A Raízen entrou em recuperação extrajudicial para reestruturar uma dívida de cerca de R$ 65 bilhões, elevada principalmente pelos agressivos investimentos em tecnologia para produzir etanol de segunda geração (E2G). Apesar de ser uma aposta sustentável e produtiva, o E2G é tecnologicamente complexo, caro e tem perdido espaço competitivo para o etanol de milho. Para reduzir o endividamento, a empresa já vendeu ativos históricos, como a usina Santa Elisa.
Principais tópicos abordados:
1. Recuperação extrajudicial e alto endividamento da Raízen.
2. Investimentos em etanol de segunda geração (E2G) como causa do endividamento.
3. Venda de ativos para aliviar a dívida.
4. Contexto competitivo do setor e desafios do E2G.
Executivos de usinas e entidades do setor sucroenergético apontam, reservadamente, que o endividamento elevado da RaÃzen se deu, sobretudo, à busca de novas tecnologias para o seu negócio, como a produção de etanol de segunda geração. Nesta terça-feira (10), a companhia entrou com um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de R$ 65 bilhões em dÃvidas.
O E2G, jargão do mercado para o biocombustÃvel, é produzido a partir de resÃduos vegetais, como o bagaço e a palha de cana-de-açúcar, e é uma aposta para a diminuição das emissões de carbono. Acontece que esse tipo de produto é tecnologicamente mais complexo e caro que o etanol de primeira geração. Além disso, o E2G tem sido deixado para trás para o etanol de milho, que tem sustentado o avanço de concorrentes da RaÃzen, como Inpasa e FS.
Com o endividamento crescente, a RaÃzen, principal produtora de etanol de cana-de-açúcar no Brasil, teve de se desfazer de ativos, como uma quase centenária usina na região de Ribeirão Preto, mais tradicional polo do setor no paÃs.
O etanol de segunda geração é um combustÃvel processado a partir de resÃduos como palha, folhas e bagaço de cana, que permite a elevação da produtividade em até 50% sem aumentar o tamanho da área plantada, conforme a RaÃzen.
O projeto é visto como emblemático, por envolver tecnologias novas e limpas, mas só uma planta inaugurada em 2024 com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Guariba, no interior de São Paulo, custou R$ 1,2 bilhão. Outras unidades surgiram depois dela, como Valparaiso e Barra Bonita, ao mesmo custo.
A avaliação de executivos ouvidos pela Folha é a de que o investimento foi muito agressivo, o que pressionou o caixa da companhia. A RaÃzen se declara como a única no mundo a produzir o biocombustÃvel em escala comercial.
Os negócios da RaÃzen passam por todas as etapas da cadeia produtiva de cana: produção de açúcar, etanol e bioenergia. Hoje, a companhia distribui e comercializa mais de 30 bilhões de litros de combustÃveis anuais. Detém mais de 8 mil postos por meio da marca Shell. Além disso, opera 70 terminais de distribuição, atendendo aos principais aeroportos e mais de 5 mil empresas no paÃs.
Em um recorte mundial, a RaÃzen está presente no Brasil, Argentina, Estados Unidos, França, Alemanha e Indonésia.
Antes de implementar a tecnologia de segunda geração, os resÃduos eram descartados. O bagaço da cana já era usado para gerar energia, mas com o surgimento das novas plantas também passou a ser utilizado como matéria-prima, junto com a palha e outros resÃduos, para a produção do etanol ânum processo que inclui mais etapas, como pré-tratamento, hidrólise, separação, evaporação, fermentação e destilaria.
O avanço gradual das dÃvidas da gigante do agronegócio fez com que ela fosse obrigada a se desfazer de negócios, como a histórica usina Santa Elisa, em Sertãozinho, na região de Ribeirão, fundada em 1936.
A usina empregava 1.200 trabalhadores âdispensados sem aviso prévio, conforme o sindicato da categoriaâ e encerrou as atividades em julho do ano passado. A cana â3,6 milhões de toneladasâ foi vendida para outras usinas. O objetivo da RaÃzen foi usar o R$ 1,045 bilhão arrecadado no negócio com a venda da cana própria e a cessão de contratos com fornecedores para reduzir o seu endividamento.
No ano safra 2024/25 âde abril de 2024 a março do ano passadoâ, a RaÃzen obteve R$ 255,3 bilhões de receita lÃquida, com Ebitda ajustado de R$ 10,8 bilhões. Comercializou 34,2 bilhões de litros de combustÃvel e produziu 5,1 milhões de toneladas de açúcar.
No fim de dezembro de 2025, a empresa apresentou uma alavancagem de 5,3 vezes entre a relação dÃvida lÃquida e Ebitda. Para voltar a ser considerada uma empresa saudável, a RaÃzen precisaria reduzir ao menos um terço de seu endividamento, para algo próximo a R$ 24 bilhões. Parte do endividamento será resolvido com o aporte previsto de R$ 3,5 bilhões por parte da Shell e de R$ 500 milhões pelo empresário Rubens Ometto, que comandam em conjunto o negócio.
HISTÃRIA
A empresa é uma joint venture entre a Cosan e a Shell, e foi fundada em 2011, após uma negociação entre o empresário Rubens Ometto e a companhia britânica. Na assinatura do contrato havia uma cláusula segundo a qual depois de dez anos a Shell poderia comprar a participação da parceira de empreitada.
Após um inÃcio promissor da sociedade, a cláusula foi retirada a pedido da própria Shell, revelou Ometto em sua autobiografia "O inconformista: A trajetória e as reflexões do empresário que fez da Cosan um dos maiores sucessos corporativos do Brasil" (Portfolio Penguin, 2021).
"Pretendemos ficar casados com vocês para a vida inteira", disse Ben van Beurden, CEO da Shell entre 2014 a 2022. A declaração foi em meio a um Grande Prêmio de Fórmula 1 que os parceiros acompanhavam em São Paulo.
No livro, Ometto afirma que a relação entre a Cosan e a Shell na administração do ativo é cordial, mas que, como em qualquer casamento, deve-se "brigar para manter a relação viva e também para renovar o respeito que um deve ter pelo outro".
FRUSTRAÃÃO NO VAREJO
Em 2019, a RaÃzen decidiu entrar no varejo. Por meio de uma parceria com o grupo mexicano Femsa, trouxe ao Brasil o mercado de proximidade Oxxo. A empreitada foi vista como uma distração por analistas, uma vez que não fazia parte da principal linha de atuação da empresa.
A rede demandou um investimento de capital expressivo para a abertura de centenas de unidades no paÃs, mas não teve o retorno esperado.
Depois de procurar possÃveis compradores para sua parte no negócio, Ometto decidiu abandonar a Oxxo. Com a recorrente queima de caixa, a joint venture entre as companhias chegou ao fim em 2025. A Femsa retomou a administração das lojas Oxxo no paÃs, enquanto a RaÃzen ficou com a gestão das mais de 1,3 mil lojas Shell Select e Shell Café.
A operação brasileira da Oxxo nunca atingiu o chamado ponto de equilÃbrio, quando a operação começa a se pagar, e foi um fator agravante para a atual crise da RaÃzen.