O Parlamento da Alemanha aprovou a recategorização dos lobos como "espécie caçável", permitindo seu abate controlado entre julho e outubro. A decisão foi motivada pelo aumento de ataques a animais de criação e pelos altos custos de proteção aos rebanhos, após a recuperação populacional da espécie, que estava extinta no país até os anos 2000. A mudança foi possível devido ao rebaixamento do nível de proteção do lobo na Convenção de Berna e em diretrizes da União Europeia.
Principais tópicos abordados:
1. Aprovação da lei que permite a caça controlada de lobos na Alemanha.
2. Justificativas baseadas em prejuízos econômicos e ataques a animais de criação.
3. Contexto da recuperação populacional da espécie e mudança no status de proteção internacional.
4. Controvérsias e críticas à medida, incluindo a oposição de ambientalistas e a desigual distribuição regional dos lobos.
O Parlamento da Alemanha aprovou na última quinta-feira (5) a recategorização dos lobos como "espécie caçável" após o retorno desses predadores ao território do paÃs europeu nos últimos anos.
A emenda à lei federal de caça permitirá o abate de lobos na Alemanha de 1º de julho a 31 de outubro.
Estimativas apontam que há cerca de 1.600 lobos selvagens no paÃs. A espécie havia sido considerada extinta em território alemão já no século 19, mas começou a se espalhar novamente nos anos 2000. Após a Reunificação alemã e a abertura das fronteiras intereuropeias, os predadores passaram a migrar da Polônia e de outros paÃses do Leste Europeu para o território alemão. A caça era proibida na Alemanha desde os anos 1990.
Na justificativa para a emenda, que foi discutida no Parlamento, o governo afirmou que 4.300 animais de criação foram mortos ou feridos em cerca de 1.100 ataques por lobos em 2024 e que os custos de proteção aos rebanhos alcançaram 23,4 milhões de euros (cerca de R$ 140 milhões).
A mudança na lei alemã só foi possÃvel porque o status de proteção do lobo na Convenção de Berna sobre a conservação da vida selvagem europeia foi rebaixado, em 2025, de "estritamente protegido" para "protegido". A mudança levou a publicação de uma diretriz da União Europeia reduzindo o nÃvel de proteção, abrindo caminho para que paÃses-membros do bloco fizessem o mesmo.
Alguns fazendeiros alemães pediam, há muito, um controle maior da população de lobos. "Temos vários milhares de ataques por lobos a animais de pasto todos os anos. Isso significa uma morte agonizante. Se você quer preservar a pecuária em regime de pastoreio, precisa reduzir a população", afirmou o presidente da Associação Alemã de Agricultores (DBV, na sigla em alemão), Joachim Rukwied, ao jornal Münchner Merkur no ano passado.
Caça aos lobos segue controversa
A nova lei, no entanto, está sendo contestada em muitos protestos, especialmente na região da Floresta Negra, no sudoeste da Alemanha, onde as populações de lobos não se recuperaram tanto quanto no norte do paÃs. Um relatório divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente do estado alemão de Baden-Württemberg em dezembro de 2025 mostrou que o estado, o terceiro maior da Alemanha em área, tinha apenas quatro lobos.
Existem tão poucos lobos em Baden-Württemberg que os moradores chegaram a dar nome a um deles, "Grindi", e têm protestado contra o plano do governo de abatê-lo, já que ele foi visto aproximando-se de pedestres. Esse comportamento é extremamente incomum para os lobos, que tendem a evitar o contato com humanos.
Em comparação, a associação de caçadores da Baixa Saxônia, o segundo maior estado alemão em área, contabilizou cerca de 54 alcateias de lobos no inÃcio de 2025. Segundo o Centro Federal Alemão de Documentação e Consultoria sobre Lobos (DBBW), o número de ataques de lobos ao gado tem aumentado de forma constante, passando de pouco mais de cem animais mortos em 2006 para mais de 5.500 em 2023, embora o número tenha voltado a cair para menos de 4.500 em 2024.
A população de lobos realmente se recuperou?
Sybille Klenzendorf, diretora de programas de vida selvagem na Europa da filial alemã do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), argumenta que estudos cientÃficos mostram que a caça indiscriminada não é uma forma eficaz de impedir ataques a rebanhos. Na verdade, pode até ser contraproducente, porque, quando os lobos adultos são mortos, os jovens que ficam para trás costumam vagar mais em busca de presas fáceis.
"A caça não vai resolver o problema dos danos ao gado, a menos que se elimine completamente o lobo mais uma vez, o que eles disseram que não vão fazer", disse ela à DW.
Apesar do aumento no número de lobos em algumas regiões da Europa, os cientistas ainda não confirmam que as populações tenham realmente se recuperado.
"Se você olhar o mapa dos habitats disponÃveis, há uma grande quantidade de áreas no sul da Alemanha favoráveis aos lobos, mas onde não há lobos", disse Klenzendorf. "Pela legislação da UE, é preciso analisar o nÃvel populacional em vários paÃses para determinar se o lobo se recuperou ou não, e isso não está acontecendo."
Klenzendorf acredita que o governo alemão, formado pelos partidos conservadores União Democrata Cristã (CDU) e União Social Cristã (CSU), além do Partido Social-Democrata (SPD), simplesmente tenha decidido declarar a recuperação da população de lobos sem aguardar pelas evidências cientÃficas.
Ela também destacou que outros paÃses europeus, como Ãustria e SuÃça, estão conseguindo proteger seu gado usando cercas elétricas e cães de guarda, "ou pastores ativos, como era antes", disse ela.
"Estão usando isso de novo também nas regiões alpinas. Então, dá pra fazer: sim, dá mais trabalho e custa dinheiro, mas, por outro lado, o retorno dos lobos reduz muito os custos em restauração florestal. Há muito menos danos às árvores jovens quando há lobos nas proximidades, porque cervos e javalis não permanecem em determinadas áreas se há predadores por perto."