Resumo objetivo:
O livro "Imaginários Emergentes e Mulheres Negras", de Rosane Borges, analisa as lutas, representações e estratégias de resistência das mulheres negras no Brasil, abordando o combate ao racismo e ao sexismo a partir de perspectivas descolonizadas. A obra revisita e dialoga com pensadoras negras fundamentais, como Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, para discutir a construção de novos imaginários e linguagens. Por fim, destaca como o racismo e a misoginia contra mulheres negras estão enraizados no passado colonial e escravista, propondo uma reflexão urgente para a transformação social.
Principais tópicos abordados:
1. Resistência e representação das mulheres negras contra o racismo e o patriarcado.
2. Diálogo com pensadoras e intelectuais negras brasileiras (como Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez).
3. Crítica aos legados coloniais e escravistas que perpetuam a violência racial e de gênero.
4. Proposta de descolonização do olhar e construção de novos imaginários por meio de uma escrita disruptiva e política.
Na obra "Imaginários Emergentes e Mulheres Negras: Representação, Visibilidade e Formas de Gestar o ImpossÃvel" (ed. Instante), Rosane Borges provoca nossa consciência enquanto ser social pensante e nos faz pensar sobre temas que, há muito tempo, a intelectualidade negra feminina politicamente se posiciona e propõe formas de combate, luta e reflexão.
Como afirma em sua obra, o nome de um livro não se encerra pelo seu tÃtulo, muito pelo contrário. Neste caso, se amplia como artifÃcio do pensamento analÃtico, de ideias e enquanto propositura do posicionamento crÃtico em uma sociedade onde a mulher, sobretudo a negra, geralmente cumpre papel de autodefesa âembora nem sempre isto seja suficiente para assegurar sua sobrevivência e integridade.
No trabalho, quando Borges fala em mulher negra, tem-se em pauta dilemas associados a origem e destino, relacionados ao campo do pertencimento e da resiliência no âmbito do enfrentamento ao pacto racista, sob o viés do colonialismo, e sexista, pelo prisma do patriarcado brasileiro.
O livro, dividido em cinco partes, com capÃtulos contextualizando cada uma delas, faz um detalhamento que pode ser visto como um panorama do "sistema do pensamento negro e feminino". No texto de abertura, "Gestos polÃticos de insurreição: o que pode a estética num mundo que se despedaça?", a autora reflete sobre a ideia de despedaçamento, ou do mundo despedaçado, e, neste particular, usa da "licença poética franqueada", do ponto de vista crÃtico, advogada por Chinua Achebe, escritor nigeriano.
Outra parte que se destaca é "Por outra plataforma de linguagem, por outro sistema de trocas". Borges, sob a premissa de "trocas comunicativas", faz uma imersão no pensamento de Beatriz Nascimento, essa sagaz historiadora do quilombismo, retrabalhando a tessitura que envolve um "emaranhado de fios e linhas que não se rompem com o tempo".
Vale igualmente mergulhar em "Das incidências do imaginário: o passado que nos governa, sujeito a novas racionalidades", no qual emerge "o corpo-bailarina", conceito-teoria incurso em "tempo espiralar", sob a ótica do "pensar e fluir", da mestra Leda Maria Martins.
O livro é interessante e oportuno, não só por revisitar pensadoras e intelectuais negras contemporâneas, a exemplo de Lélia Gonzalez, Carolina Maria de Jesus e Sueli Carneiro, cujas vozes ecoam e vibram até hoje o mundo afrobrasileiro.
Ao mesmo tempo não é obra simples e enquadrável na seara ensaÃstica e da história. Com seu sensÃvel olhar, Borges traz sempre no discurso "cenas dissentes, imagens de ruptura", verdades epistêmicas em que arraigados saberes, não ancestrais, são postos à contraprova.
Essa dimensão nos faz perceber que, no Brasil, tanto a prática racista quanto hábitos misóginos contra mulheres negras estão presos a dores do passado escravista e colonial, eixos fundantes de nossa nação.
Professora e militante feminista, Borges tem forte atuação cultural na academia, focada no trabalho de "descolonização do olhar". Sua escrita disruptiva encarna sua ação antirracista, em evidente compromisso com a memória, a ancestralidade e a multiplicação do conhecimento.
Com isso é possÃvel dizer que "Imaginários Emergentes e Mulheres Negras" se conecta com a urgência do Brasil, que precisa acordar e virar a página.