O artigo analisa o apoio de alguns cristãos evangélicos aos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, justificando-o com o conceito de "guerra justa". No entanto, o texto argumenta que o conflito não atende aos critérios clássicos dessa doutrina, como causa justa, último recurso e busca por uma paz melhor. A explicação para esse apoio, segundo o artigo, está no sionismo cristão, que vê a guerra como um cumprimento de profecias bíblicas para o retorno de Jesus, priorizando essa interpretação sobre o pacifismo pregado no Evangelho.
Principais tópicos abordados:
1. A aplicação (e a crítica) da doutrina da "guerra justa" ao conflito com o Irã.
2. A motivação teológica do apoio evangélico, baseada no sionismo cristão e em interpretações escatológicas.
3. A contradição percebida entre esse apoio bélico e os ensinamentos pacifistas de Jesus.
Por que há cristãos evangélicos que apoiam a guerra movida por Donald Trump e Binyamin Netanyahu contra o Irã? Cristãos, em geral, costumam ser contrários à guerra, porém, admitem como exceção as chamadas guerras justas.
A aprovação dos evangélicos aos ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã baseia-se na premissa de que tal ação constitui uma guerra justa. Essa justificação se apoia em dois pilares: a opressão do povo iraniano pelo seu governo teocrático e a ameaça representada pelo avanço do programa nuclear do paÃs.
Santo Agostinho (354-430) é o responsável pelo conceito teológico da guerra justa. Vejamos quais são os critérios para uma guerra justa e, mais adiante, se eles se aplicam aos ataques contra o Irã.
Primeiro: uma guerra deve ser declarada publicamente por uma autoridade legÃtima. Segundo: deve haver uma causa justa, por exemplo, a defesa em caso de ataque. Terceiro: deve ser utilizada como recurso extremo, ou seja, esgotados os meios pacÃficos para evitá-la. Quarto: uma guerra justa deve buscar uma condição melhor que a situação presente.
As decisões pelos ataques ao Irã, tanto nos Estados Unidos quanto em Israel, foram tomadas por governos legÃtimos, mas com controles democráticos internos enfraquecidos, o que atende apenas parcialmente ao primeiro item da guerra justa.
O Irã havia atacado militarmente os Estados Unidos ou Israel? Não. Os meios pacÃficos de negociação com o Irã haviam se esgotado? Não, pois, em fevereiro de 2026, os Estados Unidos e o Irã haviam retomado as negociações sobre o programa nuclear iraniano. Por fim, a guerra contra o Irã não resultará numa situação melhor para o paÃs ou para a região, conforme admitido recentemente pelo presidente Trump.
Os ataques contra o Irã não preenchem os requisitos elaborados por santo Agostinho para classificar um conflito militar como guerra justa. Se os quatro itens de guerra justa fossem transformados numa prova com nota máxima 10, Trump e Netanyahu obteriam nota 1,25.
Por que, então, alguns evangélicos insistem em apoiar a guerra, apesar de reconhecerem que se trata de uma transgressão do mandamento "Não matarás"? Por qual razão teimam em defender as agressões militares contra o ensino de Jesus no Sermão da Montanha: "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus"?
Os evangélicos que apoiam os ataques contra o Irã são sionistas. Isso significa que pensam que Deus oferece tratamento especial para o moderno Estado de Israel em oposição às demais nações, principalmente àquelas de maioria islâmica.
Diante do conflito no Oriente Médio, evangélicos sionistas citam as palavras de Jesus: "Ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; vede, não vos assusteis, porque é necessário assim acontecerâ¦" (Mateus 24:6). Eles entendem que a guerra é uma pré-condição para o retorno de Jesus à Terra.
Fico a pensar: se evangélicos anseiam tanto pela volta de Jesus à Terra, por que desprezam o pacifismo que o Jesus histórico pregou quando andava por aquelas bandas do planeta? Inspiram-se mais nas guerras do Velho Testamento do que no Jesus retratado pelos quatro evangelistas?
à intrigante e angustiante ver os malabarismos exegéticos que cristãos sionistas fazem para forçar o encaixe ideológico de eventos geopolÃticos nas profecias bÃblicas, enquanto deixam em segundo plano a mensagem cristalina de paz pregada por Jesus de Nazaré.
Jesus, segundo o Evangelho de Mateus, disse que no fim dos tempos haveria fome no mundo. Cristãos não imaginam que isso signifique que a fome não deva ser combatida com a distribuição mais equitativa de alimentos. Por que seria diferente com a guerra? A predição de guerras não anula o dever ético dos cristãos na busca pela paz justa.