A guerra entre EUA/Israel e Irã trouxe à tona a grave crise hídrica preexistente no país, agravada por mudanças climáticas, má gestão de décadas e uso agrícola excessivo. O conflito elevou o risco de ataques diretos a infraestruturas críticas de água no Golfo Pérsico, como usinas de dessalinização, ameaçando o abastecimento de milhões. Especialistas apontam que o Irã já enfrentava uma escassez extrema, com reservatórios esvaziados e a capital Teerã à beira de um colapso no abastecimento, situação que o governo tende a atribuir ao conflito internacional.
Principais tópicos abordados:
1. O agravamento da crise hídrica crônica do Irã devido ao conflito armado.
2. Os fatores de longo prazo da escassez: mudanças climáticas, má gestão governamental e uso excessivo de recursos.
3. O risco de ataques a infraestruturas hídricas vitais na região como uma nova frente de guerra.
4. As tentativas do regime iraniano de utilizar a crise para desviar responsabilidades internas.
A guerra no Irã expôs os problemas hÃdricos do paÃs, que já haviam sido levados ao limite pelas mudanças climáticas, pelo uso agrÃcola excessivo e por décadas de má gestão.
O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, acusou no sábado (7) os Estados Unidos de bombardear uma usina de dessalinização na ilha de Qeshm, afetando o abastecimento de água de 30 vilarejos. O governo americano negou responsabilidade pelo ataque.
O incidente, e o subsequente bombardeio iraniano a uma usina de dessalinização no Bahrein, gerou temores de que a guerra entre EUA e Israel contra o Irã possa levar a ataques mais amplos à infraestrutura hÃdrica crÃtica no golfo Pérsico, ameaçando o abastecimento de milhões de pessoas.
O Irã, no entanto, já enfrentava uma escassez crÃtica de água antes do conflito.
"Eles ainda estão em estado de crise", disse Eric Lob, professor associado de polÃtica e relações internacionais da Universidade Internacional da Flórida. "Ainda há problemas de escassez de água e apagões, e agora, se algo acontecer, o regime pode culpar o conflito.
Teerã, uma cidade de 10 milhões de habitantes, vem sendo afetada por anos de seca. No final do ano passado, a precipitação média do paÃs caiu para 45% abaixo do normal, e as barragens e reservatórios que abasteciam a capital operavam em capacidade mÃnima.
A organização meteorológica do Irã disse que as cidades estavam à beira do que chamou de "dia zero da água", o ponto em que os sistemas de abastecimento simplesmente param de funcionar. Antes do inÃcio da guerra, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, pediu a transferência da capital e disse que a diminuição das reservas de água e outras pressões ecológicas haviam "tornado a cidade inabitável".
Uma chuva torrencial em dezembro trouxe pouco alÃvio porque caiu sobre um solo seco e degradado, com pouca capacidade de absorção, disse Francesco Femia, cofundador do Centro para Clima e Segurança, uma organização de pesquisa de Washington.
"Por essa razão e outras relacionadas à má gestão da água, as chuvas também não reabasteceram os aquÃferos subterrâneos do Irã, deixando o paÃs em um estado contÃnuo de grave estresse hÃdrico", afirmou Femia.
As mudanças climáticas tiveram um papel importante. Os ciclos de seca estão se tornando mais frequentes e severos, e o ano passado marcou um dos perÃodos mais secos dos últimos 20 anos para o Irã. Eventos climáticos extremos âcomo uma onda de calor em 2023 que levou a uma paralisação nacional de dois dias quando as temperaturas atingiram 50,5 °Câ agravaram a escassez de água. Ao mesmo tempo, o derretimento da neve nas montanhas que alimenta os rios vem diminuindo.
Mas o governo iraniano também aprofundou perigosamente a crise com décadas de má gestão, segundo especialistas no assunto.
Após a Revolução Islâmica de 1979, o Irã começou a acelerar drasticamente a construção de barragens e reservatórios em busca de autossuficiência hÃdrica. Mas muitos foram construÃdos em locais inadequados, e o aumento do calor intensificou a evaporação da água.
"A prioridade era energia e lucro, em vez do que fazia sentido do ponto de vista ecológico ou hÃdrico", disse Lob, professor da Flórida. Agora, muitos reservatórios estão quase vazios e se tornaram o que um crÃtico chamou de "monumentos ao fracasso".
As autoridades iranianas também silenciaram ativistas ambientais e funcionários do governo que pediam que as questões hÃdricas fossem levadas mais a sério. Em vez de mudanças mais amplas, os funcionários implementaram medidas paliativas durante as crises, como reduzir a pressão da água e racionar o abastecimento.
O paÃs também está drenando o que resta de sua água subterrânea. Um estudo de 2024 sobre 1.700 reservas de água em 40 paÃses descobriu que 32 dos 50 aquÃferos mais sobrexplorados do mundo estão no Irã.
As autoridades cogitaram algumas soluções de longo prazo, como importar água do golfo de Omã. Mas o governo nunca fez um esforço sério para enfrentar a crise hÃdrica, concentrando recursos em fortalecer as capacidades militares e nucleares e apoiar grupos terroristas por procuração em toda a região.
A destruição da usina de dessalinização de Qeshm pode ter tido apenas um impacto modesto nos problemas hÃdricos do paÃs, segundo Michael Gremillion, diretor do Centro Global de Segurança HÃdrica da Universidade do Alabama. Mas a contÃnua escassez de água no Irã, combinada com a devastação econômica da guerra, pode levar à escassez de alimentos e fazer com que os moradores fujam de suas casas.
"Pelo menos no futuro próximo, a seca não vai se resolver tão cedo. Isso vai causar muitos problemas", disse Gremillion.