Resumo objetivo:
O filme "Sonhos de Trem" está indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, representando o Brasil na premiação. A fotografia de Adolpho Veloso transforma a natureza em protagonista, atuando como espelho das emoções e da solidão do personagem principal. O longa retrata a vida de um lenhador explorado durante a expansão ferroviária nos EUA no século XX, com uma narrativa introspectiva e de poucos diálogos.
Principais tópicos abordados:
1. Indicação ao Oscar de Melhor Fotografia para o brasileiro Adolpho Veloso.
2. O papel central da fotografia e da natureza na narrativa do filme.
3. A trama introspectiva sobre solidão e exploração do trabalho no contexto histórico da expansão ferroviária norte-americana.
4. Reconhecimento anterior de Veloso no Independent Spirit Awards, com elogios de Wagner Moura à sua arte.
Fotografia de ‘Sonhos de Trem’ pode render Oscar ao Brasil
Natureza captada por Adolpho Veloso é protagonista em produção que faz da paisagem espelho do que sentem as personagens
O Brasil vai parar no próximo domingo (15/03) para torcer por O Agente Secreto na premiação mais popular do planeta. São quatro indicações ao Oscar para um filme que inova e faz arte, desnudando a violência da opressão civil-militar, sem pestanejar na valorização dos que resistiram à ditadura.
A presença brasileira, no entanto, vai além do filmaço de Kleber Mendonça. Neste ano, o Brasil também está bem representado no deslumbrante Sonhos de Trem, com a indicação de melhor fotografia para o paulistano – e corinthiano – Adolpho Veloso.
Recentemente, Veloso recebeu das mãos de Wagner Moura o Independent Spirit Awards, a premiação mais importante do cinema independente. Ao entregar o prêmio, o ator baiano, que também concorre ao Oscar, exaltou o papel fundamental do diretor de fotografia na sétima arte.
“Cinema é antes de tudo ‘captura de imagens’”, disse Moura, ao salientar que um grande diretor de fotografia encontra “poesia nas sombras e violência na luz”, não apenas registrando o que vemos nas telas, mas moldando “a forma como vemos, sentimos e nos lembramos” do filme.
“Ele sabe quando se mover e quando permanecer perfeitamente imóvel. Ele entende que cada quadro é uma escolha sobre distância, sobre cor, sobre o que podemos ver e o que permanece oculto logo além da borda do quadro”, disse Moura.
É exatamente o que Veloso faz em Sonhos de Trem. A natureza captada pelo brasileiro entra em cena como protagonista absoluta em um filme marcado pela introspecção, contenção dramática e economia de diálogos.
O filme
Baseado na novela de mesmo título do romancista Denis Johnson, Sonhos de Trem conta a história do lenhador Robert Granier, que vive dos trocados que recebe ao cortar árvores e construir linhas férreas durante a expansão ferroviária dos Estados Unidos, no começo do século 20.
Granier é interpretado por Joel Edgerton que, diante de um roteiro enxuto e introspectivo, constrói sua presença cênica por meio de silêncios, gestos e expressões, interagindo o tempo todo com a natureza – ora amena, ora agressiva – como um espelho amplificador da interioridade do personagem, em uma narrativa paciente desenvolvida pelo diretor Clint Bentley.
A simbiose é tamanha que é impossível delimitar se são as emoções do personagem que transbordam na paisagem ou se é a força da natureza que incide sobre o lenhador.
A emoção que predomina é a solidão, interrompida por momentos de felicidade e de profunda tristeza. Órfão e totalmente sozinho no mundo, Granier encontra paz ao construir uma família, em cenas luminosas e belíssimas.
A alegria do convívio familiar é continuamente interrompida pelas longas e exaustivas jornadas de trabalho. “Sinto que estou perdendo a vida dela inteira”, reclama o lenhador, referindo-se ao crescimento da filha.
Ao abordar a questão, o ator que interpreta Granier disse, em entrevista ao Guardian, “por mais privilegiado que eu seja, ainda não consigo conciliar minha vida profissional com a minha família”.
“Sou um trabalhador contratado e as crianças precisam estar na escola. E se elas não forem à escola, eu vou para a cadeia”, acrescentou.
A diferença com Granier, no entanto, é avassaladora. O cenário que ele vive é de brutal exploração do trabalho nas florestas norte-americanas. Uma a uma, as árvores vão sendo derrubadas em jornadas exaustivas, bem filmadas, em meio às explosões de violências, acidentes contínuos e esgotamento generalizado.
Quando a noite chega, a floresta ressurge à luz das fogueiras iluminado a solidão desses homens, a exaustão dos corpos, a impotência frente à exploração econômica. É o momento em que eles conversam e um universo compartilhado de exploração econômica vem à tona, com a promessa de afetos e reflexões sobre a vida.
Aqui tem spoiler
Nesta tensão crescente de carências, de despedidas e reencontros, Granier começa a refletir sobre a possibilidade de mudar de vida, mas ao tomar a decisão, ele se vê diante de uma tragédia descomunal. A floresta onde sua mulher e filha residem pega fogo e ambas desaparecem, quando ele retorna de mais uma jornada de trabalho.
A construção desse incêndio, se o Oscar for justo, dará o prêmio ao diretor de fotografia brasileiro. O paralelismo entre a paisagem e os sentimentos do personagem tem aqui o seu ápice: as chamas exprimem o desespero e o que vemos é a fragilidade de um corpo que avança até onde consegue em meio à mais completa devastação do cenário.
O filme passa a ser a reconstrução desse personagem, em uma construção cuidadosa ao mostrar que a esperança de retorno dessa mulher e dessa filha, jamais o permitirá superar o trauma. Mas o tempo passa, outros elos se refazem e acompanhamos Granier em sua jornada de profunda resiliência diante dos ciclos da vida e da natureza.
Inteiramente filmado com luz natural em locações no Noroeste dos Estados Unidos, Sonhos de Trem poderá dar um prêmio inédito a Veloso, que já é o primeiro brasileiro a receber duas indicações – uma ao Oscar e outra ao BAFTA – como diretor de fotografia. “Que ano para o Brasil”, disse ele, ao receber o Spirit Awards.
“Estou muito feliz por representar o Brasil novamente, a América Latina e todos os imigrantes aqui”, afirmou, ao terminar seu breve discurso com um bordão que vem sendo sua marca e que esperamos ouvir no dia 15 de março: “vai Brasil, vai Corinthians”.