. As ações também articularam a luta pela terra com pautas como combate a grandes projetos do capital (mineração, eólicas, cana) e a defesa da igualdade de gênero, integrando formação política e reivindicações regionais.
Principais tópicos abordados:
1. Mobilização e ocupações: Ações coordenadas do MST em todas as regiões, com cerca de 14 mil mulheres e 14 ocupações de terras públicas, devolutas ou áreas envolvidas em crimes ambientais e trabalhistas.
2. Crítica à reforma agrária: Denúncia da paralisia da reforma agrária no governo atual, com números considerados insuficientes de famílias assentadas.
3. Articulação de pautas: Conexão entre luta pela terra, combate ao agronegócio, resistência a grandes projetos (mineração, energia eólica, monocultura) e defesa da igualdade de gênero.
4. Formação política e simbologia: Caráter pedagógico da jornada, com atividades formativas e menção à data em memória de Marielle Franco e Anderson Gomes.
O mês de março abre historicamente o calendário de lutas do campo popular no Brasil com a Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra. E neste ano de 2026, o balanço apresentado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é de uma mobilização massiva, com ações coordenadas em todas as grandes regiões do país, ocupações de terras públicas e devolutas, e a denúncia contundente da paralisação da reforma agrária no governo Lula 3.
Lizandra Guedes, integrante da coordenação nacional do Setor de Gênero do MST, detalhou os resultados da jornada, que envolveu cerca de 14 mil mulheres até o momento, com 14 ocupações realizadas entre domingo (8) e terça-feira (10). “Estamos muito satisfeitas, muito satisfeitos com os resultados”, afirmou no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
A jornada deste ano teve como característica central a luta pela terra, articulada entre o setor de gênero e a frente de massas do movimento. “Nós temos nesse momento um processo de paralisação da reforma agrária. No Lula 3, nós tivemos muito poucos avanços na conquista pela terra”, denunciou Lizandra.
Os números são expressivos: o MST contabiliza um passivo de mais de 100 mil famílias acampadas em todo o país. Nos últimos três anos, apenas entre 20 mil e 24 mil famílias tiveram algum tipo de resposta, com a efetivação concreta para cerca de 10 mil. “Números bastante insuficientes, que demonstram a paralisia da reforma agrária, enquanto o agronegócio continua seu curso e a violência no campo aumenta”, completou.
As ocupações miraram terras públicas, terras devolutas, áreas condenadas por trabalho escravo e por crimes ambientais. Guedes citou casos emblemáticos:
- Rio Grande do Sul: uma terra do governo do estado, prometida há um ano para vítimas das enchentes, onde o movimento foi despejado de forma violenta na tarde de terça-feira, mas com sinalização de negociações.
- Centro-Oeste (entorno do DF): uma usina falida com denúncias de trabalho escravo e crimes ambientais, há muito tempo em disputa.
- Espírito Santo: área da Samarco, em articulação com as lutas contra a mineradora.
- Tocantins: terra pública cuja matrícula o proprietário perdeu, mas o Incra está sendo impedido de entrar.
- São Paulo: em resposta à “lei da grilagem” promovida pelo governador Tarcísio de Freitas, que privilegia grileiros em relação a terras devolutas.
A integrante da coordenação nacional do Setor de Gênero do MST destacou que as reivindicações das mulheres nos territórios se articulam com a pauta nacional de combate ao agronegócio e à violência. “As mulheres são mais atingidas pelos grandes projetos do capital. Procuramos articular a luta das mulheres com a luta geral do movimento pela reforma agrária popular.”
Ela citou exemplos regionais: no Rio Grande do Norte, a luta contra as eólicas; em Pernambuco, o problema da cana; em Minas Gerais e Espírito Santo, a luta contra a mineração. “Tivemos uma vitória muito grande: há 32 horas, os trens da Samarco estão paralisados. Mais de 400 toneladas de minério e grãos deixaram de circular. Isso chama atenção para a pauta da indenização das famílias e da restauração de áreas degradadas.”
A jornada não se resume às ocupações. Guedes explicou que todo o processo envolve formação política. “A luta é extremamente pedagógica e formativa. Muitas atividades incluíram encontros de mulheres, espaços de formação entre mulheres e espaços mistos”, relata.
Ela destacou que o MST tem avançado na compreensão de que a igualdade de gênero é uma pauta do conjunto do movimento. Processos formativos ocorreram no Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Roraima e, pela primeira vez, no Acre, onde o MST realizou sua primeira Assembleia de Mulheres.
“Esse processo se estende até o dia 12, em alguns casos até o 14 de março, quando celebramos também a condenação dos mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes“, lembrou.
Guedes foi enfática ao conectar a luta imediata pela terra ao projeto político mais amplo. “Exigimos do governo respostas mais imediatas para que, de fato, oxalá, entremos no Lula 4 com a reforma agrária popular em pauta como solução para as questões da crise climática, para o problema da fome, articulada com um projeto de Brasil Popular.”
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.