A Raízen, maior produtora de cana-de-açúcar do mundo, entrou com pedido de recuperação extrajudicial de dívidas, atribuindo a crise financeira aos elevados juros no Brasil e à grave situação econômica na Argentina, que elevaram seus custos e comprometeram o caixa. O plano de reestruturação prevê a renegociação com credores, incluindo a conversão de parte da dívida em ações, aportes de sócios como Shell e Cosan, e a venda da operação argentina. A empresa afirma que o processo não impacta suas operações correntes e tem como objetivo reduzir significativamente seu nível de endividamento.
Principais tópicos abordados:
1. Motivos da crise: Juros altos no Brasil e crise econômica na Argentina.
2. Medidas de reestruturação: Renegociação de dívidas, conversão em ações, aportes de sócios e venda de ativos.
3. Impacto operacional: A empresa garante que as operações e relações com clientes e fornecedores seguem normais.
4. Contexto dos investimentos: Expansão acelerada em um cenário macroeconômico anterior mais favorável.
Em seu pedido de recuperação extrajudicial, a RaÃzen culpa as elevadas taxas de juros no Brasil e a situação econômica da Argentina pela crise financeira que a levou a buscar a renegociação de suas dÃvidas.
Em nota, a companhia afirmou que o processo não tem impacto em suas operações nem nas relações com clientes e fornecedores. A empresa é a maior produtora de cana de açúcar do mundo e a segunda maior distribuidora de combustÃveis do paÃs.
No pedido de recuperação extrajudicial, os advogados da RaÃzen afirmam que a empresa fez expressivos investimentos nos últimos anos em aquisições e novas plantas de biocombustÃveis, como parte de "estratégia de expansão para se consolidar como produtor global de combustÃveis renováveis".
As decisões de investimento, diz, foram "tomadas em contexto macroeconômico substancialmente mais favorável do que o atual". Nesse perÃodo, a RaÃzen comprou operações na Argentina e no Paraguai, formou parceria para explorar as lojas Oxxo e entrou no segmento de energia.
"Desde então, verificou-se relevante deterioração das condições econômicas no Brasil e em outros paÃses em que o Grupo RaÃzen atua, notadamente na Argentina, em meio à escalada nacional e global das taxas de juros e ao agravamento dos indicadores macroeconômicos", prossegue o texto.
O texto ressalta que, no Brasil, a taxa básica de juros ficou acima de 12% por 20 meses, chegando a 15% nos últimos oito meses, o que "elevou de forma significativa o custo financeiro da dÃvida, comprometendo a geração de caixa e impedindo, ao menos temporariamente, a redução orgânica do nÃvel de endividamento".
"Em âmbito regional, particularmente na Argentina, a inflação persistentemente elevada (superior a 40% a.a.) e a volatilidade macroeconômica resultaram em desafios severos, pressionando custos operacionais e toda a dinâmica de precificação dos produtos", continua a companhia.
O processo de recuperação extrajudicial prevê renegociação com credores, tanto bancos como detentores de tÃtulos da companhia. A Shell, uma das sócias, se comprometeu a aportar R$ 3,5 bilhões. O empresário Rubens Ometto, dono da Cosan, outros R$ 500 milhões.
A ideia é que os credores venham a converter cerca de 40% da dÃvida em ações da companhia, mas isso ainda passará por negociações. A reestruturação inclui ainda o plano de venda da operação da RaÃzen na Argentina, com o objetivo de levantar US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões) até abril.
Com essas medidas, a expectativa é reduzir a relação dÃvida lÃquida/Ebitda de 5,5 vezes para algo entre 2,5 e 3 vezes, segundo uma pessoa a par das discussões. Empresa e investidores têm até 90 dias para chegar a um acordo.
A empresa diz no pedido de recuperação judicial que, embora o perfil da dÃvida seja de longo prazo, seu tamanho impõe elevados custos de juros e amortizações. Nos próximos 24 meses, diz, o compromisso com amortização é de cerca de R$ 13 bilhões.
Além disso, prossegue, houve impactos na geração de caixa com questões climáticas, redução da produção de etanol no Brasil e maior concorrência com açúcar asiático e etanol de milho brasileiro. entre abril e dezembro de 2025, a empresa diz ter consumido R$ 7,2 bilhõesem caixa para manter as operações.
Nesse cenário, completa a empresa, credores e parceiros operacionais passaram a cortar, encarecer ou restringir crédito, piorando ainda mais a situação de liquidez da companhia.
"Trata-se de cÃrculo vicioso que compromete irremediavelmente sua capacidade de manter recursos financeiros em quantidade suficiente para garantir a continuidade saudável de suas operações e a manutenção do volume de suas receitas", diz.
A recuperação extrajudicial tem o objetivo de suspender por 180 dias cobranças ou execuções de dÃvidas, enquanto os sócios discutem a restruturação financeira com os credores.
Em nota enviada à Folha, a empresa diz que "a proposta foi estruturada em diálogo com esses credores e tem como objetivo estabelecer um ambiente jurÃdico adequado para a negociação e implementação de ajustes em determinadas obrigações financeiras".
"O escopo da recuperação extrajudicial é estritamente financeiro e não envolve dÃvidas ou obrigações operacionais. Dessa forma, permanecem integralmente preservadas as relações da RaÃzen com clientes, fornecedores, revendedores e demais parceiros de negócios, que seguem regidas normalmente pelos respectivos contratos", prosseguiu.
Também em nota, a Shell afirmou que "apoia a decisão da equipe de gestão da RaÃzen de ingressar com um pedido de recuperação extrajudicial".
"Esse processo representa uma medida prudente e necessária para aprofundar o engajamento com as partes relevantes em torno das soluções necessárias para enfrentar os significativos desafios financeiros da RaÃzen e apoiar sua recuperação",afirmou.