Resumo objetivo:
Há dez anos, um mal-entendido em um convite fez a cenógrafa Es Devlin criar a instalação "Labirinto de Espelhos", que agora integra sua exposição "Sou o Outro do Outro". A obra reflete sobre a fragmentação da identidade, usando espelhos que distorcem a imagem do espectador. A mostra reúne oito instalações de grande escala que abordam temas como questões ambientais, produção de conhecimento e a relação do público com a arte.
Principais tópicos abordados:
1. A origem da obra "Labirinto de Espelhos" a partir de um mal-entendido.
2. O conceito da instalação, que questiona o narcisismo e a fragmentação identitária.
3. A exposição como um todo, que explora temas como meio ambiente, conhecimento e interação com a arte.
4. O perfil de Es Devlin como artista participativa e sua experiência como cenógrafa de grandes espetáculos.
Há dez anos, um mal-entendido deu origem a uma obra de arte. à época, a cenógrafa Es Devlin achou ter recebido por e-mail o convite para conceber uma instalação artÃstica. Ao terminar de ler a mensagem, a inglesa ficou em êxtase e aceitou de pronto a proposta. Foi só quando começou a elaborar o trabalho que ela se deu conta de que tinha havido um engano.
"Como eu estava ocupada fazendo a cenografia de peças e concertos, eu interpretei mal a mensagem. Não era um convite para fazer uma instalação de arte, e sim para criar o cenário de um comercial de perfume da Chanel", diz Devlin, às gargalhadas.
A artista, porém, não engavetou a ideia. Decidiu tirá-la do papel e construir a obra "Labirinto de Espelhos", um dos destaques da exposição "Sou o Outro do Outro", que entrará em cartaz na Casa Bradesco no dia 14 de março.
A mostra leva ao público um conjunto de oito instalações de grande escala, trabalhos que refletem sobre assuntos como questões ambientais, a produção de conhecimento e a relação do público com a arte. Em "Labirinto de Espelhos", por exemplo, Devlin tematizou o fascÃnio do ser humano pela própria imagem ao conceber uma sala formada por grandes painéis espelhados.
O público, porém, se vê refletido nos objetos de forma fragmentada e distorcida, uma vez que os espelhos são formados por diferentes faces.
"à uma quebra com o mito de Narciso. A verdadeira revelação é quando você se olha no espelho e não se reconhece", diz ela, acrescentando que estava refletindo sobre a fragmentação da identidade ao conceber esse trabalho.
"Fiquei interessada em como podemos nos encontrar e nos perder ao mesmo tempo. à uma questão que surgiu porque me perguntavam constantemente em palestras sobre como trabalhar com pessoas poderosas sem perder de vista quem eu sou como artista."
A inglesa não exagera quando diz trabalhar com figuras influentes. Devlin já criou o cenário para shows de nomes como Adele, Beyoncé, Lady Gaga e Miley Cyrus. Devlin diz ter aprendido a se misturar ao processo criativo desses artistas para descobrir as próprias ideias.
"Eu não tenho medo de me perder. Eu sou capaz de deixar as bordas da minha própria identidade se tornarem porosas, de modo que não sei onde eu termino e o outro começa", diz ela. "Essa exposição é um estudo sobre como redesenhar as bordas de si mesmo, como refinar e definir o espaço entre mim e o outro."
Assim como "Labirinto de Espelhos", Devlin fez outros trabalhos para responder a questões que apareciam de forma recorrente em palestras. à isso o que pode ser visto na instalação "Biblioteca Infinita", projeto que surgiu após perguntarem de onde ela tira inspiração para seus trabalhos.
Como resposta, idealizou uma estante triangular de seis metros de altura com cerca de 4.000 livros importantes para a sua formação. A obra já foi exposta em Miami, nos Estados Unidos, e agora chega a São Paulo.
"Eu recorro a cada pedaço de pensamento que pude acessar por meio da leitura. Foi através de autores como Charles Dickens e Fiódor Dostoiévski que aprendi que a minha dor é a mesma dor compartilhada por outras pessoas. A biblioteca é como uma bússola da mente, apontando para novos mundos", diz ela, recorrendo às palavras do escritor Umberto Eco.
Trabalhos como esses nasceram a partir de uma sensibilidade para dialogar com o público, possivelmente uma herança de sua atuação como cenógrafa de grandes espetáculos. Não à toa, Devlin costuma elaborar trabalhos participativos, ou seja, projetos que convidam o público a uma determinada ação.
"Há uma inteligência coletiva na plateia. Se um ator faz um movimento falso durante uma peça, o público percebe na hora, porque é difÃcil enganá-lo", diz a artista. "Faço os meus trabalhos tendo em mente esse sentido muito apurado de como as pessoas podem receber cada obra."
Curador da exposição, Marcello Dantas diz que a produção de Devlin chamou a sua atenção justamente por dialogar com o público. "Não é um trabalho apenas para ser visto, porque ele só faz sentido a partir do contato com as pessoas", diz o profissional, para quem a artista é capaz de falar com públicos amplos, desde quem vai a um show de música pop até aqueles que frequentam galerias de arte.
"à raro alguém circular nesses dois mundos com a fluidez que ela demonstra e, ainda assim, conseguir manter a própria autoria."