O artigo critica o uso recorrente do discurso sobre corrupção como arma eleitoral e espetáculo midiático coordenado, apontando uma seletividade que poupa setores como o mercado financeiro e o centrão. O autor argumenta que a estratégia, intensificada em ano eleitoral, visa atingir politicamente figuras como Lula e Moraes, enquanto ignora problemas estruturais como a desigualdade social. A cobertura midiática e ações de certos juízes são apresentadas como parte de um roteiro planejado com fins eleitorais.
Principais tópicos abordados:
1. A instrumentalização política e midiática da corrupção.
2. A seletividade e os alvos preferenciais das denúncias.
3. O papel coordenado de setores da mídia e do Judiciário.
4. A crítica à negligência com a questão da desigualdade social.
O retorno do velho roteiro da corrupção
A política brasileira revive o velho roteiro em que corrupção vira arma eleitoral e espetáculo midiático
Vamos lá, mais um capítulo da tristeza brasileira. Viva Paulo Prado.
Quando a direita percebeu que segurança pública não sangrava Lula de vez, sacou do bolso a velha e imorredoura corrupção.
O discurso da corrupção é uma ferramenta antiga e cínica. Serve para golpes eleitorais, serve para chantagem, serve para destruir biografias. Não precisa de prova, basta o barulho. O barulho certo, na hora certa, coordenado com a mídia certa. O resto o imaginário e a hipocrisia fazem.
Que fique claro: Lula e Moraes não têm nada em comum por convicção, projeto ou afinidade. O que os colocou no mesmo barco foi o golpe. Conjuntura, não cumplicidade. E os dois, creio, têm tamanho e estatura suficientes para se defender.
Do outro lado do tabuleiro, o elenco é revelador. Globo, ICL, Poder 360, André Mendonça com seu evangelicalismo de toga. E Fachin, o mesmo Fachin que saiu de Curitiba com a Lava Jato na bagagem, faz programa de ética em parceria com a mídia e ostenta um moralismo de fazer inveja a pastor em culto de quarta.
E o centrão, como sempre, atravessa a cena sem ser visto. É xingado, mas sempre acaba esquecido. O mercado financeiro também. Apresentado eternamente como o adulto na sala, vítima ou como bússola moral da República, nunca como réu. Mas o caso do Banco Master está aí. O governador Cláudio Castro está aí, Ibaneis também. Vorcaro está aí. Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central quando tudo foi articulado, está aí. Só que ninguém fala. Lula teve uma reunião com Vorcaro: manchete todo dia. Ciro Nogueira era amigo de vida dele, disse isso com todas as letras: silêncio total. Quem tomou chá vira réu. Quem tomou vinho nem é convocado.
A liturgia do capital é corrupta por definição. Corrupção não é anomalia, é o cotidiano. O que me revolta é que isso enlouqueça tanta gente, e o abismo social não enlouqueça ninguém. O empresário que lucra obscenamente é eficiente. O trabalhador explorado é o mercado funcionando. A desigualdade é natural. A miséria é natural. Só a corrupção é crime. Todo o resto é capitalismo. Essa seletividade moral tem assinatura de classe.
Ano eleitoral e, de repente, tudo faz sentido. Pautas esquecidas na gaveta ganharam urgência repentina. O forno ligou sozinho, como sempre liga.
O noticiário tem temperatura regulada. O Banco Master queima, Vorcaro queima, mas a fumaça some antes de chegar em certas direções. Roberto Campos Neto estava lá, era o presidente do Banco Central, articulou tudo. Está tranquilo. Ano eleitoral tem fogo controlado.
É a moral da tela. O juiz que vai salvar a República conhece o horário nobre e a câmera favorita. A ética tem endereço e tem horário. E quem financia o espetáculo nunca aparece nos créditos.
Enquanto isso, o abismo social segue lá, quietinho, longe das manchetes, fora das operações, referendado pela toga, sem a gritaria horrorosa da classe média. Crescendo todo dia e animando a barbárie.
André Mendonça virou o rei do estoicismo. Todo mundo fala que ele é sóbrio, ponderado, o adulto na sala. Enquanto isso, a PF vaza seletivamente, a Malu Gaspar publica, a Mônica Bergamo solta a bomba no fim da tarde, com aquela ironia de quem sabe mais do que está dizendo. A sobriedade tem roteiro. Os vazamentos têm endereço. E o endereço é sempre o mesmo.
Mas, quando o moralismo fica estridente demais, pontual demais, coordenado demais, tem cheiro.
E o cheiro é de golpe eleitoral.
Cai quem quer.
(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é Diretor de Relações de Trabalho do Sindserv – SBC, bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.