O artigo analisa o escândalo do caso Master no Brasil, destacando sua magnitude ao arrastar o Supremo Tribunal Federal para uma crise histórica e ao envolver figuras como o presidente do Banco Central e políticos de direita. Paralelamente, o texto introduz um aspecto cultural, criticando a "cafonice" — vulgaridade ostentosa e falta de elegância — das elites envolvidas, exemplificada por gastos exorbitantes com festas. Por fim, articula que essa vulgaridade reflete uma falência cívica profunda, agravando o desalento político-institucional no país.
Principais tópicos abordados:
1. A crise institucional gerada pelo caso Master, com impacto no STF e envolvimento de autoridades.
2. A crítica social ao comportamento "cafona" (ostentação vulgar) das elites envolvidas no escândalo.
3. A reflexão sobre a desigualdade social e a falência cívica como pano de fundo do caso.
O escândalo do Master tem monopolizado a economia da atenção no Brasil. Justo que seja assim, embora um espÃrito cosmopolita possa estranhar que ele consiga gritar tão mais alto do que o desvario trumpista no Irã, que muita gente sensata já considera o inÃcio da Terceira Guerra e quem sabe do fim da vida humana na Terra.
Ensurdecedor, o barulho arrastou o Supremo Tribunal Federal para a maior crise da sua história, embora ainda falte incluir na fatura e investigar na medida justa o papel do Banco Central presidido por Roberto Campos Neto e de um vasto elenco de polÃticos âquase todos de direitaâ na ascensão apoteótica do tal Daniel Vorcaro.
Mesmo com todo esse falatório, tem passado despercebido um aspecto da chacina institucional promovida pelo ex-banqueiro: o grau de cafonice dos envolvidos. Reavivar a palavra cafona, que anda meio escanteada, pode ser a peça que faltava no quebra-cabeça.
Para quem não sabe ou já não se lembra, cafona é uma gÃria brasileira nascida nos anos 1960. Adjetivo e substantivo pejorativo de dois gêneros, vindo provavelmente do italiano "cafone" (inculto, sem modos), significa de mau gosto, vulgar.
A palavra já foi e continua a ser usada como simples sinônimo de tosco, jeca âcom valor negativo basicamente classista, portanto. Esse sentido também está nos dicionários.
No entanto, me arrisco a dizer que a acepção principal de cafona, em torno da qual se cristalizaram seus sentidos mais funcionais e intraduzÃveis, fala de uma vulgaridade diferente.
A vulgaridade cafona envolve ostentação de luxo, encenação de superioridade, rusticidade de espÃrito, fanfarronice, falta de senso de ridÃculo e uma profunda insensibilidade social.
Tudo o que teria atingido o ápice na festa que o chefão do Master contratou na SicÃlia em 2023 por R$ 200 milhões âdos quais a banda Coldplay, responsável por um show privê, teria levado um quarto. A PolÃcia Federal não confirma se a festa contratada chegou a ocorrer.
Em Taormina ou em Trancoso, passando por Londres, num circuito que inclui de eventos para debate de "ideias" a degustações promÃscuas do uÃ$que Macallan âtudo pago com dinheiro de investidores brasileiros lesados, não custa lembrarâ, a cafonice que irmana setores da elite econômica e administrativa do paÃs bate todos os récordes.
Cafonas, sim. Um bilhão de vezes cafonas. Num paÃs que, ainda por cima, está entre os mais desiguais do mundo, a absoluta falta de elegância da turma do Master âos que compraram e os que se venderamâ deveria ser, por si só, crime hediondo.
à preciso ter cuidado. Quando há indÃcios de que até quem teria muito a perder, como Alexandre de Moraes, pode ter se enredado em trama tão grosseira, o desalento polÃtico-institucional ameaça engolir tudo. A velha cafonice passa a refletir então uma nova âe profundaâ falência cÃvica.
Se bem que, se o cafona-mor do Trump trabalhar direitinho, nosso desalento terá ao menos a vantagem de durar pouco âsó até o grande fade-out sem créditos e sem música num cinema vazio do tamanho do mundo.