A notícia relata que trabalhadores migrantes de baixa renda estão sendo as principais vítimas civis nos ataques recentes no Golfo, como ilustrado pela morte do paquistanês Murib Zaman. Esses imigrantes, que formam a espinha dorsal da economia regional, são mais vulneráveis devido às condições de moradia e à necessidade de continuar trabalhando em serviços essenciais durante o conflito. O artigo destaca que, embora as defesas aéreas interceptem mísseis, os estilhaços resultantes causam mortes, e a maioria das vítimas é estrangeira, refletindo sua grande proporção na população local.
Principais tópicos abordados:
1. A vulnerabilidade e as mortes de trabalhadores migrantes em ataques no Golfo.
2. A dependência econômica dos países do Golfo em relação à mão de obra estrangeira.
3. O impacto humanitário do conflito regional na população civil migrante.
4. As condições de risco específicas enfrentadas por esses trabalhadores (moradias, empregos essenciais).
Murib Zaman trabalhou como motorista nos Emirados Ãrabes Unidos por duas décadas, vivendo a mais de 1.600 km de distância de sua famÃlia no noroeste do Paquistão e enviando US$ 300 âpouco mais de R$ 1.500â para casa todo mês.
A cidade bem cuidada de Abu Dhabi, capital dos Emirados, parecia muito mais segura do que sua remota aldeia, onde militantes do Talibã paquistanês circulavam livremente. Por isso, quando sua famÃlia recebeu a notÃcia de que ele havia sido morto em uma guerra distante âatingido por destroços de um mÃssil iraniano interceptado, segundo comunicado dos Emirados Ãrabes Unidosâ, ficou em choque.
"Toda famÃlia quer mandar seus jovens para o Oriente Médio porque não há empregos aqui, e a situação de segurança é difÃcil", diz o primo de Zaman, Farman Khan, em entrevista por telefone. "Mas agora parece que até esses paÃses não são mais seguros."
Dezenas de milhões de homens e mulheres como Zaman, que tinha cerca de 40 anos, formam a espinha dorsal da economia nos paÃses do Golfo Pérsico, nações ricas em petróleo e gás natural que dependem fortemente de trabalhadores estrangeiros.
Desde que o ataque americano-israelense ao Irã começou, o paÃs disparou centenas de mÃsseis e drones em retaliação contra vizinhos do Golfo. São os imigrantes que estão pagando o preço mais alto. Pelo menos 12 civis foram mortos em ataques nos Emirados, Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Omã e Bahrein, segundo levantamento do New York Times com base em fontes oficiais. Todos, exceto um, eram estrangeiros.
A primeira morte de um cidadão do Golfo foi anunciada na terça-feira (3), quando o Ministério do Interior do Bahrein informou que um ataque iraniano a um prédio residencial havia matado uma mulher de 29 anos. Autoridades iranianas afirmam que estão atacando bases militares americanas e interesses dos EUA nos paÃses do Golfo, não alvos civis.
Contudo, os ataques iranianos também atingiram infraestrutura civil, incendiando hotéis cinco estrelas e danificando uma usina de dessalinização de água vital. E embora os militares do Golfo possuam sistemas avançados de defesa aérea, a interceptação de mÃsseis e drones pode fazer com que estilhaços caiam, com efeito mortal.
No domingo (1º), Mosharraf Hossain, um faxineiro de Bangladesh e pai de dois filhos, foi morto junto com um colega de trabalho quando um projétil militar caiu na área de alojamento da empresa na Arábia Saudita, segundo a autoridade de defesa civil do reino e o primo de Hossain.
"A morte dele deixou a famÃlia com um futuro incerto", afirma o primo, Mizanur Rahman, em entrevista por telefone. "Eles estão especialmente preocupados com o futuro dos filhos. Ele era o único provedor."
Embora muita atenção pública tenha se concentrado em viajantes e trabalhadores dos EUA e da Europa tentando deixar a região, a maioria dos migrantes no Golfo vem do resto do mundo â Ãfrica, Ãsia e outros paÃses do Oriente Médio.
Sem dúvida, uma razão pela qual quase todos os civis mortos eram estrangeiros é que eles compõem a maioria da população da região. Na Arábia Saudita, os residentes estrangeiros representam cerca de um terço da população; nos Emirados e no Catar, a proporção é estimada entre 80% e 90%.
Entretanto, os trabalhadores migrantes de baixa renda também são vulneráveis à medida que o conflito se amplia. Eles têm maior probabilidade de viver em moradias superlotadas com rotas de saÃda insuficientes, colocando-os em maior risco se ocorrerem explosões ou incêndios.
E têm maior probabilidade de ocupar empregos essenciais, como caixas de supermercado, trabalhadores de saneamento e motoristas de entrega, que exigem que continuem trabalhando normalmente enquanto muitos cidadãos e residentes estrangeiros mais ricos podem se abrigar.
"Há mais de uma semana, sempre que há uma explosão ou interceptação de mÃssil, corremos para fora dos nossos alojamentos ou locais de trabalho para tentar nos salvar, mas não sabemos o que fazer ou onde nos esconder", diz Majid Ali, 34, trabalhador paquistanês empregado por uma empresa privada de laticÃnios em Dubai.
Ao todo, quatro pessoas foram mortas e mais de 100 ficaram feridas nos Emirados. Para muitas pessoas, a vida continuou quase normal em Dubai, a capital comercial do Oriente Médio e a maior cidade dos Emirados, mesmo com o Irã disparando mais drones e mÃsseis contra os Emirados do que contra qualquer outro paÃs.
Enquanto um alerta de emergência aparecia nos telefones pedindo aos moradores que se abrigassem enquanto interceptadores miravam mÃsseis iranianos, o Dubai Hills Mall seguia com seus rituais de fim de semana. FamÃlias faziam fila para o almoço, e crianças gritavam de alegria em áreas de recreação. Em um estúdio de pilates, a lista de espera se estendia pela tarde.
Outros migrantes disseram que se sentiram divididos sobre se deveriam tentar se juntar à s multidões de turistas e residentes ricos que fugiram para paÃses vizinhos.
Marigold Tan, 38, uma filipina coordenadora em uma empresa de e-commerce, estava entre os que decidiram ficar em Dubai, apesar de seus medos.
Quando os ataques começaram, Tan não sabia se deveria correr para casa e começar a fazer as malas para as Filipinas ou ficar onde estava, disse ela em entrevista por telefone. Os ataques acordavam sua famÃlia em horas absurdas, fazendo-os correr para o porão, afirmou.
Ela tinha as malas de emergência prontas, mas não sabia para onde iriam. "Como mãe, você também tenta manter a calma pelos seus filhos", diz Tan.
Parentes em Manila a instaram a voltar para casa, mas ela hesita. Mesmo agora, Dubai oferece mais do que ela tinha em seu paÃs. "Simplesmente, me sinto mais segura aqui, principalmente quando se trata de segurança e saúde."
Segundo ela conta, a guerra mudou até as menores rotinas familiares. Seu marido costumava ir ao supermercado sozinho. Agora a famÃlia vai junta, caso algo aconteça. Eles mantêm os passaportes consigo o tempo todo.
As crianças ficam dentro de casa, e Tan começou a ensinar sua filha mais velha o que fazer quando o próximo alerta de ataque soar. "Leve sua irmã para o corredor", ela diz, "e fique longe das janelas."
Partir é uma escolha que normalmente não está disponÃvel para os migrantes mais mal pagos, que estão presos por contratos de trabalho, dÃvidas ou obrigações familiares.
E quaisquer que sejam os riscos que enfrentam nos paÃses do Golfo âmais comuns do que a guerra são o abuso e a exploraçãoâ, eles continuam vindo, porque as remessas que enviam para casa são uma tábua de salvação.