Resumo objetivo:
A escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo do Irã é vista como uma resposta simbólica aos EUA e Israel, transmitindo a continuidade do regime após a morte de seu pai. No entanto, analistas apontam que ele inicialmente atuará mais como uma figura cerimonial, pois o poder real é compartilhado por uma liderança coletiva (como a Guarda Revolucionária e outras instituições). A guerra acelerou essa sucessão, mas também pode agravar a instabilidade interna, potencialmente levando a um conflito civil e fortalecendo a busca iraniana por um dissuasor nuclear.
Principais tópicos abordados:
1. Sucessão e simbolismo político: A nomeação de Mojtaba Khamenei como uma mensagem de continuidade do regime frente a EUA e Israel.
2. Estrutura de poder real: A liderança coletiva no Irã, que limita a autoridade do novo líder e torna o regime menos vulnerável.
3. Cenário pós-guerra e instabilidade: Riscos de deterioração interna, incluindo possível guerra civil e fragmentação étnica.
4. Questão nuclear: O ataque externo pode ter efeito contrário ao desejado, incentivando o Irã a buscar armamento nuclear como dissuasão.
A escolha de Mojtaba Khamenei como novo lÃder supremo do Irã tem o objetivo de desafiar os paÃses que mataram o aiatolá Ali Khamenei. "Transmite a mensagem de que Israel e os Estados Unidos apenas substituÃram um Khamenei por outro", diz Ali Alfoneh, pesquisador sênior do Instituto dos Estados Ãrabes do Golfo, em Washington, e especializado em polÃtica iraniana.
Mojtaba, 56, é filho de Ali Khamenei e, embora já tivesse aparecido algumas vezes como possÃvel sucessor do pai, tinha no parentesco uma fraqueza na disputa. A Revolução Islâmica de 1979 derrubou uma monarquia, trazendo como bandeira o fim da transmissão familiar de poder.
A guerra iniciada em 28 de fevereiro, que matou o aiatolá, rearranjou as prioridades da liderança e alçou Mojtaba ao posto mais alto da hierarquia da República Islâmica. Mas, segundo Alfoneh, ele não deve acumular o mesmo grau de poder que o pai, que governou com mão de ferro por mais de 35 anos.
"O novo lÃder precisará de tempo para consolidar sua autoridade, enquanto a liderança coletiva também pode relutar em abrir mão do poder. Portanto, pelo menos inicialmente, o novo lÃder supremo pode funcionar em grande parte como uma figura cerimonial", afirma o cientista polÃtico, que é autor de livros sobre a sucessão de poder iraniana.
Segundo Alfoneh, há anos o poder no paÃs persa é mais compartilhado do que se imagina. Essa estrutura de poder, que envolve a Guarda Revolucionária, o presidente, o chefe do Judiciário e o presidente do Parlamento iraniano, torna o regime teocrático menos vulnerável a ataques externos do que uma ditadura personalista âcomo a de Muammar Gaddafi na LÃbiaâ, explica o cientista polÃtico.
"A resposta rápida do Irã à agressão israelense, sua tática de escalada horizontal gradual e a preservação da ordem nas ruas atestam a eficácia da liderança coletiva", afirma Alfoneh.
Ele diz que a divergência de posições entre Israel e EUA também envolve o futuro da liderança polÃtica iraniana. "O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu parece estar perseguindo uma polÃtica voltada para a mudança de regime, guerra civil e, em última instância, a partição do Irã", diz. Enquanto isso, os EUA de Donald Trump estariam mais propensos a uma solução "à Venezuela".
Trump afirmou nesta segunda-feira (9) ter ficado descontente com a escolha de Mojtaba Khamenei como novo lÃder supremo. Também sinalizou que o fim da guerra pode estar próximo. O que não significa, diz Alfoneh, que a situação no Irã não pode continuar a se deteriorar até uma potencial guerra civil.
Além disso, diz, o bombardeio sistemático de unidades do Comando da Guarda de Fronteira, delegacias de polÃcia e bases da Guarda Revolucionária e do Exército regular ao longo da fronteira com o Iraque podem impulsionar a emergência de um conflito entre grupos étnicos. "à assim que guerras civis começam."
O cientista polÃtico afirma ainda que a guerra pode ter o efeito contrário ao objetivo declarado dos lÃderes dos EUAe de Israel, de acabar com o programa nuclear iraniano. Embora as capacidades de produzir armamentos do tipo agora estejam em ruÃnas, "os ataques israelenses e americanos indiscutivelmente reforçaram a necessidade de o Irã possuir um dissuasor nuclear".