Resumo objetivo:
O Irã está adotando uma estratégia de guerra de desgaste, utilizando o fechamento do Estreito de Ormuz e ataques à infraestrutura petrolífera de aliados dos EUA no Golfo para pressionar militar e economicamente os Estados Unidos e Israel. A tática busca forçar uma retração desses países em seu projeto contra a República Islâmica, afetando a economia global por meio da instabilidade no preço e no fornecimento de petróleo. Além disso, o silêncio sobre eventuais ataques à liderança iraniana é visto como uma medida de proteção, enquanto a aliança histórica com o Hezbollah no Líbano serve como um teatro indireto do conflito.
Principais tópicos abordados:
1. Estratégia iraniana de guerra de desgaste econômico, com foco no petróleo.
2. Ataques a infraestruturas e o fechamento do Estreito de Ormuz como instrumentos de pressão.
3. A relação do Irã com o Hezbollah no Líbano como extensão do conflito.
4. Medidas defensivas iranianas, como o silêncio sobre ataques à liderança.
5. Impactos amplos dos ataques, incluindo dessalinização de água em países do Golfo.
Com o fechamento do Estreito de Ormuz e ataques a infraestruturas petrolíferas de países aliados dos Estados Unidos na região, o Irã aposta em uma guerra de desgaste para forçar Estados Unidos e Israel a recuarem em seu projeto de destruição da República Islâmica.
“O que a gente está vendo é o desenvolvimento de uma guerra de desgaste, que utiliza de forma muito clara um ataque à economia global para forçar o grupo militar mais forte — Estados Unidos e Israel — a retrocederem no seu projeto de destruição do Irã”, contextualiza o historiador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Murilo Meihy no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
O professor lembra que o uso do petróleo como arma não é novidade. “Todo mundo se lembra do uso da volatilidade do preço do barril nos anos 70, mais especificamente em 73, quando um boicote na produção pelos países da Opep [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] fez o preço subir de forma vertiginosa, atingindo as economias nacionais ao longo de toda a década de 80.”
Na impossibilidade de travar uma guerra simétrica contra a vantagem militar estadunidense e israelense, o Irã utiliza tanto o fechamento do Estreito de Ormuz quanto ataques à infraestrutura petrolífera dos aliados dos EUA no Golfo Pérsico — Barém, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Catar, Kuwait e Omã.
Sobre a informação de que o novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, teria sido ferido no mesmo ataque que matou seu pai, Meihy explica que o silêncio é um recurso de proteção. “Qualquer forma de comunicação dessa liderança deixa um rastro que pode ser alcançado pelo serviço de inteligência das forças inimigas. Esse silêncio é um recurso de proteção, já que Estados Unidos e Israel tornaram evidente que qualquer pessoa que assuma essa posição política é um alvo em potencial.”
Ele lembra que essa estratégia de atingir a liderança política para desestabilizar regimes já foi tentada antes, como no caso da Venezuela com Nicolás Maduro. “Não aconteceu na Venezuela e jamais vai acontecer na República Islâmica do Irã.”
Diante do anúncio iraniano de que a política de ataques recíprocos chegou ao fim e dará lugar a ataques contínuos, Meihy projeta uma escalada estratégica. “Fica claro que a estratégia iraniana é promover um ataque mais ampliado às bases da economia global para forçar Estados Unidos e Israel a atuarem de outra maneira.”
Ele cita os ataques à infraestrutura petrolífera e de gás dos países do Conselho de Cooperação do Golfo. “Esse chamado ataque contínuo se desdobra numa destruição ou num enforcamento das bases econômicas que envolvem os aliados norte-americanos na região. Isso sim será contínuo e é uma estratégia eficiente para fazer com que o mundo mantenha os olhos atentos ao conflito.”
O professor alerta para as consequências mais amplas: “Quando se abala a estrutura petrolífera desses países, não se abala apenas o mercado de petróleo. Grande parte deles precisa do petróleo para a dessalinização da água e para o abastecimento de água potável da população.”
Irã e Líbano: a relação histórica com o Hezbollah
O professor destaca a particularidade do Líbano, um Estado nacional formado por diferentes grupos confessionais, entre eles os xiitas libaneses, concentrados no sul do país e na periferia de Beirute. “Desde os anos 80, durante a guerra civil libanesa, esses grupos contaram com apoio militar e econômico do Irã, sobretudo pela organização de um grupo paramilitar, hoje partido político, que é o Hezbollah.”
A Resistência Islâmica funciona como uma espécie de interlocutor direto entre parte da sociedade libanesa e o Irã, com atuações militares conjuntas na guerra da Síria e na contenção do avanço israelense sobre o território libanês. “O Líbano funciona como uma caixa de ressonância indireta dos conflitos que envolvem Israel e Irã.”
Meihy lembra que esta é a primeira vez, nos últimos anos, que há um ataque israelense diretamente ao território iraniano — antes, a guerra sempre foi conduzida em teatros de operação indiretos, como Síria e Líbano.
A liberação de reservas estratégicas e os limites da resposta ocidental
Sobre a notícia de que mais de 30 países, incluindo Alemanha, Áustria, Japão e França, vão disponibilizar cerca de 400 milhões de barris de petróleo para conter a alta dos preços, Meihy é enfático: “Num primeiro momento, sim, é efetivo, mas é impossível de ser mantido a longo prazo. Isso mostra como a opção da guerra de desgaste é a melhor para a resposta iraniana ao conflito.”
“A economia mundial precisa da circulação do petróleo em Ormuz. Precisa que as principais refinarias do Golfo funcionem a pleno vapor. A liberação de reservas estratégicas ameniza temporariamente, mas é impossível de ser mantida a médio-longo prazo”, destaca.
Para o historiador, isso torna evidente que a estratégia iraniana para forçar o apaziguamento do inimigo entra com força neste momento. “Podemos ter uma pequena baixa no mercado do petróleo, que é super volátil, mas se os ataques iranianos à estrutura petrolífera dos países do Golfo continuarem, o efeito [dessas medidas de disponibilização de petróleo]pode ser menor. E, de todo modo, isso não deve durar por muito tempo.”
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