Resumo objetivo:
A notícia destaca a trajetória da atriz Léa Garcia como símbolo de arte e resistência antirracista no Brasil. Ela obteve projeção internacional ao ser indicada ao Festival de Cannes por "Orfeu Negro" e, como egressa do Teatro Experimental do Negro, usou sua carreira para combater o racismo e ampliar o protagonismo negro nas artes cênicas.
Principais tópicos abordados:
1. A carreira artística de Léa Garcia no teatro, cinema e TV, com ênfase em seu papel em "Orfeu Negro" e a indicação em Cannes.
2. Sua atuação como militante antirracista e sua ligação com o Teatro Experimental do Negro (TEN).
3. A importância do TEN como movimento cultural e político para a valorização da identidade negra.
4. Experiências pessoais de racismo que influenciaram seu ativismo e trajetória artística.
Léa Garcia: arte e resistência nos palcos do Brasil
Egressa do Teatro Experimental do Negro e indicada ao Festival de Cannes, atriz usou carreira para denunciar o racismo e ampliar o protagonismo negro nos palcos, na TV e no cinema
Há 93 anos, em 11 de março de 1933, nascia a atriz Léa Garcia. Egressa do Teatro Experimental do Negro, Léa obteve amplo destaque internacional ao ser indicada para o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes por seu papel em “Orfeu Negro”.
Ao longo de uma prolífica carreira de mais de 70 anos, ela se consolidou como uma referência da luta antirracista, ajudando a ampliar o espaço para os artistas negros nos palcos do Brasil.
Léa atuou no teatro, no cinema e na televisão, destacando-se pela interpretação cativante e pela expressividade cênica, dando vida a personagens marcantes da teledramaturgia nacional.
Da juventude ao Teatro Experimental do Negro
Natural do Rio de Janeiro, Léa Lucas Garcia de Aguiar era filha de Stela Lucas e José dos Santos Garcia. Manifestou na adolescência o interesse pela arte, sobretudo pela poesia, dedicando-se a ler obras de Cruz e Sousa e Langston Hughes.
Após perder a mãe aos 11 anos de idade, Léa passou a viver com sua avó materna, Dona Constança, que trabalhava como governanta de uma família abastada de Copacabana.
Convivendo em meio à elite carioca, a jovem estabeleceu contatos importantes, mas também foi alvo de manifestações de racismo e discriminação social. Tais experiências levaram Léa a analisar criticamente a opressão aos negros na sociedade, fomentando desde cedo seu comprometimento com a militância antirracista.
No fim dos anos 40, Léa iniciou um relacionamento amoroso com o intelectual Abdias do Nascimento, que se tornaria seu companheiro e pai de seus dois primeiros filhos. Por influência de Abdias, Léa se interessou pelos clássicos da dramaturgia e ingressou no Teatro Experimental do Negro (TEN).
Considerada uma das mais importantes iniciativas culturais voltadas à valorização da identidade negra, a companhia buscava reabilitar a herança cultural afro-brasileira e ampliar a presença e o protagonismo de artistas negros nos palcos do Brasil.
A atuação do TEN ultrapassou largamente o âmbito das artes cênicas, convertendo-se em um movimento político de relevo, responsável por propor estratégias de enfrentamento ao racismo e de organização política da população negra.
No TEN, Léa estudou dança folclórica com Mercedes Baptista e conviveu ao lado de alguns dos mais aclamados atores negros do Brasil — de Ruth de Souza a Haroldo Costa. Sua estreia nos palcos ocorreu em 1952 com a peça “Rapsódia Negra”, de Abdias do Nascimento, onde interpretou Oxum e declamou versos do poema “O Navio Negreiro” de Castro Alves.
Ao longo dos anos 50, Léa atuou em diversas montagens da companhia, incluindo “O Filho Pródigo”, de Lúcio Cardoso, e “Sortilégio – Mistério Negro”, também de Abdias. Em 1954, participou do Festival O’Neill, encenando textos do dramaturgo norte-americano Eugene O’Neill (“O Imperador Jones”, “Onde Está Marcada a Cruz”, “Todas as Filhas de Deus Tem Asas”).
A atriz também contracenou com Nelson Rodrigues na montagem da peça “Perdoa-me por me Traíres”. Em paralelo, a atriz estreou na televisão, apresentando-se com o elenco do TEN nos teleteatros da TV Tupi.
“Orfeu Negro”
Em 1956, Léa interpretou Mira na montagem de “Orfeu da Conceição”, de Vinícius de Moraes, uma adaptação do mito grego de Orfeu e Eurídice à realidade dos morros cariocas. Dirigida por Léo Jusi e encenada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a obra se tornaria um marco da dramaturgia brasileira.
Os cenários da peça foram projetados por Oscar Niemeyer e a música ficou a cargo de Tom Jobim. Lila de Moraes desenhou os figurinos, Lina de Luca criou a coreografia e Djanira ilustrou os cartazes. Mais de 40 atores negros participaram da peça, incluindo Haroldo Costa (como Orfeu) e Abdias do Nascimento (no papel de Aristeu).
Sucesso de crítica e de público, a peça de Vinícius seria adaptada para o cinema pelo cineasta francês Marcel Camus, sob o título “Orfeu do Carnaval” (ou “Orfeu Negro”). Léa foi convidada para participar do longa-metragem, dessa vez interpretando Serafina.
Lançado em 1959, “Orfeu do Carnaval” foi internacionalmente aclamado, vencendo a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1960.
A atuação destacada de Léa lhe rendeu a indicação para o Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes. A falta de recursos financeiros impediu a brasileira de comparecer ao festival — fator determinante para que ela ficasse em segundo lugar, conforme relatado por Jorge Coutinho.
Léa se destacaria novamente no cinema em 1964, atuando no filme “Ganga Zumba”, de Cacá Diegues, representando Cipriana, a líder altiva que preferiu abandonar o Quilombo dos Palmares a ver Dandara substituí-la no posto de rainha.
Carreira na TV e novas peças
Nos anos 60, Léa participou de alguns seriados e folhetins de sucesso na TV Tupi, na TV Rio e na TV Record (“Vendem-se Terrenos no Céu”, “A Última Testemunha”, “Os Acorrentados”, etc.). Em 1970, transferiu-se para a Rede Globo, onde estreou com a novela “Assim na Terra como no Céu”, de Dias Gomes.
A partir de então, tornou-se um nome recorrente da teledramaturgia, atuando em dezenas de novelas. Nos anos 70, trabalhou em “Minha Doce Namorada”, “O Homem que Deve Morrer”, “Selva de Pedra”, “Os Ossos do Barão”, “Fogo Sobre Terra” e “A Moreninha”, entre outras obras.
Em 1976, Léa interpretou uma de suas personagens mais conhecidas: Rosa, a vilã de “Escrava Isaura”, novela de Gilberto Braga baseada no romance homônimo de Bernardo Guimarães.
Sucesso estrondoso de público, a novela foi exibida em mais de 80 países, consagrando Léa como atriz de fama internacional — o que não impediu que fosse alvo de manifestações hostis de telespectadores incapazes de diferenciar realidade e ficção.
Como estratégia para contornar o tempo exíguo de fala nos papéis secundários que costumavam ser reservados aos atores negros, Léa desenvolveu uma habilidade cênica singular, trabalhando o olhar e a expressividade corporal dos sentimentos.
A atriz também militou pela igualdade de oportunidades nos palcos e pela superação dos papéis racialmente estereotipados — mudança que transparece em alguns de seus trabalhos nos anos 80, sobretudo “Marina”, onde interpretou uma professora de história de uma escola particular que tem que lidar com a discriminação.
Léa foi a responsável por convencer o diretor Herval Rossano a alterar o texto sobre Zumbi dos Palmares enunciado por sua personagem, substituindo a visão colonialista sobre os quilombolas por uma abordagem afrocentrada, elaborada pelo Instituto de Pesquisa das Culturas Negras.
Em 1983, Léa contracenou com Bibi Ferreira no musical “Piaf – A Vida de Uma Estrela da Canção”, onde interpretou Josephine Baker, figura eminente da luta antirracista. Também atuou em “A Missa do Quilombos”, peça dirigida por João das Neves questionando a repressão da Igreja Católica contra os negros.
Em 1988, participou da minissérie “Abolição”, de Wilson Aguiar Filho, em homenagem ao centenário da abolição da escravatura. Concomitantemente, Léa exerceu o cargo de servidora pública no Ministério da Saúde, desenvolvendo atividades de teatro terapia com os internos do Hospital Psiquiátrico Philippe Pinel.
A atriz também ocupou um assento no Conselho de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e foi diretora artística do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Direções (SATED). Em 1994, foi laureada com a Medalha Pedro Ernesto, concedida pela Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro em reconhecimento às suas ações cívicas.
Últimos trabalhos
Léa Garcia seguiu atuando em diversas novelas e minisséries de destaque nas últimas décadas (“Dona Beija”, “Tocaia Grande”, “Xica da Silva”, “Agosto”, “A Viagem”, “Anjo Mau”, “O Clone”, “Sol Nascente”, etc.). Tornou-se também uma referência basilar para as novas gerações de artistas negros no teatro e no cinema.
Nos palcos, atuou na montagem de “Anjo Negro”, peça que havia sido escrita em 1948 por Nelson Rodrigues especialmente para o TEN, e em “As Pequenas Raposas”, clássico de Lillian Hellman.
No cinema, Léa atuou em “As Filhas do Vento”, de Joel Zito Araújo, uma história sobre diferentes gerações de mulheres negras de uma mesma família. Sua atuação lhe rendeu o Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Gramado, compartilhado com Ruth de Souza.
Entre seus últimos trabalhos, destaca-se “Um Dia com Jerusa”, drama de Viviane Ferreira abordando questões relacionadas à memória, ancestralidade e solidão.
Léa Garcia faleceu em Gramado, em 15 de agosto de 2023, aos 90 anos de idade, no mesmo dia em que receberia um troféu em sua homenagem.