Resumo objetivo:
O governo de Gabriel Boric é avaliado como medíocre em políticas públicas, sem deixar um legado duradouro, e terminou mais bem visto por setores liberais do que pela própria esquerda chilena, que se encontra enfraquecida. A transição de poder para o governo de extrema direita de José Antonio Kast traz como principal desafio equilibrar a aliança internacional com os EUA de Trump e a dependência econômica do Chile em relação à China.
Principais tópicos abordados:
1. Avaliação crítica do governo Boric (desempenho em políticas públicas, falta de legado, dependência de partidos tradicionais).
2. Situação da esquerda chilena e movimentos sociais (enfraquecidos).
3. Desafios do novo governo de José Antonio Kast (relação com a extrema direita internacional, dependência da China e posicionamento sobre Michelle Bachelet).
‘Boric conclui mandato com esquerda chilena de joelhos’, avalia cientista política
Segundo María Francisca Quiroga, ex-presidente teve governo ‘medíocre’ em termos de políticas públicas e termina sendo ‘mais querido pelos liberais’
O Chile realiza nesta quarta-feira (11/03) a cerimônia de transição que marca o fim do governo de centro-esquerda de Gabriel Boric e a posse do líder da extrema direita do país, José Antonio Kast.
Segundo a analista política María Francisca Quiroga, mestra em Ciências Políticas pela Universidade do Chile, professora da Academia Diplomática Andrés Bello e diretora-chefe do meio alternativo La Voz de los que Sobran, o evento encerra um mandato de centro-esquerda que foi “bastante medíocre em termos de políticas públicas, pois não deixou nenhum legado duradouro”.
Quiroga afirma que Boric chegou ao poder como um símbolo de renovação da esquerda, em comparação com a velha Concertação (aliança de centro-esquerda que governou o Chile desde o fim da ditadura de Pinochet até meados dos anos 2010), mas “acabou governando com os remanescentes daqueles partidos tradicionais em crise”.
A cientista política também questiona o legado do agora ex-presidente para a esquerda chilena. “Nesses quatro anos, Boric foi mais bem visto pelo mundo liberal, pelos socialistas neoliberais, que o veem como uma figura atraente. Sobre seu setor político, a esquerda está de joelhos no Chile, e os movimentos sociais também estão de joelhos”, observa.
Sobre o recém iniciado governo de José Antonio Kast, Quiroga afirma que terá como principal desafio a tarefa de equilibrar a lealdade ideológica com a extrema direita internacional e em especial por sua afinidade com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que exige de seus aliados um afastamento da China, país com o qual o Chile é economicamente dependente.
Outra incógnita será sobre o posicionamento do novo mandatário com relação à ex-presidente chilena Michelle Bachelet, que governou o país em dois mandatos (2006-2010 e 2014-2018) e que agora é candidata à eleição da Secretaria-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em processo que se desenvolve em diversas sessões durante este ano.
Leia a entrevista completa com a cientista política chilena María Francisca Quiroga:
Opera Mundi: Que é a avaliação dos quatro anos de Gabriel Boric como presidente do Chile?
María Francisca Quiroga: Foi um governo que, em seu início, era repleto de simbolismo, com um componente geracional muito importante pelos líderes estudantis que ascenderam ao poder muito rapidamente, e que vieram dessa matriz política ao estilo da Concertación – podemos dizer que eles eram os “filhos” da Concertación, em termos ideológicos –, e que chegaram ao poder sem passar pelas estruturas partidárias tradicionais, como o Partido Socialista, a Juventude Socialista. No entanto, em última análise, eles tinham um problema central: a falta de capacidade técnica e de uma narrativa política. Permaneceram presos aos slogans que tinham como movimento estudantil, sobre como confrontar o neoliberalismo e outros problemas.
Sem a expertise técnica e as equipes necessárias, Boric acabou governando com os remanescentes da Concertación, com membros do Partido Socialista e, em menor medida, com alguns membros da Democracia Cristã, partidos que estavam em completa crise.
Do ponto de vista das políticas públicas, seu governo foi bastante medíocre, pois não deixou nenhum legado duradouro. A reforma previdenciária e a jornada de trabalho de 40 horas semanais são suas principais vitórias, mas não veio junto com uma mudança mais abrangente na relação entre capital e trabalho: o movimento sindical tem menos poder do que antes, e as administradoras de fundos de pensão (AFPs, empresas de previdência privada) foram fortalecidas.
O grande símbolo deste governo talvez seja o de não usar gravata, algo que o presidente conseguiu manter do primeiro ao último dia, mas que é uma marca meramente estética, que é característica de certos quadros da Frente Ampla e alguns do Partido Comunista.
Como você acha que Boric será lembrado? Ele poderia ser presidente novamente no futuro?
Boric tem um futuro político pela frente. Ele cumpriu 40 anos recentemente, terá tempo para se reinventar e inclusive está reconstruindo sua estrutura político-partidária.
Mesmo com a esquerda em crise e a opinião pública se deslocando para a direita, ele poderia voltar a ser uma figura política relevante no futuro, com o voto obrigatório. Será preciso avaliar como seu discurso se mantém vigente ao longo do tempo em questões como economia e segurança. Certamente, também vai depender do que acontecer com o governo de Kast.
Desde que o Chile implementou o voto obrigatório (em 2020), a cena política se tornou muito volátil. Isso faz com que os partidos precisem fortalecer o seu trabalho de base, e a Frente Ampla tem muito pouco trabalho de base, depende das redes sociais e de certos grupos urbanos.
No aspecto pessoal, Boric será lembrado como um presidente jovem, acessível, que andava de bicicleta, não usava gravata, que encontrou o amor quando era presidente e que teve uma filha durante o seu mandato.
Se você pensar bem, essa é a narrativa. Esse personagem doce e emotivo, o homem que amadurece, é muito valorizado por setores liberais. Acho que Boric conquistou nesses quatro anos foi ser muito bem visto pelo mundo liberal, pelos socialistas neoliberais. O liberalismo o vê como uma figura atraente.
Mas do ponto de vista do seu setor político, não deixa uma boa impressão. No momento, a esquerda também está de joelhos no Chile, e os movimentos sociais também estão de joelhos. É um governo que acaba desmantelando os movimentos sociais e deixando as bases mobilizadas ainda mais desmobilizadas.
O que se pode esperar do governo de José Antonio Kast? Qual é o seu projeto?
Se trata de uma figura conservadora, católica e formada por Jaime Guzmán, que foi o ideólogo da ditadura de Pinochet (1973-1990).
Surgiu na União Democrata Independente (UDI), partido símbolo do pinochetismo, mas, nos últimos oito anos, ele se transformou nessa figura ligada à extrema-direita internacional, empregou todas as estratégias de comunicação, construiu o Partido Republicano e derrotou a própria UDI e o Renovação Nacional (RN), outro partido tradicional da direita.
De certa forma, ele é um fenômeno muito semelhante ao de Boric, mas à direita. E, assim como Boric inspirava novos ares à esquerda, mas terminou governando como a esquerda tradicional, Kast ascendeu como uma novidade na direita, mas tende a governar como a direita tradicional.
Será um governo sintonizado com o setor empresarial, com essa estrutura econômica neoliberal e, por outro lado, com um forte foco no desempenho da comunicação, com um forte componente estético de rechaço ao que fez a Frente Ampla, o retorno da gravata será o símbolo da restauração da ordem.
Há um projeto político-econômico de redução do tamanho do Estado. Acho que isso vai ser bem brutal, porque o Chile é um país com um Estado bastante reduzido e uma estrutura neoliberal. O Chile já teve reformas neoliberais durante a ditadura, e elas foram mantidas nos governos de centro-esquerda da Concertação.
Um dos seus desafios será como alimentar sua base e a expectativa em relação ao governo de emergência, que servirá de estrutura para tudo. O eleitorado chileno está atualmente impaciente, indignado, e o humor pode mudar de um momento para o outro. Ele é conservador, vai buscar alianças ideológicas e baseadas em valores dos Estados Unidos e em uma sintonia com Donald Trump.
Como Kast conseguirá equilibrar essa afinidade ideológica com Trump e a necessidade econômica do Chile de manter suas relações com a China, mesmo com o presidente americano exigindo que seus aliados se distanciem do gigante asiático?
Será um dos seus maiores desafios. Todo o setor empresarial chileno está fortemente atrelado à China, os negócios são e seguirão sendo com a China.
Kast aposta no fato de que os chineses são pragmáticos, e a direita chilena sabe manter essa abordagem nas negociações. Mas, se os Estados Unidos impuserem novas regras ao jogo sobre a relação dos países do continente com a China, creio que o governo se inclinará a ceder aos elementos mais políticos e simbólicos de Washington, o que pode ser um problema para a relação com o setor empresarial chileno, que prefere manter a paz com Pequim.
Esse pragmatismo, baseado na lógica de que as empresas chilenas criarão negócios com a China e os Estados Unidos, deu certo nos últimos anos, mas não sei se haverá espaço para manobrar a partir da postura adotada por Trump em seu atual mandato. Nesse sentido, o governo terá que encontrar mecanismos para lidar com cenários de maior confrontação entre China e Estados Unidos, com a consciência de que a economia chilena é altamente dependente, todo o setor do agronegócio e, obviamente, toda a mineração, dependem da China.
Ademais, temos que observar a nossa concorrência com relação ao Peru nesse sentido. É um país que vive uma crise política permanente, mas ainda assim, se trata de um país que está avançando em suas relações com a China e concorre com o Chile nos mesmos setores de mineração e agronegócio.
O que pode mudar na relação com o Brasil? Boric era um aliado de Lula. Kast será mais hostil?
Certamente, haverá um distanciamento político-cultural. Porém, lembremos que Boric, no início do seu governo, foi bastante inábil em seu posicionamento com o mundo progressista latino-americano, por suas declarações sobre a Venezuela, e a decisão de fazer suas primeiras viagens internacionais à Europa.
Melhorou com o tempo, especialmente quando compreendeu a importância de Lula como figura e da relação geopolítica com o Brasil. Acho que ele desenvolveu certa experiência ao se aproximar de Lula e outros presidentes da região, e no caso de Lula acho que se configurou uma relação de aprendizagem, que ajudou Boric a entender certas questões.
A partir daí, o Chile começou a adotar uma posição clara de seus líderes em relação ao Brasil, com Pedro Sánchez na Espanha, com Petro na Colômbia, que tem um estilo diferente, e Claudia Sheinbaum no México.
Sobre Kast, acho que ele compreende que o Brasil é muito importante para a economia chilena, e desde essa perspectiva, com um Ministério das Relações Exteriores muito voltado para os negócios, tentará encontrar um equilíbrio. No entanto, começou mal, ao priorizar o filho de Bolsonaro e fazer com que Lula desista de comparecer à posse. Esse tipo de erro não é bem recebido pelo mundo empresarial e quem sustenta o projeto de Kast é a elite empresarial.
Com Kast na presidência, é possível que o Chile retire seu apoio à candidatura de Bachelet para secretária-geral da ONU?
A candidatura de Bachelet tem uma transcendência muito grande no Chile, que é um país que valoriza o sucesso. O Chile é um país que tem essa natureza insular, cercado pelo oceano de um lado e por essa gigantesca cadeia de montanhas do outro, que criam um isolamento geográfico muito peculiar.
Talvez por isso nós gostamos de ter figuras reconhecidas internacionalmente, que obtém sucesso do lado de lá do oceano e da cordilheira, e acho que Bachelet se encaixa nessa descrição. Mesmo quem não gosta da Bachelet ou que critica seus dois mandatos presidenciais a valoriza como uma mulher que teve sucesso na política e seu sucesso em esferas internacionais.
Por isso, acho que Kast tende a ser pragmático nesse aspecto. Ele precisa manter um alto índice de aprovação e trabalhar com tudo relacionado à performance de comunicação, porque não conseguirá cumprir todas as promessas em relação ao combate crime e outras questões programáticas. Fazer essa confrontação com Bachelet por mero capricho ideológico pode significar um desgaste comunicacional que prejudicaria sua estratégia.