Resumo objetivo:
O Brasil, que já foi referência mundial no controle do tabaco com uma queda consistente na taxa de fumantes desde a década de 1980, vê essa redução perder velocidade a partir de 2015. A desaceleração é atribuída a fatores como crises econômicas, cortes orçamentários, congelamento de preços e, principalmente, à popularização dos cigarros eletrônicos entre os jovens. Como resultado, o país corre o risco de não atingir a meta de reduzir a prevalência do tabagismo para 6,24% até 2030.
Principais tópicos abordados:
1. A trajetória histórica e o sucesso das políticas brasileiras de controle do tabaco.
2. A desaceleração recente na redução do número de fumantes e seus motivos (crise econômica, menos investimentos, estagnação regulatória).
3. O impacto dos cigarros eletrônicos e outros dispositivos, especialmente entre os jovens, como um novo desafio para as políticas públicas.
Durante boa parte do século 20, fumar era um hábito amplamente difundido e socialmente aceito no Brasil. A publicidade associava o cigarro a sucesso, elegância e modernidade, e o consumo era comum em ambientes fechados e na presença de outras pessoas, inclusive de crianças. Esse cenário começou a mudar a partir de 1986, quando o paÃs estruturou polÃticas consistentes de controle do tabaco, em resposta à s evidências sobre seus danos à saúde.
Dados epidemiológicos ajudam a dimensionar essa transformação: um estudo publicado em 2007 no Bulletin of the World Health Organization aponta que, em 1989, 34,8% da população adulta brasileira era fumante. Desde então, a taxa de prevalência do hábito vem caindo de forma consistente a cada ano, consolidando o Brasil como uma referência internacional nas polÃticas de controle do tabaco.
Embora a tendência de queda persista, a redução perdeu velocidade nos últimos anos. Uma pesquisa publicada em dezembro de 2025 na revista Ciência & Saúde Coletiva aponta que ainda existem obstáculos a serem superados. Com base em dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, os pesquisadores verificaram que a proporção de fumantes nas capitais estaduais tem caÃdo em um ritmo mais lento desde 2015 e 2016.
Em 2006, aproximadamente 15,7% dos brasileiros faziam uso de tabaco; em 2023, esse valor era de 9,3%, o que representa uma redução média de 3,3% ao ano. O problema é que, se esse ritmo for mantido, os autores projetam que o paÃs chegará a 2030 com uma prevalência de tabagismo de 7,96%, valor acima da meta de 6,24%, estabelecida para a década desde 2021.
Uma série de fatores ajuda a explicar os motivos dessa desaceleração. "Os anos de 2015 e 2016 foram marcados por intensa instabilidade polÃtica e crises econômica e fiscal, que levaram a medidas de austeridade, cortes orçamentários e limites aos gastos públicos. Esse contexto comprometeu o financiamento e a priorização de diversas polÃticas sociais, incluindo ações de saúde", afirma a médica Deborah Carvalho Malta, professora da UFMG e uma das autoras da pesquisa.
Outros fatores que entram na conta são: ausência de avanços regulatórios, o congelamento do preço dos cigarros entre 2016 e 2024, propostas de redução de preços dos produtos à base de tabaco, além do menor investimento em fiscalização e no combate ao contrabando. E é claro: o surgimento e a popularização de cigarros eletrônicos, vapes, pods e vaporizadores também contribui para que mais pessoas comecem a fumar.
Os novos dispositivos
O cigarro eletrônico surgiu no inÃcio dos anos 2000 como uma proposta de redução de danos para auxiliar na cessação do tabagismo. Os primeiros dispositivos utilizavam nicotina semelhante à do cigarro convencional, o que provocava irritação na garganta e resultou em uma baixa adesão. Posteriormente, a indústria modificou a molécula, desenvolvendo os sais de nicotina, que são mais palatáveis e menos irritativos.
"A indústria do tabaco utilizou essa base inicial e investiu fortemente em marketing para vender um novo produto à base de nicotina, com opções de sabores e aromas atrativos, sobretudo para os mais jovens", aponta a pneumologista Telma Antunes, do Einstein Hospital Israelita. Não à toa, hoje é esse o público quem mais busca ajuda nos consultórios médicos para lidar com o tabagismo.
Um estudo de 2022 demonstra que a prevalência de uso de produtos do tabaco entre adolescentes no paÃs aumentou de 10,4% para 14,8%, entre 2015 e 2019. Esse crescimento foi atribuÃdo à adoção de cigarros eletrônicos e narguilé, já que o consumo de cigarros convencionais por esse grupo permaneceu estável no perÃodo.
A popularização dos dispositivos eletrônicos introduziu desafios inéditos à s polÃticas de controle do tabaco, devido ao forte apelo comercial e à ideia de que ofereceriam "menor risco" à saúde. Isso reduziu o efeito das campanhas preventivas antitabagistas, tradicionalmente centradas no cigarro convencional
."Os cigarros eletrônicos reconfiguraram o consumo de nicotina, tornando-o mais discreto e socialmente aceito em determinados ambientes, o que enfraqueceu normas sociais que vinham se consolidando contra o ato de fumar", analisa Malta. "Mesmo em paÃses onde a comercialização é proibida, como o Brasil, observa-se ampla circulação desses produtos por meio do comércio informal e das mÃdias digitais."
Riscos à saúde
Do ponto de vista sanitário, o não cumprimento da meta em 2030 significa manutenção da carga elevada de morbimortalidade associada ao tabagismo, como por casos de câncer de pulmão, boca ou laringe, além de infarto, derrame, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e bronquite. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o tabagismo foi responsável por mais de 161 mil mortes no Brasil em 2020.
Presente naturalmente no tabaco, a nicotina é uma ameaça. Altamente viciante, ela estimula a liberação de dopamina, gerando prazer momentâneo. Seu uso contÃnuo eleva a pressão arterial, acelera os batimentos cardÃacos e pode prejudicar o desenvolvimento cerebral de adolescentes. Com o tempo, provoca tolerância e dependência.
Familiares, crianças, colegas de trabalho e outras pessoas de seu convÃvio podem se tornar fumantes passivos ao respirar a fumaça. Mesmo sem consumir diretamente o produto, são expostas à s substâncias tóxicas e cancerÃgenas, aumentando o risco de desenvolverem doenças.
"Não existe forma segura de consumo de tabaco. Uma hora de narguilé equivale a tragar cerca de 100 cigarros. Da mesma forma, o cigarro de palha, por não ter filtro e atingir temperaturas elevadas, aumenta significativamente o risco de câncer de boca e laringe", exemplifica Antunes.
A desaceleração do controle do tabagismo extrapola a esfera individual e tem impacto direto sobre o sistema de saúde, podendo representar um aumento no número de internações e nos custos assistenciais. De acordo com um estudo do Inca, o tabagismo já resulta em um impacto econômico de R$ 153,5 bilhões por ano aos cofres públicos.
Retomada das estratégias antitabagistas
Diante dos sinais de desaceleração na queda do número de fumantes, retomar e fortalecer as estratégias antitabagistas são medidas importantes. "As campanhas públicas continuam sendo eficazes, mas elas precisam ser acompanhadas de fiscalização rigorosa, manutenção das proibições já estabelecidas e informações atualizadas constantemente sobre os riscos do cigarro", propõe a professora da UFMG.
O combate ao contrabando, tanto de produtos convencionais quanto de dispositivos eletrônicos, é apontado como uma medida central, assim como a revisão da polÃtica tributária.
Além de prevenir, é preciso tratar. O SUS oferece atendimento gratuito para quem quer parar de fumar, com apoio individual ou em grupo e uso de medicamentos como bupropiona e reposição de nicotina em goma ou adesivo, quando indicado. O tratamento combina suporte psicológico e farmacológico, aumentando a chance de abandonar o cigarro e ter recaÃdas.