O artigo desmistifica a popular "Lei de Murphy", explicando que sua formulação original foi distorcida e que o próprio Edward Murphy se incomodava com essa associação. O texto introduz e destaca a "Navalha de Hanlon" – o princípio de que não se deve atribuir à má-fé o que pode ser explicado pela estupidez ou negligência –, rastreando suas origens em obras de Goethe e Robert Heinlein. Por fim, argumenta que este princípio é uma ferramenta mental útil para substituir desconfianças instintivas por avaliações mais racionais no mundo moderno, relacionando-o também à Navalha de Occam.
Principais tópicos abordados:
1. A origem e o equívoco em torno da Lei de Murphy.
2. A apresentação e defesa da "Navalha de Hanlon" como um princípio mais razoável.
3. As origens históricas e literárias desse conceito.
4. A aplicação prática do princípio como um antídoto para a desconfiança excessiva.
Sabe a famosa Lei de Murphy, "qualquer coisa que pode dar errado, dá errado"? Ela foi popularizada pelo livro "Lei de Murphy - e Outros Motivos Por Que Tudo dá Errado", publicado em 1977 pelo escritor Arthur Bloch, que a atribuiu ao engenheiro aeroespacial Edward Murphy. Bloch também propôs várias consequências e variações, tais como "no engarrafamento a outra pista sempre anda mais rápido".
Confesso que nunca fui muito fã. Pra começar, porque essa "lei" é obviamente falsa. Já pensou em tudo que pode dar errado numa viagem aérea? E, no entanto, elas são rotineiramente bem-sucedidas. Também, venho notando que no trânsito denso do Rio de Janeiro é comum que a minha pista seja a mais rápida. E mesmo quando isso não acontece a lei continua sendo falsa, para os motoristas na outra pista...
Murphy também não era fã, aliás: sempre se incomodou por ter seu nome associado a uma afirmação que não era sua. O que ele realmente disse, por volta de 1949, foi que "se a coisa tem como dar errado, esse cara vai conseguir errar", referindo-se a um de seus assistentes. Isso é mais razoável e consistente com a minha própria experiência.
No segundo volume de seu livro, publicado três anos depois, Bloch incluiu uma regra relacionada, que chamou Navalha de Hanlon âem filosofia, "navalha" é uma ferramenta mental que elimina explicações inadequadas, simplificando a busca pela verdadeâ e com a qual eu me identifico: "não atribua à má-fé aquilo que pode ser explicado como estupidez". O autor seria um tal de Robert J. Hanlon, da Pensilvânia, mas não consegui descobrir nada sobre ele.
Em todo caso, a ideia é muito anterior. Em "Os Sofrimentos do Jovem Werther", publicado em 1774, o poeta alemão Goethe já escreveu que "mal-entendidos e negligência causam mais danos no mundo do que má-fé ou maldade". Na mesma linha, um personagem da novela de ficção cientÃfica "Lógica do Império", publicada por Robert Heinlein em 1941, reclama: "você atribui à vilania condições que resultam, simplesmente, da estupidez". Heinlein reforçou a ideia no conto "Tempo Suficiente para Amar", de 1973: "nunca subestime o poder da estupidez humana".
O tema ganhou até uma espécie de estudo filosófico: o delicioso livrinho satÃrico "As Leis Fundamentais da Estupidez Humana", publicado em 1976 pelo historiador e economista italiano Carlo Cipolla. O autor argumenta que o bandido, que causa prejuÃzo aos demais para seu próprio benefÃcio, é menos nocivo para a sociedade como um todo do que o estúpido, que prejudica os outros sem colher nenhuma vantagem para si próprio.
Nossos ancestrais evoluÃram em ambientes perigosos, onde presumir que o outro estava tentando nos prejudicar era uma boa estratégia de sobrevivência. No mundo atual, a cooperação, quando viável, é uma via muito mais efetiva para o sucesso. A Navalha de Hanlon convida a substituir nosso impulso evolucionário pela explicação mais provável, tornando possÃvel avaliar as ações de outras pessoas de forma mais racional.
Nesse sentido, ela também deriva da Navalha de Occam, atribuÃda ao filósofo e teólogo inglês do século 14 Guilherme de Occam: "entre as várias explicações possÃveis para um fenômeno, a mais simples costuma ser a melhor". Esta última merece uma coluna só pra ela. Quem sabe um destes dias.