Resumo objetivo:
O artigo aborda a formulação do Credo Niceno-Constantinopolitano durante o Concílio de Niceia (325 d.C.), convocado pelo imperador Constantino para resolver divisões teológicas na Igreja. O debate central foi a natureza de Cristo, opondo a visão de Ário (que via Jesus como criatura divina, mas distinta do Pai) à de Alexandre de Alexandria (que defendia a consubstancialidade entre Pai e Filho). O resultado foi a condenação do arianismo e a definição de Jesus como "consubstancial ao Pai", embora as disputas teológicas tenham persistido após o concílio.
Principais tópicos abordados:
1. A definição da natureza de Cristo no Concílio de Niceia.
2. O conflito entre o arianismo e a visão de consubstancialidade.
3. O papel do imperador Constantino na mediação e oficialização das decisões.
4. O impacto histórico do credo na doutrina cristã e suas controvérsias posteriores.
"Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai": em ocasiões especialmente solenes, a liturgia católica ainda costuma soltar essa bomba de conceitos teológicos da Antiguidade Tardia na cabeça dos fiéis durante a missa. Para quem não a conhece, explico: a terminologia complicadÃssima e poética da passagem acima faz parte do Credo Niceno-Constantinopolitano, a profissão de fé que define os elementos fundamentais da crença dos católicos (e da maioria dos cristãos ocidentais).
O tema do episódio de hoje da nossa série Como Deus Nasceu é o prefixo "Niceno" no nome do Credo: ou seja, a formulação que ele adquiriu durante o ConcÃlio de Niceia, reunião de centenas de bispos realizada no ano 325, na Ãsia Menor (atual Turquia). O trecho que citei se refere inteiramente a Jesus, porque o grande tema dos debates teológicos em Niceia foi o mesmo que tem monopolizado as colunas por aqui nas últimas semanas: a cristologia, ou seja, a natureza de Cristo e sua relação com o Deus único judaico-cristão.
As decisões do concÃlio só acabaram ganhando caráter oficial porque receberam o apoio de Constantino, o primeiro imperador romano cristão. Acima de tudo, Constantino desejava o fim dos debates sobre o tema que andavam dividindo a Igreja e exigiu que os bispos chegassem a uma solução de consenso. Participou pessoalmente do concÃlio, embora não tenha tomado parte nas votações.
As duas grandes posições em confronto durante os debates em Niceia eram representadas, de um lado, por Alexandre, arcebispo e patriarca da metrópole egÃpcia de Alexandria, e, de outro, o presbÃtero (sacerdote) Ãrio, nascido na atual LÃbia, mas também membro do clero de Alexandria.
A posição de Ãrio, conhecida como arianismo, tinha conquistado um número considerável de adeptos e costuma ser resumida com variantes da seguinte frase: "Houve um tempo em que Cristo não existia". Para Ãrio, Jesus era divino e tinha existido desde antes da criação do Universo. Porém, dois fatores o distinguiam claramente de Deus Pai: 1) ele havia sido criado por Deus tal como as demais criaturas, num ponto definido do tempo; 2) sua essência, ainda que divina, era fundamentalmente diferente da de Deus Pai.
Alexandre e seus apoiadores, porém, defendiam uma visão na qual Deus Pai e Deus Filho tinham a mesma natureza e estavam juntos "antes de todos os séculos" (outra frase-chave do Credo).
Entre 200 e 300 bispos participaram das discussões em Niceia (as listas de nomes e os números citados em outras fontes variam). Estavam presentes em peso sobretudo os prelados da parte oriental do Império Romano, o que faz sentido, considerando que o avanço cristão anterior a Constantino tinha sido especialmente forte nessas provÃncias. O papa de então, Silvestre, não compareceu, mas enviou um representante.
Embora Ãrio inicialmente contasse com algumas dezenas de defensores, só dois deles se opuseram à formulação final do Credo após os debates, a qual condenou de forma inequÃvoca o arianismo nas votações. Essa dupla e o próprio Ãrio, também renitente, acabaram sendo exilados por Constantino como punição. O novo Credo sacramentava que Jesus tinha a mesma natureza, era "consubstancial" ao Pai (em grego, "homoússios", ou seja, "feito" da mesma substância ou essência que Deus).
A grande ironia é que, embora muitos cristãos de hoje continuem usando a mesma formulação, o debate ainda estava muito longe de ser encerrado quando Niceia terminou. Para continuar nossa narrativa, peço a opinião dos fiéis leitores da série. A seguir, será que devo abordar os debates teológicos que dividiram os cristãos no fim da Antiguidade? Ou é melhor partirmos para as origens do Islã, a última etapa da jornada? Agradeço as contribuições nos comentários.