Resumo objetivo:
Um estudo publicado na Science Advances analisou variações climáticas passadas no vale de Tehuacán (México) e concluiu que o cultivo do milho só se intensificou e se tornou a base agrícola das civilizações mesoamericanas após um grande período de seca. Essa mudança climática forçou as populações a depender menos da caça e coleta, impulsionando a agricultura e o desenvolvimento de um milho mais adaptado e produtivo. A pesquisa usou a composição isotópica de ossos de animais para reconstruir o clima da região ao longo de milhares de anos.
Principais tópicos abordados:
1. A relação entre mudanças climáticas históricas (especificamente uma grande seca) e a intensificação do cultivo do milho no México.
2. O papel central da agricultura do milho no surgimento e complexidade das civilizações mesoamericanas.
3. A metodologia da pesquisa, baseada na análise de isótopos químicos em ossos de animais para reconstruir o clima antigo.
4. A importância da região de Tehuacán como berço de evidências arqueológicas do milho e sua adaptação a condições semiáridas.
Novas pistas sobre variações do clima no passado podem ajudar a entender como o cultivo do milho (Zea mays) se transformou no alicerce das grandes civilizações nativas do continente americano.
Reconstruções climáticas feitas por pesquisadores do México e dos Estados Unidos indicam que, embora a domesticação do cereal seja muito antiga, seu plantio só decolou de vez após uma grande fase de seca, que teria forçado os povos do sul do território mexicano a intensificar a exploração agrÃcola e depender menos dos alimentos que obtinham como caçadores-coletores.
Os resultados foram publicados no último dia 4 no periódico especializado Science Advances e englobam toda a história climática da região do vale de Tehuacán (estado de Puebla, no centro-sul do México) a partir do fim do Pleistoceno, ou Era do Gelo, chegando até o perÃodo em que se inicia a invasão espanhola do território, no século 16.
A área de Tehuacán é estratégica para esse tipo de estudo porque os sÃtios arqueológicos da região abrigam alguns dos exemplares mais antigos de espigas de milho do planeta âa idade estimada para os resquÃcios é de cerca de 5.500 anos.
Além disso, Tehuacán está situada num planalto (com altitudes entre 1.000 m e 1.700 m), e o clima atual é semiárido. Acredita-se que a adaptação da planta a essas condições após a fase inicial de sua domesticação (bem anterior, por volta de 9.000 anos atrás) teria sido importante para a popularização de seu cultivo em outras regiões da América do Norte e da América Central ao longo dos séculos.
No fim das contas, teria sido a alta produtividade do "milho 2.0" desenvolvido nesse contexto, facilitado por sistemas de irrigação, a responsável por permitir o aumento populacional dos indÃgenas da área. Aos poucos, isso parece ter permitido o surgimento da complexidade social, a fundação de cidades-Estado, construções monumentais (como templos, "quadras" do jogo de bola nativo e até pirâmides) e, por fim, impérios, como o das astecas.
Falta, porém, saber quais os possÃveis motivos por trás da aparente demora nesse processo, considerando o momento inicial de domesticação do milho. Parte da resposta pode constar do novo estudo, liderado por Andrew Somerville, da Universidade do Estado de Iowa (EUA), junto com colegas da Universidade Autônoma do México e outras instituições.
A principal ferramenta usada por Somerville e seus colegas para reconstruir os vaivéns do clima em Tehuacán nos últimos 33 mil anos é indireta: a composição quÃmica dos ossos de dois dos principais animais consumidos pela população pré-colombiana da região. Os bichos em questão são o veado Odocoileus virginianus (a espécie à qual pertence o personagem Bambi, também presente no Brasil, onde é conhecida como veado-galheiro) e os coelhos do gênero Sylvilagus (o mesmo dos tapitis, que ocorrem em solo brasileiro).
A equipe extraiu duas moléculas presentes nos ossos dos bichos, bioapatita e colágeno, e levou em conta a presença neles de diferentes isótopos (variantes) dos elementos quÃmicos carbono, oxigênio e nitrogênio. Acontece que, quando se alimentam, os animais sempre acabam ingerindo substâncias que contêm uma mistura de isótopos desses elementos, mas as condições ambientais influenciam qual é a proporção exata entre eles.
No caso do isótopo carbono-13, por exemplo, a tendência é que ele se torne mais comum no organismo dos seres vivos num clima mais árido, porque as plantas adaptadas a essas condições são mais hábeis em usá-lo no processo de fotossÃntese (que usam para construir seu próprio organismo). Um raciocÃnio parecido pode ser aplicado à s proporções dos isótopos de outros elementos, o que permite reconhecer variações na temperatura e na umidade ao longo do tempo, desde que também seja possÃvel estimar a idade dos ossos dos animais.
O que os dados obtidos a partir dessa metodologia revelam é que o cultivo de milho no vale de Tehuacán começou durante um perÃodo relativamente mais úmido, com aumento das áreas florestadas na região e diminuição dos trechos de campinas e áreas mais desérticas. Durante esse perÃodo, o milho era só parte de um pacote de subsistência bem mais amplo, com ênfase na caça e na coleta.
Essa fase foi seguida por um perÃodo seco prolongado, entre 4.200 anos e 3.900 anos atrás, e a hipótese dos pesquisadores é que esse teria sido o "laboratório" para um uso mais amplo do milho como fonte de subsistência.
"Neste momento, não temos evidências diretas para a intensificação da agricultura do milho na região. Mesmo assim, as primeiras vasilhas de cerâmica [na região] datam dessa época, e sabemos que as pessoas estavam cultivando o cereal porque várias espigadas preservadas têm datações diretas correspondentes ao perÃodo", contou Somerville à Folha.
O fato de que o aumento populacional na região e o uso mais intensivo do milho decolam assim que as condições mais úmidas retornam, nos séculos seguintes, sugere, para os arqueólogos, que as técnicas necessárias para que isso acontecesse já tinham sido preparadas no perÃodo de vacas magras anterior.