Resumo objetivo: O artigo argumenta que o projeto neoliberal promove uma desqualificação sistemática da política, associando-a exclusivamente à corrupção e à ineficiência. Para isso, conta com o papel de uma mídia comercial que, ao priorizar o espetáculo e o escândalo, esvazia o debate público e desgasta as instituições estatais. O resultado é a despolitização da sociedade, o descrédito na representação popular e o fortalecimento da lógica individualista do mercado.
Principais tópicos abordados:
1. A crítica ao neoliberalismo como projeto que busca subordinar a política à gestão econômica.
2. O papel da mídia (com destaque para a Rede Globo) como instrumento de "violência simbólica" que banaliza a política e fomenta a descrença nas instituições.
3. As consequências desse processo: a despolitização da sociedade, o cinismo e o enfraquecimento da democracia substantiva.
Desde o advento do neoliberalismo se nota um esforço enorme para desqualificar o fazer político, rebaixá-lo à condição de fomentador da corrupção, da criminalidade, dos desvios na Justiça e na vida pública em geral.
Para tanto, contam com a contribuição de uma mídia acritica e engajada nas campanhas para desgastar o Estado, o setor público, as estatais e a representação popular.
A mídia do Brasil pode parecer acrítica, mas é extremamente politizada. A rede Globo (família Marinho) representa bem o que estamos comentando neste breve texto.
Quero comentar esse tema complexo em três movimentos: a natureza do projeto neoliberal, o papel da mídia como “arma” simbólica e as consequências para a representação popular.
Há um projeto deliberado de reestruturação das relações entre o campo econômico, o campo político e o campo midiático.
O neoliberalismo é, como analisou Pierre Dardot e Christian Laval, uma “nova razão do mundo”, uma racionalidade que tende a generalizar a lógica da concorrência e da empresa para todas as esferas da vida.
Do ponto de vista de Pierre Bourdieu, o que o neoliberalismo opera é uma tentativa de reduzir a autonomia do campo político. Se a política é o lugar onde se decide o bem comum com base em valores (justiça, igualdade, democracia substantiva, solidariedade), o neoliberalismo quer transformá-la em mero apêndice da gestão econômica. A política deve apenas administrar, gerenciar as “leis naturais” do mercado.
Para que o mercado ocupe o centro, é preciso esvaziar o lugar da política.
Daí o esforço sistemático para associar o “fazer político” exclusivamente à corrupção, ao interesse privado e à ineficiência.
A política deixa de ser a “ágora” (o espaço nobre de Hannah Arendt) e passa a ser sinônimo de sujeira, de imoralidade e corrupção incontrolável.
Neste ponto, Bourdieu é particularmente útil, especialmente em sua obra “Sobre a Televisão” (1997). Ele analisa como o campo jornalístico (e midiático) exerce um poder de censura invisível sobre os outros campos, incluindo o político.
A mídia que assistimos no dia a dia não é necessariamente aquela que defende um partido específico, mas aquela que opera segundo uma lógica comercial que, estruturalmente, favorece a despolitização.
Os critérios da notícia (o espetáculo, o escândalo, o factual) tendem a afastar o debate aprofundado de ideias.
Bourdieu mostra como a televisão convida ao lugar-comum, à banalidade, à tolice, à fofoca, ao pensamento estereotipado, porque é o que vende e não exige esforço intelectual do espectador. A complexidade da política (negociações, mediações, projetos de longo prazo, a geopolítica, pensar a Totalidade) é substituída pelo escândalo moral. A corrupção cativa, a política entedia e aborrece.
Vejam a TV Globo: sempre tende a pegar um caso de corrupção e generalizá-lo para toda a atividade política. É o que se chama de efeito de “halo”: a parte (um político corrupto) contamina o todo (o mundo da política). O resultado é a descrença generalizada nas instituições.
Ao desgastar moral e eticamente o Estado, o setor público e as estatais, a mídia comercial presta um serviço inestimável ao capital privado. A conversa fiada é sempre a mesma: “o Estado é ineficiente e corrupto; o mercado é ágil e virtuoso”. Essa repetição constante, como nos lembra Bourdieu, tem um efeito de violência simbólica: ela naturaliza uma visão de mundo que serve a interesses muito específicos e particularíssimos.
Se a política é apenas um antro de corruptos, qual a razão de participar? O resultado é o recolhimento ao privado, o cinismo, a abstenção eleitoral e a busca por soluções individuais (o “cada um por si”) para problemas que são coletivos. É a vitória do homo economicus (competitivo, isolado) sobre o zoon politikon (animal político de Aristóteles/Hannah Arendt).
Nesta hora, é dificil esquecer os fenômenos fabricados (pela direita) como Collor e Bolsonaro. Ambos foram eleitos depois de escândalos de corrupção e de desqualificação das instituições políticas. Ambos foram considerados “outsiders”, quer dizer, aqueles que não eram políticos, mas homens probos e confiáveis. Ambos, hoje, está encarcerados por crimes contra o Estado e a democracia. E rematados corruptos.
O grande paradoxo é que esse esforço para desqualificar o fazer político é, ele próprio, um ato profundamente político. É uma luta no interior do campo político e do campo do poder para impor uma nova definição do que é legítimo.
Quando a mídia e setores econômicos dizem “a política é corrupta, não se meta”, eles estão, a rigor, fazendo política. Estão tentando convencer os “profanos” (expressão de Bourdieu para os cidadãos comuns) a abandonar o jogo, para que ele fique restrito aos “profissionais” que servem a interesses privados.
Recuperar a política, portanto, exige um duplo movimento:
a) Desmascarar a crítica neoliberal como aquilo que ela é: uma estratégia de dominação que usa a corrupção real (que existe) como biombo para deslegitimar qualquer ação coletiva
b) Reafirmar o valor da política no sentido arendtiano: como o único espaço onde podemos, juntos, decidir um futuro coletivo que não seja apenas a soma dos nossos interesses privados.
Neste ano eleitoral no Brasil, toda essa ordem de elementos complexos, devem estar na consciência e na prática diária de nossos candidatos e eleitores.
*Cristóvão Feil é sociólogo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.