Resumo objetivo:
O Ministério Público do Rio Grande do Sul lançou a cartilha educativa “Não é Drama, é Violência” para conscientizar adolescentes sobre violência de gênero e relacionamentos abusivos, em meio ao aumento de casos e feminicídios no estado. O material, distribuído em escolas, busca ensinar jovens a identificar sinais de violência física, psicológica e sexual, além de incentivar a busca por ajuda. A iniciativa enfatiza a prevenção por meio do diálogo em linguagem acessível, destacando a importância do respeito e do consentimento.
Principais tópicos abordados:
1. Lançamento de cartilha educativa pelo MPRS para adolescentes sobre violência de gênero.
2. Aumento de casos de feminicídio e violência contra mulheres no Rio Grande do Sul.
3. Abordagem pedagógica para identificar formas de violência (física, psicológica, sexual) e relacionamentos abusivos.
4. Estratégia de prevenção nas escolas, com foco em respeito, consentimento e canais de denúncia.
Em meio ao aumento dos casos de violência contra mulheres e meninas no Rio Grande do Sul, o Ministério Público do Estado (MPRS) lançou, nesta segunda-feira (9), a cartilha educativa “Não é Drama, é Violência”, voltada à conscientização de adolescentes sobre relacionamentos abusivos e violência de gênero. A atividade ocorreu durante uma palestra no Colégio João Paulo I – Unidade Sul (JPSul), na zona sul de Porto Alegre, reunindo cerca de 85 estudantes entre 14 e 18 anos.
Em sua intervenção, a promotora de Justiça Carla Frós, coordenadora da Central de Atendimento às Vítimas de Porto Alegre, alertou para o aumento dos casos de feminicídio no estado. Desde o início de 2026, 21 mulheres já foram assassinadas no Rio Grande do Sul em 2026. A 21ª vítima neste ano foi Gislaine Reguss, morta na noite de terça-feira (10), em Montenegro, no Vale do Caí.
“Temos que falar sobre esse assunto. As meninas precisam saber que violência não é só física, é também psicológica e que pode ocorrer em qualquer ambiente: em casa, na escola ou nas redes sociais. É fundamental que nossos adolescentes compreendam que violência não é normal e nunca deve ser tolerada. Cada jovem precisa identificar sinais de controle, ciúme, pressão e desrespeito, e entender que tem direito a ajuda, proteção e acolhimento”, afirmou.
A cartilha educativa do MPRS foi impressa em parceria com o Sicredi e distribuída gratuitamente aos estudantes. Voltado ao público adolescente, o material apresenta orientações sobre como identificar situações de violência de gênero, reconhecer sinais de abuso, buscar ajuda e acessar os canais de denúncia.
A publicação é conduzida pela personagem Luma Valente, que apresenta temas como violência física, com ou sem marcas, violência sexual, incluindo beijos forçados, toques sem consentimento e pressão para envio de nudes, além de situações de relacionamento abusivo.
Educação e prevenção nas escolas
De acordo com Frós, a iniciativa busca ampliar o diálogo sobre violência de gênero entre jovens e incentivar relações baseadas no respeito. “Hoje tivemos a felicidade de lançar a nossa cartilha com a personagem Luma, criada justamente para trabalhar a violência de gênero nas escolas. Tivemos cerca de 85 meninas nessa manhã e já conversei com o diretor que também precisamos levar essa conversa e essas cartilhas para os meninos.”
Segundo a promotora, o encontro abordou temas como respeito, consentimento e diferentes formas de violência. “Falamos muito sobre violência de gênero, respeito, relacionamento abusivo e que não é não. Foi excelente essa manhã. Fico muito feliz de ter tido essa oportunidade de participar desse lançamento e de trazer para essas meninas o que de fato é violência de gênero, que é aquela que ocorre em razão de desigualdades sociais”, afirmou
“Enquanto mulheres estiverem sendo vítimas de feminicídio, nós não estaremos sendo respeitadas. Enquanto não houver respeito, mulheres continuarão morrendo. Então é fundamental trazer esses temas para as escolas, de uma forma mais lúdica, com vídeos que mostrem o que pode acontecer em relacionamentos abusivos”, acrescentou.
A promotora também destacou que muitas formas de violência não deixam marcas físicas, como a psicológica. “Da manipulação e do controle que muitos meninos exercem sobre as meninas, seja nas redes sociais, seja não aceitando o que elas estão curtindo ou quem estão seguindo.”
Cartilha busca dialogar com adolescentes
A iniciativa faz parte de uma estratégia do Ministério Público para ampliar ações de prevenção entre jovens. “Finalmente essa cartilha, que tem uma linguagem super acessível e que conversa com os adolescentes na linguagem deles, chega às mãos dos meninos e das meninas que precisam discutir e falar sobre uma violência que, a gente querendo ou não, está na vida de todas as pessoas, celebra a coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do MPRS, Ivana Battaglin.
Segundo Battaglin, abordar o tema nas escolas é fundamental para ampliar a conscientização sobre a violência de gênero. “Com uma abordagem bastante lúdica, a gente precisa falar sobre violência de gênero contra meninas e mulheres. E essa fala precisa ser feita com os meninos e com as meninas. E ela precisa ser feita na escola. Por isso, hoje é um dia super importante.”
Escola como espaço de acolhimento
Para a psicóloga do Colégio João Paulo I Sul, Vitória Aguiar, discutir o tema no ambiente escolar é essencial para ampliar a rede de proteção das adolescentes. “A escola é um ambiente de socialização e a gente precisa caminhar junto com outros espaços, como as famílias. Hoje em dia as adolescentes têm acesso a muita informação nas redes sociais, e a temática da violência contra a mulher tem aparecido muito, principalmente neste ano, com casos chocantes no Brasil, no mundo e no Rio Grande do Sul”, afirmou.
Segundo ela, o objetivo é que a escola também seja um espaço de escuta e acolhimento. “É fundamental que isso seja trabalhado aqui para que a escola também seja um espaço onde elas possam trazer questões, conversar, ser acolhidas e receber o melhor encaminhamento possível. A gente sabe que esse tipo de situação acontece, principalmente fora da escola, então precisamos estar sempre atentos e ajudar essas meninas a buscar ajuda e prevenir.”
Violência contra crianças e adolescentes cresce no RS
A discussão sobre violência de gênero entre adolescentes ocorre em um contexto de crescimento das notificações de violência contra crianças e jovens no estado. Conforme reportagem do Brasil de Fato RS, a violência contra crianças e adolescentes voltou a crescer no Rio Grande do Sul em 2024.
Dados da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH), obtidos via Lei de Acesso à Informação, apontam aumento das notificações em todas as faixas etárias. Segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação da Secretaria Estadual da Saúde (Sinan/SES-RS), foram registrados 12.371 casos de violência contra pessoas de 0 a 18 anos no estado em 2024, envolvendo violência física, psicológica, sexual e negligência.
As meninas são as principais vítimas, representando 84,7% dos casos, enquanto meninos correspondem a 15,3%. Entre as tipologias mais recorrentes, a violência sexual aparece de forma alarmante, com 720 casos entre crianças de 0 a 5 anos, 1.435 entre 6 e 11 anos e 1.663 entre adolescentes de 12 e 18 anos.
De acordo com a secretaria, a maioria dos agressores são homens com vínculo familiar ou proximidade com as vítimas, reforçando o padrão de violência doméstica e sexual dentro do ambiente familiar.
Projeto busca ampliar conscientização entre jovens
A promotora de Justiça Cristiane Corrales, coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Educação, Infância e Juventude, explicou que a publicação integra o projeto Universo MPRS, voltado à prevenção da violência. “Mais do que nunca é oportuno o lançamento da cartilha ‘Não é drama, é violência’. Diante de tantos casos de violência contra mulheres e meninas, estupros coletivos e situações graves envolvendo crianças e adolescentes, é muito importante a conscientização desse público”, disse.
Corrales conta que o Ministério Público do Rio Grande do Sul está indo às escolas para divulgar não apenas a cartilha, “mas uma proposta de prevenção”, para construir uma sociedade com menos violência contra mulheres e meninas. “É uma cartilha que não se destina apenas às meninas, mas também aos meninos, como momento de reflexão na escola.”
Personagem aproxima debate do público jovem
A protagonista Luma Valente, primeira super-heroína do projeto Universo MPRS, foi criada para conscientizar crianças e adolescentes sobre temas sensíveis e urgentes. Com 15 anos, possui o “olhar da coragem”, um superpoder capaz de enxergar sofrimentos invisíveis, especialmente entre meninas que enfrentam medo, tristeza ou violência.
O nome Luma Valente foi escolhido por votação nas redes sociais da instituição, ampliando o engajamento do público jovem. O projeto também conta com um vídeo que apresenta a personagem e marca o início de uma estratégia de educação, prevenção e protagonismo juvenil no enfrentamento à violência contra meninas e mulheres.
Formação contra os feminicídios
A Escola de Formação Feminista e Antirracista Emancipa Mulher, em parceria com o coletivo Juntas RS, promove na quinta-feira (12), às 18h30, o primeiro módulo da Jornada de Formação Contra os Feminicídios. Com o tema “Feminicídio: um crime que se combate em rede”, a atividade marca o início de um ciclo formativo voltado à reflexão e à construção de estratégias coletivas de prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres no Rio Grande do Sul.
O encontro será realizado de forma presencial na sede do Emancipa Mulher, localizada no Centro Histórico de Porto Alegre (Rua Riachuelo, 1339, sala 1.001), e pretende reunir ativistas, representantes de movimentos sociais e integrantes da rede de proteção para debater caminhos de articulação e políticas públicas voltadas ao combate ao feminicídio.
O debate contará com a participação da deputada federal Fernanda Melchionna (Psol-RS), presidenta da Comissão Externa da Câmara dos Deputados responsável por acompanhar os casos de feminicídio no estado, e da vice-presidenta do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do RS e integrante das Promotoras Legais Populares (PLP), Fabiane Lara dos Santos. A mediação será realizada pela deputada estadual Luciana Genro (Psol).
Durante a atividade também será apresentada ao público uma cartilha que leva o nome da jornada, reunindo informações e reflexões sobre o enfrentamento à violência de gênero e o fortalecimento das redes de apoio às mulheres. O encontro é gratuito, aberto ao público e não requer inscrição prévia.
A cartilha do MPRS pode ser acessada através deste link.
*Com informações da Assessoria de imprensa do MPRS.