Resumo objetivo:
A artista argentina La Chola Poblete inaugura sua primeira exposição individual no Brasil, no MASP, com obras que misturam iconografia religiosa, crítica social e identidade queer e indígena. Seu trabalho questiona narrativas hegemônicas da Argentina, abordando repressão religiosa, crise econômica e a exclusão de povos originários na história da arte. A mostra integra a programação do museu dedicada à América Latina, dialogando com outras exposições que revisitam criticamente a colonialidade.
Principais tópicos abordados:
1. A exposição de La Chola Poblete no MASP e sua inserção na cena da arte pop argentina.
2. As temáticas centrais de sua obra: crítica social, identidade queer, ancestralidade indígena e questões econômicas da Argentina.
3. A proposta de repensar a arte pop a partir de uma perspectiva latino-americana decolonial.
4. O diálogo da mostra com outras exposições no museu que questionam narrativas históricas e coloniais.
A Virgem Maria, pintada com o lilás da delicadeza e espiritualidade, divide espaço com relÃquias indÃgenas, travestis nuas que choram e bebem e seres amorfos com pênis e seios. Essas são as aquarelas grandiosas de La Chola Poblete, artista que dá continuidade à cena da arte pop na Argentina, efervescente desde os anos 1960.
Ela ganha sua primeira mostra individual no Brasil no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o Masp, que neste ano dedica seu calendário expositivo à América Latina. Em uma obra de fotografias enormes, Poblete aparece nua em meio a um açougue. Seu corpo parece mais um corte de carne à venda entre tantos outros pedaços de boi e porco, enquanto um homem branco engravatado a avalia.
O trabalho fala sobre a influência repressiva dos mórmons sobre jovens LGBTQIA+ na comunidade onde Poblete cresceu, em Guaymallén, cidade do deserto andino próxima à fronteira com o Chile. A obra também brinca com o alto preço da carne na Argentina, que vem aumentando a exportação aos Estados Unidos como parte do acordo comercial firmado entre seu presidente conservador, Javier Milei, e Donald Trump.
O comentário irônico da fotografia lembra "El Pago de la Deuda Externa Argentina con MaÃz, 'el Oro Latinoamericano'" âou o pagamento da dÃvida externa argentina com milho, o ouro latino-americanoâ obra de Marta MinujÃn, pioneira da arte pop argentina nos anos 1960, em que ela entregava espigas de milho a Andy Warhol para refletir sobre a soberania de seu paÃs frente à subserviência econômica aos Estados Unidos.
Hoje, MinujÃn, 83, e Poblete, 37, são amigas, como prova uma foto das duas abraçadas presente na mostra do Masp. "Ela disse que se vê em mim, e no meu trabalho a continuação do pop", diz Poblete.
Em "Manifesto do Pop Andino", Poblete cita referências caras à história da arte para repensar o movimento pop a partir da experiência de pessoas queer latino-americanas e de ascendência indÃgena, como ela própria. Encabeçado por MinujÃn, o movimento se tornou um importante marco para a cultura Argentina e reposicionou o paÃs no mundo da arte, mas ainda se restringia a uma perspectiva.
"Há uma crÃtica no trabalho dela sobre como a narrativa hegemônica liga a identidade argentina a Buenos Aires, a uma herança europeia, sem considerar o passado indÃgena e negro do paÃs", diz Leandro Muniz, curador assistente da exposição.
Olhando para suas obras nas paredes do Masp, Poblete diz que, quando decidiu ser artista, quis se distanciar da arte conceitual, que muitas vezes exige estudo ou intimidade com a linguagem artÃstica para ser compreendida. "Cresci em um bairro pobre e queria usar essas referências. Quero que as pessoas olhem minhas obras e reconheçam imediatamente alguma coisa nelas", afirma.
Seu nome, "Chola", se apropria de uma injúria racial usada para designar mulheres de ascendência indÃgena e em geral condicionadas a trabalhos campesinos e domésticos. Em "Il Martirio de Chola", ela posa de perfil para um retrato, em uma posição que lembra a de indÃgenas pintados por artistas europeus no século 19. Usando uma roupa tÃpica, ela questiona a presença de pessoas de ascendência indÃgena na história da arte, e também a reprodução de indumentárias tradicionais como mera decoração.
As provocações ao mundo da arte conversam bem com a mostra de Sandra Gamarra Heshiki, que ocupa o primeiro andar do edifÃcio Lina com pinturas que replicam obras coloniais para lembrar que a história, como foi contada e recontada por séculos, é, afinal, uma fantasia, ou apenas uma fração da realidade.
Em contraste com as pinturas realistas de Heshiki e os sÃmbolos coloridos da cultura de massas de Poblete, outro andar do prédio Pietro exibe os tecidos delicados de Claudia Alarcón e do coletivo Silät, formado por tecedeiras da etnia WichÃ.
São tramas feitas à mão, sem o uso de um tear ou qualquer outro dispositivo, a partir de fios de chaguar, planta tÃpica do clima semiárido do norte da Argentina. A técnica era usada para confeccionar bolsas, mas o Silät, liderado por Alarcón, decidiu usá-la também para fazer arte.
A exposição segue a abertura de museus e galerias pelo mundo à arte têxtil nos últimos anos. "As instituições estão questionando, inclusive em seus próprios acervos, as caixinhas da chamada âfine artsâ, das belas artes, e do que é artesanato", diz Laura Cosendey, curadora assistente da mostra. No ano passado, o Silät apresentou seus trabalhos na Bienal de Veneza com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artÃstico do Masp que também assina a mostra atual no museu.
Nas obras, desenhos geométricos são pintados sobre os fios com pigmentos naturais e anilinas âno caso de cores menos terrosas e mais vibrantes, como o rosa. Alguns são abstratos, mas outros mostram elementos da comunidade onde vivem as tecedeiras, como plantas, porteiras e trilhas abertas em meio à mata ou à areia. São percursos que carregam também uma mensagem filosófica âé preciso sempre abrir novos caminhos, diz Alarcón.